Procura-se a geração de 89

Perfil de grupos ligados a marcos históricos como 1939 e 1968 é mais definido, mas o futuro depende dos filhos do Muro

TIMOTHY GARTON, ASH, ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2014 | 02h02

De cima do Muro que, desde ontem, se tornou inútil, jogamos chocolates aos soldados na fronteira da Alemanha Oriental que, impassíveis, montam guarda - contra quem, defendendo o que? Com as botas eles empurram longe os chocolates. Um dos berlinenses ocidentais ao meu lado tenta de novo: "Vocês não gostariam de um cigarro ocidental?" Recusam, um pouco sem graça. Então pergunto: "Por que estão aqui?" Desta vez, recebo uma resposta: "As solicitações de entrevista precisam ser registradas com antecedência, tanto deste lado como no seu".

Rabisco algumas linhas na minha caderneta. Momentos surreais no maior acontecimento da história do nosso tempo. Em alemão, todos os substantivos começam com maiúscula, portanto, mesmo a parede de uma casa é um Mauer com M maiúsculo. Em inglês, há muitos muros, mas somente um Muro, o que foi derrubado na noite de quinta-feira, 9 de novembro de 1989, e nos brindou com uma nova rima da história: the fall of the Wall (a queda do muro).

Há coisas no meu livrinho que posteriormente publiquei e portanto nunca esquecerei: o casal ofegante, de jaqueta jeans, que vinha do interior e perguntou: "Com licença, a saída é por aqui?"; o homem que caminhava na Friedrichstrasse e exclamou: "Vinte e oito anos e 91 dias!" (o tempo durante o qual teve de ficar atrás do Muro); o pôster improvisado que proclamava: "Somente hoje a guerra acabou de fato".

No avião de volta a Varsóvia, recentemente, terminei de ler o livro da historiadora americana Mary Elise Sarotte. Intitula-se The Collapse: The Accidental Opening of the Berlin Wall. Sarotte fez uma reconstituição inteligente, escrupulosamente documentada, detalhada, de como uma série de erros cometidos pelos líderes e funcionários da Alemanha Oriental - e de decisões individuais tomadas por comandantes dos postos de fronteira transformaram o que pretendia ser um processo de abertura controlada cuidadosamente planejado ("solicitem suas licenças de viagens") na celebração popular de libertação mais comemorada do mundo.

Um dos erros fatais foi um documento oficial sobre a liberação das viagens que incluía Berlim e o restante da fronteira interna alemã, e o famoso momento em que Günter Schabowski, membro do Politburo, numa coletiva crucial, no começo da noite de 9 de novembro, sugeriu que as pessoas podiam começar a viajar "imediatamente". A história é feita dessas trapalhadas, imprevistos e escolhas individuais, sugere Sarotte.

Seu subtítulo - "A abertura acidental" - está ao mesmo tempo errado e certo. Errado, no sentido de que o antigo regime, selado pelo Muro em Berlim Oriental, não poderia continuar como antes, considerando o que Mikhail Gorbachev estava disposto a encorajar - uma ampla reforma - e, o mais importante, o que ele estava disposto a aceitar: a revolução negociada pacificamente, como já estava acontecendo na Polônia e na Hungria. Certo, no sentido de que a maneira "acidental" como isso aconteceu, desde as reações populares espontâneas na Alemanha Oriental às reportagens da televisão da Alemanha Ocidental sobre as besteiras das autoridades da Alemanha Oriental.

Como ela observa, o "por quê" é inseparável do "como". Neste caso, o "como" se tornou a essência do evento e o fator determinante de suas consequências. Não só criou imagens inesquecíveis que constituem fundamentalmente o próprio acontecimento (comparáveis, embora em tonalidades de luz e não de sombra, ao colapso das torres gêmeas em Nova York, no dia 11 de setembro de 2001). Ele marcou o momento em que o poder passou de maneira decisiva dos chamados Machthaber - os detentores do poder - para o povo. Porque todos diziam que o Muro estava aberto, o Muro estava aberto. Porque todos diziam que tudo tinha mudado, tudo tinha mudado.

O verdadeiro drama de 9 de novembro de 1989 é mais difícil de recapturar. Para começar, não é o que se vê na maior parte das fotografias e vídeos, que mostram o lado do Muro coberto de grafites coloridos. Este era o lado ocidental, o lado livre, aquele que já desfrutava da liberdade de expressão.

Evidentemente, esse foi o grande momento para os berlinenses ocidentais, e para os alemães ocidentais, mas não foi o dia da unificação. Isso ocorreu quase um ano mais tarde, no dia 3 de outubro de 1990, depois que a maioria dos alemães orientais votou pela união com a Alemanha Ocidental.

A queda do Muro foi o dia da libertação para os que estavam atrás do Muro, e não o dia da unificação para os que estavam diante dele. Portanto, o que importava era o outro lado da barreira de concreto grosseiramente erguida, o lado que as pessoas não pintaram com tinta de aerossol, mas que tentavam escalar pondo em risco a vida. Só será possível captar a profundidade emocional dessa libertação se se imaginar como foi viver por trás daquele "muro de proteção antifascista" (enganadora designação oficial) por toda a vida, sem jamais pôr os pés na metade ocidental da própria cidade.

Esta é a outra coisa que até mesmo os maiores historiadores lutam para recuperar: o sentido do que as pessoas da época desconheciam. Para os que moravam atrás dele, o Muro de Berlim tornara-se quase como os Alpes, um fato aparentemente imutável da geografia física. E mesmo quando as coisas começaram a mudar drasticamente na Polônia e na Hungria, a maioria das pessoas não acreditou que os Alpes pudessem desmoronar. Afinal, um império nuclear os mantinha em pé. Em 1989, fui a Berlim Oriental visitar um pequeno círculo de amigos dissidentes, depois de finalmente conseguir visto da Alemanha Oriental. "Bom", comentaram com ar sombrio os dissidentes, "talvez isso seja possível na Polônia e na Hungria, mas não aqui".

A multidão dos que recordam ter, de certa forma, previsto esses eventos cresceu como as relíquias da cruz verdadeira. Mas eles não foram mais sábios: não os espiões, não os sabichões, não os políticos, não os diplomatas, não os cientistas políticos - eu tampouco. Alguns com certeza insistiram que o Muro cairia e a Alemanha seria unificada, mas nenhum previu quando e, sobretudo, como ocorria. E "como" era tudo.

O ano de 1989 se tornou o novo 1789: simultaneamente um ponto de virada e um ponto de referência. Vinte e cinco anos depois, ele nos deu o que é, politicamente, a melhor Alemanha que já tivemos (culturalmente, outras Alemanhas foram mais interessantes, mas se eu tivesse que escolher entre Wagner e a democracia, escolheria a democracia). Ela tornou possível a Europa que temos hoje, com todas as suas liberdades e todos os seus defeitos. Não há um canto do mundo que suas consequências não tenham atingido.

A queda do Muro tornou-se o tipo de metáfora mestra de nossa era, usada especialmente por políticos ocidentais não só para representar, mas para prever o avanço da liberdade. "O Muro se foi" entoou um presidente George W. Bush recém-empossado em 1.º de maio de 2001, conjurando um panorama internacional transformado, incluindo a Rússia que poderia ser "uma grande nação, democrática, em paz consigo mesma e com seus vizinhos". "Um muro caiu em Berlim", disse o presidente eleito Barack Obama em seu discurso de agradecimento em Chicago na noite de 4 para 5 de novembro de 2008, evocando maravilhas passadas, presentes e futuras. "O Muro de Berlim simbolizou um mundo dividido e definiu toda uma era", declarou a secretária de Estado Hillary Clinton, em discurso sobre liberdade na internet em 2010; "mas enquanto redes se espalham a nações por todo o globo, muros virtuais estão se erguendo em lugar de muros visíveis". O grande firewall da China, por exemplo.

Onde Ronald Reagan havia parado diante do Muro de Berlim e gritado "Senhor Gorbachev, derrube esse muro!", Clinton parou no Newseum em Washington e gritou, de fato, "Senhor Hu, derrube este firewall!" Todos tiraram suas próprias lições da queda do Muro e os líderes leninistas da China aprenderam a não deixar o poder escapar cometendo os erros de Gorbachev e de líderes comunistas do Leste Europeu.

Uma geração de jornalistas, formados pela experiência pessoal ou a memória midiática coletiva das revoluções de veludo da Europa, saudou a Primavera Árabe de 2011 como se pudesse ser o 1989 de sandálias (me declaro culpado de compartilhar essas esperanças). Enquanto isso, um ex-agente da KGB que testemunhou com ressentimento o surgimento de um poder popular enquanto servia na Europa Oriental, Vladimir Putin, tenta retroagir a roda da história e restaurar o que puder do império russo, com violência e mentira.

Há algumas questões importantes sobre o que ocorreu. Uma se destaca: onde está o pessoal de 89? Ao longo de minha vida, houve somente duas gerações perfeitamente distintas - a de 68 e a de 39. A de 39 era formada pela experiência da 2.ª Guerra e suas consequências. Homens como meu pai, de uma geração imediatamente reconhecível onde quer que você os encontrasse. E a de 68, inteiramente diferente em estilo, inicialmente rebelde contra a de 39, muito dada (ao menos na juventude) a vinho, sexo e erva, mas também cheia de determinação idealista para mudar a sociedade europeia, tornando-a socialmente e culturalmente mais liberal. Mas 1989 foi um evento histórico muito maior do que 1968.

Então, onde está o pessoal de 89? O de 39 e de 68 eram definidos por suas experiências durante e depois de 1939 e 1968. Os que foram mais ativos nos eventos de 1989, ao contrário, foram possivelmente moldados em maior grau por experiências anteriores (muitos eram da geração de 68). Há, com certeza, muitas pessoas que estavam no fim da adolescência ou na faixa dos 20 quando o Muro caiu e agora jogam um papel importante em debates europeus. Mas a sua geração não é tao nitidamente definida.

Tenho minha própria teoria. Acredito que o pessoal de 89 pode não ser os que foram ativos na época, mas os que nasceram em ou em torno de 1989, e só agora estão saindo da universidade do aprendizado para a da vida. O mundo em que eles entram é, de muitas maneiras, menos promissor do que aquele que vimos nascer sobre o Portão de Brandenburgo na sexta-feira, 10 de novembro de 1989. Então, a Europa e a liberdade pareciam estar avançando como nunca, de braços dados, aos acordes da Sarabande de Bach, executada por Mitislav Rostropovich diante do Muro - e em seguida a montagem da Ode à Alegria de Beethoven.

A Europa está em crise 25 anos depois. Países livres estão ameaçados por islamistas violentos. O capitalismo autoritário ao estilo chinês parece mais atraente a muitas pessoas fora do Ocidente tradicional, enquanto o capitalismo financeiro ocidental descontrolado e desigual - também parcialmente atribuível à arrogância pós-1989 - parece menos.

Onde está o pessoal de 89, então? Não que essa geração venha sendo silenciosa, interessada somente na vida privada, olhos e polegares sobre a tela de um smartphone, como a geração encanecida de 68 às vezes resmunga. O pessoal de 89 acampou nas ruas de Nova York e Madri, para cobrar um futuro que o mundo pós-Muro no início parecia prometer e depois banqueiros e políticos afanaram. O pessoal de 89 estava à frente dos protestos contra as más leis que ameaçavam reduzir a liberdade na internet. Edward Snowden, que tinha 6 anos quando o Muro caiu, pode ser visto como uma voz e um herói da geração de 89.

Mas não está claro que visão política mais ampla essa geração representa. Aliás, para isso acontecer esta não pode ser apenas uma geração ocidental, como foram em grande medida a de 39 e de 68. A de 89 é tão importante, e talvez ainda mais, em Pequim, Nova Délhi e São Paulo.

Não sei se os de 89 se unirão como uma geração política definidora, como eles agirão e - igualmente importante - como reagirão quando "coisas acontecem", como acontecerão. Mas uma coisa é clara: sua ação (ou inércia) determinará como leremos a queda do Muro em seu 50.º aniversário. Deles dependerá o futuro de nosso passado. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA E CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE OXFORD

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