PROCURA-SE PILOTO NO AFEGANISTÃO

EUA compram helicópteros que não decolarão

DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE , WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

29 Junho 2013 | 02h10

O Pentágono foi criticado ontem por ter gasto US$ 553,8 milhões com a compra de 30 helicópteros russos MI-17, da Rosoboronexport, a serem enviados como presentes ao governo do Afeganistão. A queixa da Inspetoria Geral Especial para a Reconstrução do Afeganistão (Sigar), a agência independente americana que vigia o pacote de US$ 90 bilhões em ajuda a Cabul, traz um argumento simples: não há pilotos afegãos preparados para tirá-los do solo.

"Nós estamos surpresos com essa decisão (do Pentágono, de ignorar advertências anteriores) e continuamos a questionar a necessidade desse contrato", informou um relatório da Sigar enviado ao secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel. "Sem um apoio estrutural, as aeronaves bancadas pelos EUA para a Missão Especial Afegã (SMW, na sigla em inglês) podem ficar paradas nas pistas em vez de dar apoio a missões críticas e resultarão em desperdício de fundos americanos."

Em carta a Hagel , o diretor da Sigar, John Sopko, afirmou que a compra dos helicópteros russos foi "imprudente" e recomendou sua suspensão. A SMW tinha apenas 180 funcionários em janeiro, argumentou a Sigar, ou menos de 25% do previsto até julho de 2015. Pela mesma razão, a Sigar questionou o contrato de US$ 218 milhões do Pentágono com a Sierra Nevada Corporation para a aquisição de 18 aviões PC-12, igualmente a serem presenteados ao governo do Afeganistão para serem usados no combate ao narcotráfico e a grupos terroristas no país.

Uma das suas próximas vítimas poderá ser o contrato da Força Aérea dos EUA para a compra de 20 Super Tucanos, da Embraer. O valor da operação é de US$ 428 milhões. As aeronaves serão montadas em Jacksonville, na Flórida, em uma parceria da empresa brasileira com a mesma Sierra Nevada, e serão entregues à Força Aérea afegã para o combate a terroristas. A Sigar foi questionada sobre se o contrato com a Embraer estaria sob sua avaliação, mas não respondeu até a noite de ontem.

O Congresso americano havia proibido o Pentágono de comprar equipamentos militares da Rosoboronexport em 2013. O Departamento de Defesa, porém, teria se valido de restos do orçamento de 2012. Para tornar viável a retirada das forças americanas e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) do Afeganistão até dezembro de 2014, a contrapartida é preparar e munir com equipamentos e armas as suas forças de defesa e de segurança interna, ainda em fase de composição.

O treinamento e armamento de forças policiais, antes inexistentes, foi um primeiro passo na área da segurança. Neste mês, o governo de Hamid Karzai, presidente afegão, assumiu a responsabilidade por essa área. Seus policiais passaram a coordenar e a comandar missões, com apoio das forças dos EUA e da Otan. No cronograma da retirada, as Forças Armadas do Afeganistão terão de ser preparadas para assumir o combate contra insurgentes, traficantes de ópio, terroristas e ameaças fronteiriças até o fim de 2014.

O plano americano de reconstrução do Afeganistão envolve ainda a modernização da máquina pública e até a criação de escolas e a construção de postos de saúde em áreas remotas do país.

A decisão de ontem da Sigar, porém, tende a engrossar a lista de problemas nas relações entre EUA e Rússia. Ambos os países estão em atrito em razão da venda de armas russas à Síria, especialmente da Rosoboronexport, e após a decisão de Moscou de manter no país Edward Snowden, o responsável pela revelação de um sistema americano de espionagem capaz de monitorar e-mails, telefonemas e redes sociais.

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