Procurada por denunciar senhores da guerra, política afegã questiona votação

Uma política com a língua afiada de Malalai Joya teria comprado briga em qualquer lugar do mundo. Mas, no Afeganistão, seu atrevimento representou uma sentença de morte. Por denunciar a presença de senhores da guerra no governo afegão, foi suspensa de sua vaga no Parlamento e há anos vive se escondendo e cercada de seguranças para sobreviver. Já sofreu quatro tentativas de assassinato.Os ataques contra Malalai começaram em 2003. Quando finalmente conseguiu o microfone na loya jirga (assembleia de líderes tribais) da qual participava, criticou a presença de senhores da guerra no processo democrático. "Por que se permite que esses criminosos tomem parte aqui?", perguntou. Logo o som foi cortado e Malalai teve de fugir. Naquela noite, um bando de homens procurou por ela em seu alojamento, ameaçando estuprá-la. Ela já estava em outro local.Apesar das ameaças, Malalai decidiu continuar na política e elegeu-se ao Parlamento em 2005, com a segunda maior votação da Província de Farah. Sem nunca ter conseguido falar em plenário, acabou suspensa em maio de 2007 por ter comparado a Casa a um zoológico em entrevista a uma TV americana.Malalai está apelando da suspensão, mas diz não alimentar ilusões. "Não tenho esperanças de voltar, mas vou lutar porque minha expulsão foi ilegal", afirmou ao Estado. "Mas, infelizmente, o sistema judicial afegão está infectado pelo fundamentalismo e pela corrupção."Em turnê por 14 países para lançar seu livro Raising My Voice (Me Fazendo Ouvir, tradução livre), com denúncias de abusos cometidos contra o povo afegão - em especial contra as mulheres -, Malalai não demonstra cansaço. "Meu povo arde no fogo da injustiça, fome e fundamentalismo; acredito que seja minha responsabilidade ecoar suas dores pelo mundo", disse. "Quero servir a eles até meu último suspiro."Seu engajamento sacrifica sua vida pessoal. Casada desde 2005, mantém a identidade do marido em sigilo e vive a maior parte do tempo longe dele. As eleições presidenciais da semana passada são consideradas por Malalai uma "zombaria democrática". "Com elementos de todos os grupos criminosos - como a Aliança do Norte e o Taleban - concorrendo e os vices na chapa do (presidente Hamid) Karzai sendo senhores da guerra publicamente conhecidos, a corrupção estará em vigor", disse. "Um ditado diz que não importa quem esteja votando, mas quem faz a contagem; e todas as urnas estão nas mãos da máfia."Malalai também se diz decepcionada com as políticas do novo presidente americano, Barack Obama. "Ao menos no governo de (George W.) Bush, os principais terroristas taleban eram tidos como ?procurados?. Agora, os EUA querem conversar e até mesmo trazê-los para o coração do governo", reclama.

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