AP Photo/Marco Ugarte
AP Photo/Marco Ugarte

Procuradora dissidente revela rota de desvios chavistas

Segundo a ex-procuradora-geral venezuelana, dinheiro ilegal chegou a bancos de 5 países

Jamil Chade, Correspondente / Genebra , O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2017 | 05h00

A procuradora-geral destituída da Venezuela, Luisa Ortega Díaz, afirmou ontem em Genebra que o regime chavista desviou milhões de dólares para bancos de pelo menos cinco países em três continentes diferentes. 

+Ex-procuradora venezuelana levará à Corte Internacional provas da repressão do governo Maduro

Ao Estado, a ex-procuradora indicou que o dinheiro não ficou na Venezuela e paraísos fiscais foram usados. “(O dinheiro) foi para Suíça, Andorra, Espanha, Abu Dhabi e República Dominicana”, disse. Ortega não deu detalhes de como o dinheiro teria ido a esses destinos e quem seria o dono. Aproveitando uma viagem para a Suíça para reuniões na ONU, ela visitou ontem o Ministério Público de Berna, um dos centros das investigações sobre a Odebrecht. 

O objetivo é fornecer subsídios para que os casos possam ser investigados também pelo Ministério Público da Confederação Helvética, que já bloqueou mais de mil contas relacionadas com a Operação Lava Jato. Em Berna, fontes mostraram interesse em tratar do tema. Documentos revelam que já existe uma cooperação entre americanos e suíços por conta da corrupção na Venezuela. 

Em julho, também ao Estado, Ortega revelou que investigava “20 grandes obras de infraestrutura (da Odebrecht), das quais 9 foram executadas e 11 se encontram paralisadas”. “Nas obras paralisadas, o governo desembolsou um montante aproximado de US$ 30 bilhões. E, apesar de ter pago esses US$ 30 bilhões, as obras não foram concluídas”, disse.

Ortega disse na sede da ONU que decidiu soltar as informações das quais dispunha sobre a corrupção em seu país depois de ameaças contra ela e seu marido. “O que eu tenho são evidências e entreguei essas evidências a diferentes procuradores-gerais”, disse ela, afastada depois de romper com o governo chavista este ano. “Decidi começar a publicar parte dessas evidências. Eu vou ainda guardar muitas delas para ver quando publicar”, alertou. Ortega promete apresentar amanhã mais uma parte de suas revelações, por meio de suas redes sociais.

 Segundo a ex-procuradora, ela repassou ao governo americano informações sobre os esquemas de corrupção. “Os procuradores que estão na Colômbia comigo se reuniram com os procuradores americanos e outras autoridades para trocar informações. E apresentamos evidências que comprometem altos funcionários do governo”, garantiu. 

Nos últimos meses, o governo de Donald Trump tem usado alegações de corrupção na Venezuela para justificar a imposição de sanções contra dirigentes do país. A procuradora também explicou que deve ir “em breve” para os EUA. 

Na quinta-feira, ela usou suas redes sociais para publicar um vídeo no qual um ex-executivo da construtora Odebrecht admite ter financiado a campanha eleitoral do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Na gravação, o ex-presidente da Odebrecht na Venezuela Euzenando Azevedo afirma ter recebido um pedido de US$ 50 milhões por parte de Maduro e aceitou pagar US$ 35 milhões. O trecho se refere às declarações que o executivo brasileiro prestou na sede do Ministério Público Federal em Sergipe, no dia 15 de dezembro de 2016. 

Corte chavista trava investigação sobre Odebrecht

Ortega explicou que a difusão do vídeo foi uma reação à decisão das autoridades venezuelanas de emitir um alerta vermelho na Interpol contra seu marido, por uma suposta conta que ele teria em Bahamas. Na avaliação da procuradora afastada, essa ofensiva do governo foi também uma resposta ao fato de que foram encontrados nos escritórios da Odebrecht documentos mostrando pagamentos a primos do ex-vice-presidente da Venezuela e um homem forte do chavismo, Diosdado Cabello. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.