ARMANDO FAVARO/ESTADÃO
ARMANDO FAVARO/ESTADÃO

'Procuramos realmente ter uma parceria forte com o Brasil'

Ministro das Relações Exteriores da Armênia afirma que relações entre os dois países poderia ser mais forte; diz que sanções contra a Rússia prejudicam também quem as aplicam

Entrevista com

Edward Nalbandian

Renata Tranches - ENVIADA ESPECIAL/ERIVAN , O Estado de S. Paulo

29 de junho de 2015 | 02h00

O ministro das Relações Exteriores da Armênia, Edward Nalbandian, diz que as relações entre seu país e o Brasil têm um grande potencial para ser explorado, mas pouco foi feito até agora. Em entrevista ao Estado, em seu gabinete em Erivan, ele diz esperar um estreitamento dos laços. Formado em escolas da Moscou nos anos 70 e 80, trabalhou na chancelaria da antiga União Soviética. Defende que as sanções impostas à Rússia pelos EUA e Europa afetam aliados e também aqueles que as aplicam. "Todas essas questões devem ser tratadas por meio do diálogo", diz o chanceler, considerado um dos nomes mais importantes do gabinete do presidente Serzh Sarkisian.  

Como o aniversário de cem anos do genocídio armêmio tem contribuído para os esforços de reconhecimento internacional? 

A principal mensagem da celebração do centenário do genocídio armênio é "nunca de novo". O reconhecimento do genocídio é importante não apenas para a Armênia, mas para a comunidade internacional, no sentido de prevenir que novos crimes contra a humanidade, novos genocídios ocorram. E é por isso que o reconhecimento e a condenação do genocídio armêmio, assim como outros genocídios, é da máxima importância. Talvez teria sido possível prevenir outros crimes como esse se o genocídio armênio tivesse sido devidamente reconhecido e condenado cem anos atrás. 

   

Algumas atrocidades nos dias de hoje poderiam ter sido evitadas? 

Sim, acredito que sim. Após o genocídio armênio, o mundo testemunhou o holocausto dos judeus, os genocídios em Ruanda, Camboja, Darfur, entre outros. A comunidade internacional tem de unir esforços para prevenir novos crimes contra a humanidade. No dia 27 de março, a nova resolução sobre prevenção de genocídio, uma iniciativa da Armênia, foi adotada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra, e com a co-autoria de 72 países, incluindo Brasil. A resolução foi aprovada por consenso. Quase a cada dois anos temos apresentado resoluções como essa com o objetivo de consolidar diferentes mecanismos de prevenção. É importante que a resolutação tenha sido adotada nas vésperas da celebração do centenário do genocídio armênio. Em abril, o Parlamento Europeu adotou uma resolução especial sobre o centenário com uma forte mensagem. Não foi a primeira vez que o Parlamento Europeu se manifestou, mas a nova resolução contém uma forte e clara mensagem para a Turquia para que chegue a um acordo com seu passado, reconheça o genocídio armênio e assim pavimente o caminho para uma reconciliação genuína entre os povos turcos e armênios. 

   

Quão importante são essas manifestações? 

É muito importante que novos países estejam reconhecendo o genocídio armênio. Gostaria de enfatizar os importantes passos tomados pela Alemanha e pela Áustria: o primeiro, pela presidência e, o segundo, pelo Parlamento. Me refiro ao comunicado do presidente alemão e do Parlamento austríaco, não apenas reconhecendo o genocídio armêmio, mas também mencionando sua parcela de responsabilidade pelo que aconteceu cem anos atrás. Enquanto a a Alemanha e a Áustria falam sobre sua parte de responsabilidade, a Turquia, sucessora do império otomano, continua sua política de negação. 

Nesse contexto, também tivemos uma resolução aprovada pelo Senado brasileiro. Qual sua opinião? 

Ela foi muito importante. Esse foi o primeiro passo e nós esperamos que será ele seja por outros para o reconhecimento do genocídio armênio pelo Estado brasileiro. Gostaria de expressar a importância e o significado do pronunciamento feito por Sua Santidade o papa sobre o genocídio armênio durante um evento especial na Santa Sé. Logo após a missa, jornalistas me perguntaram como eu comentaria a reação do governo turco (às declarações do papa). Eu nem sabia ainda qual era a reação porque eu estava na missa. Então, perguntei qual era e eles disseram que a Turquia criticou duramente. Disse que era um problema da Turquia, não do papa. Sua santidade representa 1,2 bilhão de católicos do mundo e é o líder espiritual dessa parte muito importante da população mundial. Ankara já criticou o Parlamento Europeu, em razão de uma resolução sobre o genocídio armênio, e chamou de volta seus embaixadores de todos esses países que reconheceram o genocídio assim como fez com o Brasil após a resolução do Senado. 

A Turquia está passando por uma mudança política depois que o partido governista perdeu a maioria no Parlamento. Isso pode ter algum impacto para a Armênia? 

Pela iniciativa do nosso presidente, demos início a um processo muito importante de normalização de nossas relações com a Turquia. Tivemos algumas rodadas de negociações e chegamos ao acordo sobre dois documentos, dois protocolos, que foram assinados em Zurick, em 10 de outubro de 2009. Mas o lado da Turquia rejeitou ratificá-los e implementá-los. E a posição da comunidade internacional era e é muito clara que a bola está agora com o tribunal turco. Temos de respeitar o principal princípio das relações internacionais, o princípio de pacta sunt servanda (pactos devem ser respeitados), você tem de respeitar os acordos assinados e implementá-los. O lado turco recuou. O que acontecerá no futuro? Tenho certeza de que mais cedo ou mais tarde, claro, teremos de virar essa página juntos.  

Como?

Não com a política de negação. É muito claro que a Armênia nunca irá questionar o fato de que houve um genocídio armênio. Veja quantos países e organizações internacionais reconheceram o genocídio armênio. E a Turquia faz de conta que ele não aconteceu. 

O senhor esteve em Damasco no mês passado. Foi para tratar da situação dos sírios-armênios? 

Os armênios na Síria, como parte do povo sírio, estão em uma situação muito difícil hoje. Para encontrar uma saída para essa situção é essencial, primeiro, cessar as hostilidades militares. Em segundo lugar, conduzir um diálogo com todos os grupos políticos na Síria, se exceção. Em terceiro, respitar os direitos das minorias, incluindo as minorias cristãs armênias, entre outros. Depois, em quarto, unificar os esforços para combater o terrorismo e terroristas. O terrorismo no Oriente Médio, como os grupos Estado Islâmico, Al-Nusra, entre outros, representam um perigo real não apenas para os cristãos, mas em geral para as pessoas da região e fora dela. A comunidade internacional deve reunir esforços para lutar contra o terrorismo. 

Mas neste momento o governo está lidando com a situação de muitos sírios-armênios que estão voltando para a Armênia. Como está sendo isso? 

Sim, nós temos cerca de 14 mil sírios-armênios agora na Armênia. Em alguns outros países o número de refugiados é muito maior, mas para a pequena Armênia é um número muito grande. Claro que estamos tentando ajudar aqueles que estão vindo para a Armêmia. Mas ainda temos muitos, dezenas de milhares vivendo na Síria, incluindo Alepo. É muito difícil dizer o número exato. Por isso nosso Consulado-geral nunca deixou de operar em Alepo e agora é a única missão diplomática aberta lá. Claro que temos nossa embaixada em Damasco. Mas nossa informação sobre o que está acontecendo está chegando não apenas por meio de nossa embaixada e consulado-geral, mas tambéms pelos armênios vivendo na Síria. 

 

Com relação à Rússia, como o regime de sanções europeias e americanas contra Moscou está impactando a Armênia? 

Quando nós falamos sobre consequências, nós temos de dizer que as consequências não são apenas para a Rússia e aqueles países que têm forte relação econômica com ela, mas também aquelas nações que decidiram impor sanções contra Moscou também são afetadas. Com relação à diáspora, temos uma grande comunidade armênia na Rússia, de cerca de 2 milhões de pessoas. Mas também temos cerca de 500 mil armênios vivendo na Ucrânia. Nós consideramos que todas essas questões devem ser tratadas por meio do diálogo, da negociação e não usando a força, a coerção econômica. 

 

No caminho para Tatev, no sul, passamos por muitos caminhões com placas iranianas. A Armênia tem uma forte relação comercial com o Irã. Como o sr. vê o acordo nuclear que está para ser fechado entre o Irã e as seis potências? 

A Armênia está entre os primeiros, se não o primeiro país a dar as boas-vindas ao acordo prévio sobre a questão nuclear iraniana, negociado com os seis países. Nós esperamos que ele possa ser fechado até o fim desse mês, como esperado, e trará uma ampla solução para essa questão que é do interesse não apenas do Irã e seus países vizinhos, mas para toda a região e além dela. Esperamos que uma solução possa ser alcançada e os países da região possam ter mais possibilidades para relações econômicas e comerciais. 

Com relação às relações com o Brasil, quais são os pontos fortes e onde pode ser melhorada? 

Temos um grande potencial para ser explorado, mas não acho que muito tenha sido feito até agora. Temos uma embaixada desde 2011 no seu belo país e vocês têm embaixada aqui na Armênia desde 2006. Também estabelecemos um Consulado-Geral em São Paulo desde 1998. Várias autoridades da Armênia visitaram o Brasil, incluindo o presidente, o presidente do Parlamento, diferentes ministros. Eu visitei seu país na ocasião da posse da presidente Dilma Rousseff em janeiro de 2011. E, claro, tive a oportunidade também de me encontrar com meu colega, o ex-ministro das Relações Exteriores (Antonio Patriota). Ele prometeu visitar a Armênia, mas isso nunca aconteceu. 

O sr. espera a visita do atual ministro? 

Esperamos muito expandir nossa cooperação bilateral. Esperamos consolidar o quadro jurídico de nossas relações. O volume de nossas relações econômicas e comerciais é pequeno. Com tantos países, tantas vezes menores do que o Brasil, temos muito mais trocas comerciais e econômicas. Esperamos muito que do lado brasileiro também seja tomado alguns passos concretos para aumentar, aprofundar nossa cooperação e nossa parceria em todos os campos possíveis. Do nosso lado, estamos muito interessados. Como ministro das Relações Exteriores, posso confirmar mais uma vez que estamos procurando realmente ter uma parceria forte com o Brasil. Temos cooperação econômica e comercial muito maior com a Argentina do que com o Brasil. Geograficamente, estamos longe da América Latina, mas geograficamente a Argentina não é mais perto do que o Brasil. 

   

Especialmente pelo tamanho da comunidade armênia no Brasil? 

Sim. Isso também é um importante fator. A comunidade armênia está desempenhando uma ponte nas nossas relações e poderia ter um papel ainda mais ativo para aprofundar nossa cooperação em diferentes dimensões. Há dezenas de milhares de armênios vivendo no Brasil, a maioria em São Paulo. Dois terços do nosso povo vivem em uma centena de países do mundo. Armênia é um pequeno país nessa parte geográfica do mundo. Mas nós temos muitos armênios pelo mundo.


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