Produção afegã de ópio bate novo recorde

País tem hoje mais terras voltadas ao cultivo de entorpecentes do que a Colômbia, a Bolívia e o Peru juntos

Associated Press, REUTERS

27 de agosto de 2007 | 13h22

A produção afegã de papoula e ópio voltou a bater recordes este ano, revelou um relatório divulgado nesta segunda-feira pela Organização das Nações Unidas (ONU).   A área de cultivo de papoula alcançou 193.000 hectares este ano somente no Afeganistão, superando em 17% o recorde de 165.000 hectares detectados no ano passado, revela a pesquisa anual da Agência das Nações Unidas de Combate às Drogas e ao Crime Organizado tornada pública nesta segunda-feira, 27, na capital afegã.   Com isso, o Afeganistão é responsável atualmente por 93% da produção mundial de ópio, que serve de matéria-prima para a heroína. A produção da droga praticamente dobrou ao longo dos últimos dois anos, prossegue o relatório.   "A situação é dramática e piora a cada dia", observou Antonio Maria Costa, diretor-executivo da Agência da ONU de Combate às Drogas e ao Crime Organizado.   "Nenhum outro país no mundo jamais dedicou tantas terras cultiváveis a atividades ilícitas, além da China cem anos atrás", quando o país era um grande produtor de ópio, comparou Costa durante entrevista coletiva concedida em Cabul.   Segundo Costa, a corrupção no governo e a atuação do Taleban foram determinantes para o novo recorde.   A expansão das plantações de papoula no Afeganistão lança dúvidas sobre a eficácia dos projetos financiados pelos Estados Unidos e por outras nações doadoras para combater o plantio da matéria-prima do ópio e da heroína.   Refúgio insurgente   A situação também aumenta a pressão sobre o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, para que considere novas formas de conter uma expansão que ameaça transformar seu país em um narco-Estado.   No ano passado, Karzai rejeitou uma oferta americana para fumigar herbicidas nas plantações depois de agricultores terem denunciado que a iniciativa afetaria plantações lícitas, criações de animais e as fontes de água. Washington considerou "infundados" os argumentos.   Costa salientou que a ONU apóia a posição de Cabul, mas reforçou que a erradicação das plantações é essencial para qualquer estratégica de combate à sua expansão. Ele sugeriu ainda que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) bloqueando as rotas pelas quais entram agentes químicos usados no refino e por onde a droga é exportada.   O Afeganistão está próximo de produzir 9.000 toneladas de ópio este ano, 34% a mais do que as 6.100 toneladas do ano passado. O valor da colheita deste ano é avaliado em cerca de US$ 1 bilhão, segundo o estudo da ONU. O valor de rua da heroína produzida a partir do ópio é muito mais que isso, prossegue a entidade.   Enquanto o número de províncias sem plantações de papoula no norte afegão subiu de seis no ano passado para 13 em 2007, a produção no sul do país atingiu níveis sem precedentes.   Sozinha, a província de Helmand tinha 102.770 hectares dedicados ao cultivo de papoula este ano, ou mais da metade do total.   "O governo perdeu o controle de seu território por causa da presença de insurgentes, por causa da presença de terroristas, sejam eles talebans ou células dissidentes da Al-Qaeda", disse Costa.   "Está claramente documentado que os insurgentes promovem ativamente ou permitem e depois se aproveitam do cultivo, do refino e do tráfico do ópio", acusou.   Combatentes da milícia fundamentalista islâmica Taleban cobram impostos dos fazendeiros e fornecem segurança a comboios que levam o ópio para os países vizinhos, prosseguiu Costa.   A denúncia de Costa marca uma mudança de postura do Taleban com relação ao cultivo de papoula. Entre 1996 e 2001, quando a milícia controlou a maior parte do país, o plantio ilícito foi banido e a produção da droga era quase nula nos territórios talebans antes de o Afeganistão ser invadido em resposta aos atentados de 11 de setembro de 2001 contra os Estados Unidos.   De acordo com o relatório da ONU, calcula-se que atualmente 3,3 milhões dos 25 milhões de habitantes do Afeganistão estejam de alguma forma envolvidos na produção de ópio.   Costa também denúncia a corrupção no governo afegão como um dos motivos da atual situação. "A tolerância do governo à corrupção está minando o futuro: nenhum país jamais prosperou com o crime", escreve Costa em um resumo do relatório. Funcionários do governo afegão não foram encontrados para comentar o assunto.

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