Sergey Ponomarev/The New York Times
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Produção de leite na Arábia Saudita depende do petróleo

Com preço do combustível em baixa, orçamento saudita está comprometido, e país enfrenta crise que levou a cortes nos gastos públicos, reduções nos salários e benefícios de funcionários públicos, além de novos impostos

Nicholas Kulish, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2016 | 11h56

AL KHARJ, ARÁBIA SAUDITA - Para manter uma fazenda de gado leiteiro no meio do deserto são necessários 180 mil vacas Holstein, estábulos perfeitamente climatizados, bombas que levam água do lençol freático, ração argentina e um sistema de refrigeração de última geração. Para transportar o leite resfriado e outros produtos para toda a Península Arábica, ainda é preciso ter nove mil veículos.

O responsável pela empresa, Almarai - um modelo de gestão em um país que tenta se livrar da dependência do petróleo -, é ninguém menos que o filho favorito do Rei Salman e segundo na linha de sucessão do trono, o príncipe Mohamed bin Salman. Porém, até mesmo empresas como a Almarai, sem qualquer relação aparente com o petróleo, dependem da energia barata oferecida pelo reino.

Contudo, isso está chegando ao fim. Com o preço do petróleo em baixa e o alto custo da guerra no Iêmen, o orçamento saudita está comprometido, e o país enfrenta uma crise que levou a cortes nos gastos públicos, reduções nos salários e benefícios de funcionários públicos, além de uma série de novos impostos e taxas. Os enormes subsídios para combustível, água e eletricidade, que encorajavam o consumo desenfreado, começam a ser controlados. Para a Almarai, isso significa um aumento de US$ 133 milhões nos gastos deste ano, afirmam funcionários da empresa.

O plano de reforma econômica do príncipe Mohamed causou um enorme desconforto entre os cidadãos, que há muito tempo têm uma parte de sua vida financiada pelo Estado. “O governo está sendo muito rápido na adoção de mudanças na Arábia Saudita e o povo está se sentindo deixado de lado”, disse a empresária Lama Alsulaiman, membro da diretoria da Câmara de Comércio e Indústria de Jiddah. “A vida e os negócios terão de mudar.”

Reescrever o contrato social representa um risco enorme para o príncipe herdeiro substituto, de 31 anos, que apostou sua reputação na transformação da economia. “As pessoas querem saber se ele será capaz de fazer isso. Se for bem sucedido, se tornará rei. Caso contrário, estará perdido”, afirmou Ibrahim Alnahas, professor de Ciências Políticas na Universidade Rei Saud, em Riad, capital do país.

As vastas reservas subterrâneas sauditas de petróleo alimentaram a maior parte da economia do país. O petróleo bruto faz mais do que apenas dar bilhões de dólares em lucro para a Saudi Aramco, a petrolífera estatal, e a Sabic, a gigante química. Ele também fornece energia para setores de alto consumo energético, como a produção de cimento e alumínio.

O déficit orçamentário do país foi de quase US$ 100 bilhões em 2015. As reservas em moeda estrangeira caíram 25% desde que o preço do petróleo despencou em 2014. O governo já emprestou dinheiro de bancos estrangeiros e tentará conseguir mais no mercado de títulos globais. Diante da situação, o governo cortou repentinamente projetos de construção, forçando empreiteiras a dispensarem trabalhadores.

Planos. O governo anunciou planos para mais do que triplicar o faturamento do país com setores sem envolvimento com o petróleo até 2020, a começar pelo aumento do preço de vistos, multas mais altas para violações de trânsito e um imposto sobre bebidas açucaradas.

Autoridades aproveitaram todas as oportunidades para diminuir custos. Depois de cortar o salário de ministros, impedir novas contratações e eliminar os bônus e as horas-extras de todos os funcionários públicos, o governo anunciou recentemente que os trabalhadores seriam pagos de acordo com o calendário gregoriano (como no ocidente), ao invés do calendário islâmico, que é ligeiramente mais curto, cortando assim cerca de um dia por mês da folha de pagamentos. “Se os salários diminuem e os custos aumentam, alguma coisa vai acabar dando errado”, afirmou Hamaizia.

A única forma de criar empregos para os sauditas diante dessa situação é demitindo trabalhadores estrangeiros e substituindo-os por cidadãos do país. Essa política, conhecida como sauditização, já tentou ser colocada em prática nos anos 1980, mas não obteve sucesso e o número de trabalhadores estrangeiros saltou de 1 para 10 milhões desde então.

Agora o governo pressiona ainda mais as empresas. Trabalhadores estrangeiros são mais baratos, mas o governo aplica multas e se nega a renovar os vistos de quem é de outros países, caso o porcentual de funcionários sauditas da empresa esteja abaixo do determinado. O reino deseja criar mais de 450 mil novas vagas de emprego no setor privado até 2020.

A Almarai emprega 8 mil sauditas entre seus mais de 40 mil funcionários. Em uma manhã recente, 150 vacas Holsteins eram levadas à área de ordenha, onde trabalhadores do Quênia, das Filipinas e de outros países operavam as bombas automáticas. A empresa possui um centro de formação para sauditas que recebe 15 mil candidaturas para apenas 400 vagas.

Apesar do ambiente árido, a Arábia Saudita já contou com grandes fazendas e até exportava trigo antes de interromper a produção para poupar água. A Almarai comprou terras na Argentina, na Califórnia e no Arizona para produzir alfafa para suas vacas, mas mesmo assim é difícil lucrar. Apesar do aumento do preço de serviços e da ração, a empresa não obteve permissão para aumentar o preço do leite.

“Já tentamos no passado, mas o rei só nos deu um tapinha no ombro e perguntou o que estávamos fazendo”, afirmou Stuart Gouk, gerente de produção da fábrica. Aumentar o preço do produto poderia trazer repercussões políticas. O reino deve cortar ainda mais subsídios. Pode ser que em algum momento os políticos concluam que, assim como no caso do trigo, também não faz sentido produzir leite no deserto.

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