Rahmat Gul/AP
Rahmat Gul/AP

Produção de ópio no Afeganistão bate recorde, diz relatório da ONU

País respondeu por 75% do suprimento global da droga; falta de fiscalização agrava o problema

O Estado de S. Paulo,

13 de novembro de 2013 | 14h45

CABUL - O cultivo de ópio no Afeganistão bateu um novo recorde, enquanto as forças internacionais se preparam para deixar o país, disse a ONU nesta quarta-feira, 13. A preocupação é que os lucros sejam destinados a comandantes de milícias que disputam poder com vistas à eleição presidencial de 2014.

A expansão da papoula para 209 mil hectares deve constranger os doadores de ajuda ao Afeganistão, após mais de dez anos de esforços para afastar os produtores desse cultivo, combater a corrupção e interromper os vínculos entre as drogas e a insurgência do Taleban.

"O prognóstico em curto prazo não é positivo", disse Jean-Luc Lemahieu, diretor do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês) no Afeganistão. "A economia ilícita está se estabelecendo, e parece estar superando em importância a economia lícita."

O Afeganistão é o maior produtor mundial de papoula, planta que dá origem ao ópio e à heroína. No ano passado, o país respondeu por 75% do suprimento global. Lemahieu havia dito anteriormente que poderia chegar neste ano a 90%.

A falta de fiscalização, já que as tropas estrangeiras estão recuando das suas posições para se preparar para a retirada em 2014, a elevada cotação do ópio no ano passado e a crescente escassez de vontade política afegã para enfrentar o problema contribuem com a expansão da produção, segundo Lemahieu.

A área cultivada com papoula cresceu 36% em relação a 2012, superando o recorde anterior, de 193 mil hectares cultivados em 2007, segundo relatório da agência antidrogas da ONU. A produção total é estimada em 5.500 toneladas de ópio, alta de 49% em relação às 3.700 toneladas de 2012.

O lucro para os produtores deve se aproximar de US$ 1 bilhão, 4% do PIB afegão. Parte desse lucro deverá servir para alimentar a insurgência do Taleban, mas autoridades afegãs também acusam, reservadamente, membros graduados do governo de se beneficiarem.

As novas cifras são parte de uma avaliação anual sobre a produção de ópio pelo UNODC e pelo Ministério de Combate aos Narcóticos. O relatório revelou que duas províncias do norte, Balkh e Faryab, voltaram a cultivar papoula depois de serem declaradas no ano passado como áreas de cultivo erradicado.

Uma gradual redução nas verbas estrangeiras, à medida que aliados se tornam receosos em ajudar o Afeganistão, está levando parte da elite afegã a buscar lucros na papoula. "Quando se trata da economia ilícita, há pouquíssima diferença entre os insurgentes e as pessoas do outro lado", disse Lemahieu.

Khan Bacha, que cultiva papoula num pequeno pedaço de terra na província de Nangarhar, reduto do Taleban a leste do país, disse que os insurgentes cobram dos fazendeiros um "imposto religioso" de um quilo a cada 10 produzidos, embora a taxa seja "negociável". "Eles dizem que estamos numa jihad", disse Bacha. "É o dinheiro de Deus que damos."

O Afeganistão tem um sério problema de dependência em drogas, mas a maior parte da produção é contrabandeada para o exterior, especialmente a Europa. Há cerca de 1 milhão de dependentes de drogas no país, sendo 15% mulheres e crianças, disse Kanishka Turkistan, porta-voz do Ministério de Saúde Pública./ REUTERS e AP

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