Professores merecem mais que reconhecimento

Sucateamento de salários e condições na sala de aula tornam o ensino um trabalho ingrato nos Estados Unidos, dizem estudos

Fareed Zakaria*, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2018 | 05h00

Neste mês tivemos a Semana de Valorização do Professor e eu pretendia escrever sobre o assunto, mas um tópico mais voltado para as notícias se impôs. Essa é uma metáfora adequada para o que ocorre hoje com a difícil situação dos professores nos Estados Unidos. Vivemos em um ambiente de mídia no qual o urgente muitas vezes supera o importante. Mas esta semana, vou me ater aos meus planos.

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Em A Leste do Éden, o extenso e magistral romance sobre o grande oeste americano, John Steinbeck escreve: “No país, o repositório de arte e ciência era a escola, e a professora defendeu e portou a tocha do aprendizado e da beleza. (...) A professora não era apenas um modelo intelectual e um líder social, mas também a escolha matrimonial favorita nas zonas rurais. Uma família poderia de fato mostrar-se orgulhosa se um filho se casasse com a professora.”

A imagem que Steinbeck pinta (ambientada no início do século 20) é quase irreconhecível nos EUA de hoje, onde os professores são tão mal remunerados que têm cinco vezes maior probabilidade de ter um segundo emprego, de acordo com a Vox. Todos nós já ouvimos falar de salários estagnados na classe média. Mas a remuneração média de um professor nos EUA, ajustada pela inflação, na verdade diminuiu nos 15 últimos anos, enquanto os custos com assistência médica aumentaram substancialmente. The Economist informa que os professores ganham 60% do que recebe um profissional com nível de instrução comparável.

O salário médio de um professor em muitos Estados é inferior a US$ 50 mil anuais. Professores da Virgínia Ocidental entraram em greve há alguns meses para exigir salários mais altos, e o governo concordou com um aumento de 5%, o que significa que o salário médio subirá para apenas US$ 48 mil. Como muitos outros Estados, a Virgínia Ocidental não conseguiu repor os gastos com educação, depois de cortá-los na esteira da crise financeira de uma década atrás. Desde o ano passado, o financiamento estadual por aluno (ajustado para a inflação) ainda estava entre 8% e 28% a menos em cinco dos seis Estados onde os professores já entraram em greve, de acordo com um estudo do Centro para Orçamento e Prioridades Políticas.

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Com baixos salários e recursos exigidos ao máximo, os educadores americanos se estressam e abandonam a profissão num nível que é o dobro da taxa de alguns dos países com melhor desempenho, como aponta Linda Darling-Hammond, do Instituto para Política de Ensino. Nos últimos anos, 35% menos americanos estudaram para se tornar professores, observa Linda, e isso resultou numa imensa escassez de professores, forçando as escolas de todo o país a contratar mais de 100 mil pessoas que não possuem as qualificações adequadas. De fato, segundo o New York Times, é tão difícil para as escolas públicas encontrar americanos qualificados, que muitos distritos começaram a recrutar instrutores de países com baixos salários, como as Filipinas.

Não é uma questão só de salários. Uma veterana educadora com a qual conversei, que começou a trabalhar na Califórnia na década de 1960, relembrou aquela foi a “era de ouro” quando tinha acesso a amplos recursos para uso em sala de aula, frequentou seminários para desenvolver sua capacitação e se sentia realizada. Hoje, os professores têm pouco tempo ou dinheiro para qualquer uma dessas coisas. Uma pesquisa recente de professores de escolas públicas constatou que 94% deles pagam os suprimentos para as salas de aula de seus próprios bolsos, sem reembolso, numa média de US$ 479 por ano.

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E também não é uma questão de dinheiro. Liderar uma sala de aula jamais foi o caminho para a riqueza, mas os professores já tiveram o comando, respeito e status que a citação de Steinbeck reflete. Andreas Schleicher, que lidera a divisão de educação da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico e passou anos fazendo cuidadosas comparações internacionais em educação, e tem observado que os países que se saem melhor em educação pública - Cingapura, Finlândia, Coreia do Sul - podem recrutar importantes graduados universitários nas fileiras de ensino porque pagam razoavelmente bem, investem em desenvolvimento profissional, e suas sociedades mostram profundo respeito pela profissão. Nos EUA, quando encontramos um membro das forças armadas, muitos de nós fazem questão de agradecer pelo serviço prestado. Quando foi a última vez que você fez o mesmo para uma professora de escola pública?

Sim, a educação é um assunto muito complicado. Simplesmente gastar mais dinheiro não garante resultados - embora existam estudos indicando uma importante correlação entre remuneração do professor e desempenho do aluno. Sim, a burocracia da educação é rígida e muitas vezes corrupta. Mas tudo isso mascara o problema central: nos últimos 30 anos, como parte do ataque ao governo, aos burocratas e ao setor público em geral, ser professor nos EUA tornou-se um trabalho ingrato. E, no entanto, o ensino é a única profissão que torna todas as outras profissões possíveis. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

* FAREED ZAKARIA É COLUNISTA

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