Antonio Calanni/AP
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Profissionais de saúde resistem às ordens para trabalhar sem proteção adequada

Confrontos e escolhas pessoais difíceis estão acontecendo à medida que os administradores de hospitais impõem o racionamento de máscaras, protetores faciais e outros equipamentos

Lenny Bernstein e Ariana Eunjung Cha, The Washington Post

26 de março de 2020 | 18h32

Depois de 21 anos trabalhando como profissional de saúde das forças armadas, não há muito que abale Richard Barnett. Ele fez parte do corpo de fuzileiros navais que invadiu Bagdá em 2003, onde ele esteve quase o tempo todo sob à mira do inimigo.

Mas durante seus plantões de 12 horas no West Hills Hospital and Medical Center, em Los Angeles, as condições de trabalho se tornaram insuportáveis para ele. Máscaras de proteção mal ajustadas e técnicas de esterilização falhas faziam parte da rotina. E, o pior de tudo, dois pacientes com covid-19 passaram por procedimentos de triagem, colocando em risco os profissionais que tiveram contato com eles sem saber que estavam infectados, Barnett disse.

No fim do turno, às 7 da manhã do dia 15 de março, Barnett pediu demissão e entregou seu crachá.

"Foi uma escolha muito óbvia", disse ele. " Ou me demitia antes de ser infectado e provavelmente contaminar minha família, ou me demitia depois de ficar doente. Foi uma escolha simples entre risco versus benefícios.”

Como Barnett, alguns profissionais de saúde começaram a resistir à pressão de trabalhar com proteção inadequada durante o tsunami de casos de coronavírus. Ao fazer isso, eles rejeitam a prática de ajudar a todos durante uma pandemia, uma tradição médica de aceitar o risco elevado durante uma crise e o rigor de seus empregadores.

Confrontos e escolhas pessoais difíceis estão acontecendo à medida que os administradores de hospitais impõem o racionamento de máscaras, protetores faciais e outros equipamentos para funcionários preocupados em se proteger. 

“Isso está acabando comigo. Todos os dias tenho que discutir com minha esposa sobre como me sinto um covarde por fugir dessa situação”, disse Barnett. “Mas ou engulo esse sentimento individual e o guardo no bolso ou ponho minha família em risco.”

Em nota, o West Hills disse que “está trabalhando cuidadosamente para ajudar a garantir que estamos preparados para potenciais problemas relacionados à propagação do coronavírus. Nossos esforços de preparação incluem reforçar planos de protocolos adequados de prevenção de infecções, ajudando a garantir que tenhamos materiais e equipamentos, planos de contingência de pessoal e planejamento e preparação para emergências ".

A escassez generalizada de máscaras, protetores faciais e outros equipamentos de proteção para os profissionais de saúde nas instalações médicas dos Estados Unidos tornou-se um fato durante a pandemia. Enfermeiras e outros profissionais queixam-se há semanas, publicamente e em particular, do risco de ficarem desnecessariamente expostos a uma doença respiratória altamente contagiosa. Mesmo com o melhor equipamento, os profissionais de saúde sofrem perdas desproporcionais em surtos como esse.

As instalações médicas normalmente operam em uma abordagem just-in-time para receber materiais, garantindo que a cadeia de suprimentos possa atender às necessidades diárias, com pouco incentivo para armazenar grandes quantidades de equipamentos.

Com o fracasso do governo em estocar suprimentos suficientes para a pandemia, o equipamento agora é tão limitado em alguns lugares, incluindo Nova York e Washington, que os voluntários estão costurando máscaras em suas casas e os trabalhadores estão tentando fazer com que equipamentos de uso único durem mais dias.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) pediram que os trabalhadores usassem máscaras N95, que se encaixam firmemente sobre o nariz e a boca e filtram 95% da maioria das partículas transportadas pelo ar. Mais tarde, o CDC relaxou essa orientação e disse que máscaras cirúrgicas, menos eficazes, eram aceitáveis.

Os sindicatos apontaram que na China, onde os suprimentos eram mais abundantes, os profissionais de saúde eram instruídos a usar aventais e outros equipamentos de proteção em dobro. Eles alertaram para uma catástrofe se muitos profissionais de saúde adoecerem.

Dee Shine estava sentada em sua mesa na clínica oftalmológica do MedStar Washington Hospital Center na semana passada, quando tirou uma máscara cirúrgica de uma caixa que estava atrás dela e começou a receber pacientes. Ela disse que alguns médicos estavam pedindo aos chefes que fechassem o consultório, mas ela aceitou estar lá, pois precisa dos US$ 21,36 que recebe por cada hora de trabalho.

Logo depois, ela disse ter sido chamada ao departamento de recursos humanos e orientada a voltar para casa. Ela foi suspensa indefinidamente por usar a máscara.

"Eles disseram que as estavam economizando para os funcionários ", ela contou, "e as máscaras assustariam os pacientes".

Dee, de 40 anos, mãe de quatro filhos, disse que é assistente de um consultório médico no Hospital Washington desde 2015. Um dia antes, ela disse, seu chefe pediu que ela tirasse a máscara. Quando ela explicou que tinha asma e ninguém pediu para remover a máscara, acreditou que o uso contínuo dela era permitido.

"Eu disse a eles que tinha asma e que meus filhos estavam o tempo todo em casa por causa da pandemia. Falei para eles que me sentia mais segura com a máscara", afirmou ela. Dee disse que entrará com uma queixa na Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego e em seu sindicato.

A porta-voz da MedStar, So Young Pak, disse que o centro médico "não pode discutir as questões pessoais dos funcionários. No entanto, a saúde e a segurança dos trabalhadores são sempre a nossa principal prioridade. Se algum funcionário tiver problemas de saúde, é aconselhável que se reporte à nossa clínica de saúde ocupacional para determinar as ações necessárias. Esse processo é estabelecido para garantir a segurança dos funcionários e dos pacientes ". 

Uma enfermeira da MedStar, que falou sob condição de anonimato por temer perder o emprego, afirmou estar trabalhando sem máscaras N95, proteção para os sapatos e, às vezes, sem protetor facial, disse que sua unidade está empregando um tipo diferente de pressão. Nas reuniões matinais, os supervisores constrangem as enfermeiras que estão insistindo em um nível mais alto de proteção, dizendo aos outros que eles "não estão seguindo nossas diretrizes e estão usando recursos".

"Estou apavorada", ela disse.

A porta-voz do hospital disse que o centro médico tem "um suprimento adequado de equipamentos de proteção individual para todos os nossos médicos e integrantes da equipe, e planeja acompanhar a demanda. Todos os funcionários, incluindo os enfermeiros, têm o EPI adequado para cuidar de pacientes com covid-19 ou de qualquer outro que precise de isolamento. Nosso uso de EPI pode mudar quase diariamente, com base nas orientações do CDC e em novas evidências de outros países e sociedades especializadas ".

Heather Riebel, cardiologista pediátrico em San Antonio, disse que essas interações revelam a desconexão entre administradores de hospitais e médicos e enfermeiros nas linhas de frente.

"Gostaria de ver todos os administradores de hospitais, CEOs, CFOs descerem de suas torres de marfim e receber instruções para percorrer seus hospitais, prontos-socorros e todos os lugares. Vamos ver que tipo de equipamento de proteção pessoal eles desejam", ela disse.

Barnett, de 57 anos, enfermeiro em Thousand Oaks, Califórnia, disse que o impacto financeiro da demissão não será grave. Ele tem benefícios da aposentadoria militar. Ele trabalhou em West Hills por sete anos, cinco deles em período integral, antes de voltar gradualmente a um turno por semana e, ocasionalmente, mais vezes durante a semana.

Ele é casado e tem dois enteados adultos, um dos quais com diabetes tipo 1. Embora essa enteada não more mais com ele, Barnett disse que teme ainda mais infectá-la, porque a diabetes a torna mais vulnerável a doenças graves se ela contrair covid-19.

Ele disse que tem muitos colegas que não podem se dar ao luxo de parar, incluindo alguns que estão trabalhando mesmo sendo portadores de doenças associadas que os tornam vulneráveis a graves consequências do vírus. Um deles está vivendo em um trailer para evitar o contato com um filho que também tem uma doença associada. 

O que Barnett acredita que vai sentir falta é a camaradagem e o senso de missão que as enfermeiras em seu andar compartilhavam. Ele culpa a administração do hospital com fins lucrativos pelo fracasso em aplicar adequadamente a triagem de pacientes e o estoque de suprimentos.

"Se o hospital estivesse lidando com isso corretamente, as enfermeiras e os médicos estariam mais seguros no trabalho com o vírus... do que eu estaria andando na rua", ele disse. 

Em seu comunicado, o West Hill disse que "como todos os hospitais, tratamos pacientes com doenças infecciosas todos os dias. O West Hills Hospital continua sendo um local seguro para trabalhar e receber cuidados. Continuamos trabalhando em parceria com o departamento de saúde do condado e o CDC".

Agora, Barnett se preocupa com seus ex-colegas, mas tem certeza de que tomou a decisão correta.

 "É muito mais fácil lidar com um tiro", disse ele. "Eu sei de onde vem e, quando param de atirar, não estou mais em perigo. Quando você está lidando com doenças infecciosas, não tem como saber de onde elas vêm." /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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