Programa de Chávez distribui casas pela TV

Atração, misto de reality show, game televisivo e comício eleitoral, é vista como estratégia bolivariana para vencer eleições de 7 de outubro

WILLIAM NEUMAN , THE NEW YORK TIMES , EJIDO, VENEZUELA, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2012 | 03h00

Todas as quintas-feiras, a televisão estatal apresenta uma transmissão ao vivo em edição nacional do que poderíamos chamar de Reconstrução Total: Edição Socialista. Em parte um reality show, um jogo e um comício político.

No programa, assessores do primeiro escalão do presidente Hugo Chávez entregam novos apartamentos e casas a cidadãos venezuelanos s pobres, que choram lágrimas telegênicas e mostram expressões de gratidão a Chávez, candidato à reeleição.

"Quero enviar uma mensagem a todas as pessoas que vivem em abrigos: tenham fé e esperança", disse Ramón Rondón, numa das últimas edições, na cozinha do seu novo apartamento num conjunto construído pelo governo. Militante chavista, cabelos brancos, Rondón declarou: "Esta é uma vitória da revolução". Pouco depois, a TV mostra a mulher de Rondón, María Monsalvi, de 54 anos, numa poltrona que faz parte da mobília fornecida pelo governo. Sobre a cabeça de María, via-se uma foto de Chávez pendurada pelos produtores do programa.

Como seu apartamento apareceria na televisão, ela recebeu uma decoração "presidencial", de luxo. María não cansava de se maravilhar com a sorte depois de perder a casa num deslizamento de terra e de morar um ano num abrigo superlotado. "Eu me senti como se tivesse ganhado na loteria", comentou.

Os americanos, cansados de juros hipotecários desumanos e de bolhas da habitação, com certeza achariam que há algo novo na Venezuela com a estratégia chavista de enfrentar a crise da habitação. O governo estima que num país de 29 milhões de pessoas, 2,7 milhões de famílias precisam de uma nova moradia, por serem sem-teto, porque as casas em que vivem são inadequadas, ou porque várias famílias vivem amontoadas numa única casa.

A distribuição de moradias novas é um exemplo fundamental de como Chávez conseguiu manter o apoio do povo durante cerca de 14 anos, apesar da criminalidade que está fora de controle, dos serviços básicos irregulares e da persistente pobreza. Transformando num show a entrega de novas casas a alguns, ele mantém viva a esperança de muitos outros de que, algum dia, serão beneficiados pela mesma generosidade.

Enquanto se recupera do tratamento contra o câncer, Chávez tem sido muito menos visível em público do que em outros momentos de seu governo. Mas a distribuição de residências continua. Ele financia as casas novas com a enorme receita do petróleo do país e promove a distribuição no programa A Quinta-feira da Casa Nova. Recentemente, ele deu um apartamento novo a uma mulher que era a sua seguidora número 3 milhões no Twitter.

Na semana passada, dois edifícios de três andares do conjunto de El Cobre, aos pés dos Andes, na região ocidental da Venezuela, foram decorados com balões e bandeirinhas do país. Bombeiros numa escada sobre um caminhão penduravam uma enorme bandeira com a imagem sorridente de Chávez. Alto-falantes berravam um jingle: "Vamos, Venezuela, apoia Chávez, em 7 de outubro vai ganhar outra vez".

As câmeras mudaram de posição e apareceu o ministro da Habitação, Ricardo Molina, andando pelo apartamento de três quartos de Rondón, um dos 48 apartamentos do conjunto. Em seguida, foram mostradas mais cerimônias de entrega de casas em outras partes do país. Molina, então, pronunciou um discurso de campanha e entregou as chaves a outras pessoas, num gesto simbólico, pois elas já moravam no conjunto e as chaves, de metal avermelhado, não eram de verdade.

Políticos de oposição dizem que o governo exagera nos números. E as pretensões oficiais tendem a enfatizar em excesso o papel do governo como construtor de moradias. Molina reconheceu numa entrevista que das 76.655 casas completadas neste ano, cerca de um terço foi construído pelo setor privado e não como parte do programa de distribuição.

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