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Programa de TV sai do ar após críticas a Cristina

Ligado ao governo, canal diz que atração excedera horário, mas não explica suspensão de reprises

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2012 | 03h02

O programa de TV do jornalista argentino Marcelo Longobardi na emissora C5N foi retirado do ar noite da terça-feira enquanto exibia ao vivo uma série de entrevistas com pessoas que criticavam o governo da presidente Cristina Kirchner. O canal afirmou que o programa de Longobardi havia ultrapassado seu horário de encerramento e, por isso, foi cortado.

Os comentários negativos sobre a administração presidencial começaram durante uma entrevista com o ex-embaixador Jorge Asís, que falou sobre os escândalos de corrupção que envolvem o vice-presidente argentino, Amado Boudou. "Cristina sabia de tudo isso", sustentou.

O seguinte entrevistado foi Alberto Fernández, ex-chefe de gabinete de Cristina e de seu marido e antecessor, Néstor Kirchner. Após criticar a política econômica, Fernández afirmou que "cada vez que a presidente ouve algo que não gosta se zanga com o emissor". Dez segundos após a declaração, o programa foi interrompido.

"Eu estava falando e, de repente, o áudio foi cortado. Achei que alguém havia apertado mal um botão no painel de controle. Mas a produção explicou que o programa havia sido retirado do ar", disse Fernández. Segundo ele, integrantes do programa admitiram que funcionários de alto escalão do governo tinham pedido por telefone a suspensão da transmissão.

Após o corte, às 23h04, começou o Diario de Medianoche (Jornal da Meia-noite), embora ainda faltassem 56 minutos para seu início previsto. Ontem (quarta-feira) o canal formalmente desvinculou o corte de alguma pressão do governo. A versão oficial do canal é que o programa de Longobardi havia ultrapassado seu horário de encerramento e por isso foi cortado abruptamente. "Excesso de formalismo", indicou o dono do canal, o empresário Daniel Haddad, dono do Grupo Infobae, para justificar a interrupção. Ele não explicou porque as duas costumeiras reprises do programa durante a madrugada também foram suspensas.

Haddad é um empresário que cresceu durante o governo do ex-presidente Carlos Menem (1989-99) e consolidou sua posição durante o governo Kirchner, do qual recebe generosa publicidade oficial. O canal costuma transmitir todos os discursos da presidente Cristina, na íntegra, superando a cobertura do próprio canal estatal, a TV Pública.

Asís disse ao Estado que não se surpreende com a interrupção: "Esse governo é feito por amadores, que criaram um ambiente 'putiniano', ou seja: de pressões fortes sobre o jornalismo, como o presidente Vladimir Putin fez na Rússia". "Se um governo não pode suportar o que se comenta em um programa de TV, não pode coisa alguma..."

"O corte abrupto do programa (de Longobardi) não é surpresa, levando-se em conta tudo o que ocorre constantemente na Argentina em relação às pressões sobre a imprensa", afirmou ao Estado Claudio Paolillo, copresidente da Comissão de Liberdade de Imprensa da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). "Essa censura é mais um capítulo do assédio que Cristina impõe à imprensa", disse o membro do comitê executivo da organização.

Desde Montevidéu, por telefone, Paolillo sustentou que "as pressões do governo ocorrem quando alguém se deixa pressionar. Haddad, o dono do canal, deu argumentos pueris para justificar o corte repentino da entrevista com Fernández, que conheceu bem os bastidores do governo Kirchner quando era chefe do gabinete. Os fatos da censura da noite de terça-feira são mais um caso dentro do grande assédio que a presidente Cristina faz sobre a imprensa". O governo argentino não comentou o caso.

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