AFP PHOTO / HECTOR RETAMAL
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Programa Mundial de Alimentos da ONU ganha o Nobel da Paz em 2020

Comitê Nobel da Noruega destacou a contribuição da agência para melhorar as condições para a paz em áreas atingidas por conflitos e por prevenir o uso da fome como arma de guerra

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2020 | 06h04
Atualizado 09 de outubro de 2020 | 20h40

OSLO - O Prêmio Nobel da Paz de 2020 foi concedido nesta sexta-feira, 9, para o Programa Mundial de Alimentos (PMA), braço humanitário da ONU contra a fome. Analistas e membros da organização ouvidos pelo Estadão afirmaram que o reconhecimento dá mais visibilidade ao tema e deve trazer mais recursos para o combate à insegurança alimentar no mundo.

A organização destacou o programa promovido pela ONU "por seus esforços para combater a fome, por sua contribuição para melhorar as condições de paz em áreas afetadas por conflitos e por atuar como uma força motriz nos esforços para prevenir o uso da fome como arma de guerra e conflito."

O PMA é a maior agência humanitária da ONU, responsável pelo maior programa de combate à fome do planeta, em busca de promover a segurança alimentar. Apenas em 2019, a agência forneceu assistência para cerca de 100 milhões de pessoas em 88 países. Após a premiação, a entidade escreveu no Twitter que o Nobel da Paz é um "poderoso lembrete para o mundo de que a paz e a erradicação da fome são indissociáveis". 

Nos últimos anos, a situação alimentar no mundo vem se agravando, com 135 milhões de pessoas passando fome, aumento causado majoritariamente por guerras e conflitos armados. A agência enfrenta dificuldades para receber os recursos necessários para expandir seu trabalho.

"A entrega do Prêmio Nobel da Paz ao Programa Mundial de Alimentos é um reconhecimento humilde e comovente do trabalho dos funcionários do PMA que arriscam suas vidas todos os dias para levar comida e assistência para cerca de 100 milhões de crianças, mulheres e homens famintos em todo o mundo. Pessoas cujas vidas são frequentemente dilaceradas brutalmente pela instabilidade, insegurança e conflito", afirmou David Beasley, diretor executivo do programa, após a premiação.

Beasley ainda destacou que o programa só é possível por meio das parcerias com governos, organizações e empresas locais, que colaboram para as atividades desenvolvida em cada país. O diretor também fez um apelo pela segurança alimentar como um meio de atingir a paz. "Onde há conflito, há fome. E onde há fome, freqüentemente há conflito. Hoje é um lembrete de que segurança alimentar, paz e estabilidade caminham juntas. Sem paz, não podemos alcançar nosso objetivo global de fome zero; e enquanto houver fome, nunca teremos um mundo pacífico."

“O prêmio pode trazer mais recursos contra a fome”, afirma Daniel Balaban, chefe da agência no Brasil, para quem o Nobel coloca luz em um problema tão importante que afeta o mundo. “Quem realmente ganhou foram as populações marginalizadas e esquecidas.” 

Preocupações com o futuro

Estimativas da ONU indicam que 690 milhões de pessoas no planeta vivem em situação de insegurança alimentar e ao menos 20 mil morrem por dia em decorrência da falta de alimentos, inclusive no Brasil. Embora seja um país exportador, cerca de 10,3 milhões de brasileiros enfrentam dificuldades para obter alimentos diariamente, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – o equivalente à população de Portugal. 

"O Brasil saiu do Mapa da Fome em 2014, mas agora está caminhando a passos largos para voltar", disse Balaban em entrevista ao Estadão, em maio.

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'Cooperação e multilateralismo'

Ao entregar o prêmio para o braço das Nações Unidas, o Comitê Norueguês do Nobel elogiou o programa por seus "esforços para acabar com a fome no mundo e pela necessidade de solidariedade e multilateralismo".

A premiação ao programa é uma forma de apoio a ONU, que completou 75 anos em 2020. O Sistema das Nações Unidas enfrenta desconfiança, ataques populistas e incertezas sobre o futuro em meio à ascensão de governos populistas.

"A necessidade de solidariedade internacional e cooperação multilateral é mais conspícua que nunca", disse a presidente do comitê, Berit Reiss-Andersen. 

Em seu anúncio, Reiss-Andersen ressaltou que a pandemia de covid-19 teve como consequência um grande aumento do número de vítimas da fome que, somada ao aumento de conflitos em países como Iêmen, República Democrática do Congo, Nigéria, Sudão do Sul e Burkina Faso teve efeitos dramáticos. Diante da pandemia, o Programa Mundial de Alimentos "demostrou uma habilidade impressionante para intensificar seus esforços".

Outros premiados com o Nobel da Paz

No ano passado, o laureado foi o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, "por seus esforços para alcançar a paz e a cooperação internacional, principalmente por sua iniciativa decisiva destinada a resolver o conflito na fronteira com a Eritreia".

Em 2018, a jovem yazidi Nadia Murad e o ginecologista congolês Denis Mukwege ganharam o Nobel da Paz por seus esforços contra o uso da violência sexual como arma de guerra. No ano anterior, ganhou a Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares, por chamar a atenção para as consequências do uso do armamento e chegar a um acordo pelo fim das armas nucleares. 

Em 2017, em razão de seus esforços para obter um acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), o ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos levou o prêmio.

Algumas das grandes surpresas incluem a paquistanesa Malala Yousafzai, que recebeu o prêmio em 2014, aos 17 anos, "pela luta contra a opressão das crianças e dos jovens e pelo direito de todas as crianças à educação". Ela se tornou a pessoa mais jovem a receber o Nobel.

Outra grande surpresa, muito contestada à época, foi a escolha, em 2009, do então presidente american Barack Obama, agraciado  por seus "esforços extraordinários para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos". 

Desde a última segunda-feira, o Nobel já divulgou os laureados das categorias de Medicina,Física,Química e Literatura. 

Como funciona o Nobel da Paz

O prêmio Nobel da Paz é concedido, desde 1901, a homens, mulheres e organizações que trabalharam para o progresso da humanidade, conforme o desejo de se criador, o inventor sueco Alfred Nobel. Ele é lembrado como o patrono das artes, das ciências e da paz que, antes de morrer, no limiar do século 20, transformou a nitroglicerina em ouro.

O prêmio é entregue pelo Comitê Norueguês do Nobel,  composto por cinco membros escolhidos pelo Parlamento norueguês. O vencedor recebe, além de uma medalha de ouro, 9 milhões de coroas suecas, o equivalente a US$ 910 mil (R$ 5 milhões).

Indicar uma pessoa a um prêmio Nobel é relativamente simples. O comitê organizador distribui (e fornece em seu site) formulários para centenas de formadores de opinião. 

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As fichas com as sugestões são enviadas até o fim de janeiro de cada ano e então cada uma delas é avaliada até outubro, quando os vencedores são anunciados. Ao longo desse processo, a lista é reduzida para uma versão menor, com no mínimo cinco e no máximo 20 nomes, que são revisados. Os jurados debatem essa lista e buscam alcançar o consenso – quando ele não acontece, a escolha se dá por votação.

A entrega dos prêmios ocorre em dezembro. Mas pode acontecer de o comitê decidir que ninguém mereceu vencer o Nobel da Paz naquele ano – a honraria não foi entregue em 20 ocasiões, a mais recente delas em 1972.

Ate hoje, cinco vencedores não puderam participar da cerimônia em Oslo. Em 1936, o jornalista e pacifista alemão Carl von Ossietzky estava em um campo de concentração nazista. Em 2010, o dissidente chinês Liu Xiaobo foi preso e, portanto, sua cadeira, na qual o prêmio foi depositado, ficou simbolicamente vazia. Desde 1974, os estatutos da Fundação Nobel estipulam que um prêmio não pode ser concedido postumamente, a menos que a morte ocorra após o anúncio do nome do vencedor./AP, AFP e REUTERS

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