Proibição do véu e ponta de racismo

Na França, banimento da burca levanta questionamentos sobre até onde o Estado pode interferir em costumes

Madeleine Bunting, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2010 | 00h00

THE GUARDIAN

Foi de dar calafrios. A Câmara dos Deputados da França aprovou lei proibindo o uso do niqab e da burca - trajes islâmico que cobrem o rosto e o corpo - em lugares públicos. A esperança é que essa decisão extraordinária jamais se transforme efetivamente num estatuto legal, já que o Conselho de Estado, o mais alto órgão constitucional da França, advertiu há alguns meses que essa proibição infringe os direitos constitucionais do cidadão e seria contestada no Tribunal Europeu de Direitos Humanos.

O que torna a medida adotada pelos deputados tão incômoda é o fato de que ela se insere num quadro de paranoia que vem surgindo em toda a Europa, como se alerta numa carta-aberta publicada no website do jornal The Guardian esta semana, assinada por mais de 30 acadêmicos e jornalistas.

O debate sobre o véu islâmico está legitimando crucificar, zombar e ridicularizar um pequeno número de mulheres por causa do seu traje. Os políticos franceses qualificaram o véu islâmico que cobre o corpo inteiro de "caixão ambulante". Estima-se que na França, de uma população de 5 milhões de muçulmanos, apenas 2 mil mulheres cobrem-se com a burca ou o niqab. Portanto, a resposta a essa questão é desproporcional.

Deixemos claro: o niqab e a burca são interpretações extremas das exigências do islamismo de trajes discretos: poucos estudiosos islâmicos defendem seu uso e muitos - incluindo Tariq Ramadan - têm insistido para as mulheres não usarem o véu. Ele é estranho a muitas culturas muçulmanas. É claro, há exemplos de patriarcados onde as mulheres são encorajadas ou mesmo forçadas a cobrir o corpo inteiro. Mas não podemos generalizar. Cada vez mais, mulheres jovens estão adotando o véu, vendo-o como uma poderosa afirmação de identidade.

Invocar a responsabilidade do Estado para vigiar os códigos do vestuário é uma ampliação extraordinária dos poderes estatais sobre um aspecto do comportamento do cidadão amplamente visto como algo que só lhe diz respeito. Desde que você esteja vestido, o espaço público no Ocidente é livre para todos e em todas as capitais europeias isso está patente.

Nenhum desses códigos culturais expressados na roupa são vistos como questão de Estado. Nem devem ser. O espaço público no Ocidente foi crucial para a criação de uma cultura cívica de tolerância. Negociamos e toleramos as diferenças - de classe, de cultura, nacionalidade e raça - e os lapsos nesse sentido nos envergonham.

Não é difícil ver como o racismo permeia este debate. Ele tem a ver com uma afirmação de identidade - com a desculpa de proteger "nosso estilo de vida" - e nesse aspecto é crucial forçar uma escolha: você consente ou não? Aceite ou vá embora! Mas essas escolhas são notoriamente traiçoeiras. Quem vai decidir qual deve ser o nosso estilo de vida?

A ironia é que essas proibições revelam uma fixação na questão da identidade e no rosto numa época em que um número cada vez maior de pessoas passa mais tempo do que nunca interagindo online em completo anonimato. Mas muitas pessoas que defendem uma proibição insistem que a exposição do rosto é crucial para uma interação. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA E EDITORA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.