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Proibido comer alguns animais selvagens

No imbróglio dos regulamentos, já não se compreende mais nada

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2020 | 04h00

O surgimento do coronavírus reduziu violentamente a venda e o comércio, visível ou clandestino, de alguns animais selvagens na China. O assunto é grave. E levou a Assembleia do Povo, na China, a votar em fevereiro a suspensão total do comércio ilegal e o consumo da fauna selvagem, suspeita de ter contribuído para a pandemia.

Eu li artigos traduzidos do chinês que apareceram na China sobre essa importante decisão. A leitura é difícil porque muitos animais que lá existem são desconhecidos na Europa. Antes de entrar nesse tema obscuro, gostaria de citar um texto do genial Jorge Luis Borges. O texto, explica Borges, é atribuído ao doutor Franz Kuhn na enciclopédia chinesa: “O mercado celeste dos conhecimentos benévolos”.

Suspeito que essa obra soberba não é de Kuhn, mas de Borges, porque nele encontramos a sua marca, a malícia, o gosto da farsa, a vertiginosa sutileza. Claro que esta digressão para Borges vai consumir metade deste artigo, mas como lutar contra um tal atleta literário?

Portanto, eis a longa citação de Borges:

Os animais assim se dividem:

- Os pertencentes ao Imperador

- Embalsamados

- Domésticos

- Porcos de leite

- Sereias

- Os de fábula

- Os incluídos na presente lista

- Os que se agitam como loucos

- Os inumeráveis

- Os desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo.

- Etc.

- Os que acabam de quebrar o jarro

- Os que, de longe, parecem moscas

O jornal de Cantão, Nanfang Zhouma, forneceu conselhos úteis. Por exemplo, afirmou que “Hoje é proibido comer codornizes e pombos de criação. Quanto à serpente e o sapo espinhoso gigante, seu consumo foi suspenso”.

O jornal examina em seguida o caos econômico decorrente da proibição de se comer certos animais. “O uso de animais em cativeiro para fins alimentares aumentou muito desde alguns anos. Hoje ele ajuda milhões de pessoas a sobreviverem”.

Um tanto desconcertado, o jornal reconhece que, no imbróglio dos regulamentos, já não se compreende mais nada. O porco, o boi, o carneiro, o frango, o pato, o ganso, podem ser comidos. E o cervo Sidka? Claro que sim. Em compensação, os chineses destacaram dois esquecidos: os pombos e as codornas, e também os coelhos, não foram anotados como animais que podem ser consumidos, apenas o coelho amarelo de Fujian e o branco de Sichuan. 

Entre os animais proibidos para consumo, foram listados o pato de Pequim e o carneiro Han, de cauda curta, decisão que os especialistas consideram não ter fundamento, mas a resposta é de que se trata de proteger estas espécies.

O texto oficial se refere ainda aos animais aquáticos. Pode-se comer todos os que são criados em cativeiro, as tartarugas, entre elas a de carcaça mole, os esturjões, as salamandras gigantes e os crocodilos. Mas essas mesmas espécies não devem ser ingeridas se forem selvagens.

Mais recentemente os jornais chineses retornaram ao assunto depois da votação na Assembleia Nacional do Povo. A municipalidade de Shenzhen publicou uma nova lista de animais próprios para consumo. Aí encontramos o infeliz boi e os amáveis porcos. Mas nos alegramos ao ver que foi proibido totalmente o consumo de cães e gatos de companhia.

Um debate intenso e amargo invadiu os jornais chineses: “Por que não podemos criar sapos espinhosos gigantes se temos o direito de criar o sapo-boi?”, questionou um leitor. E é verdade. Qual a razão? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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