Projeção aponta candidato islâmico e ex-premiê como vencedores no Egito

O candidato da Irmandade Muçulmana deverá enfrentar o último premiê do governo de Hosni Mubarak no segundo turno da eleição egípcia - a primeira votação presidencial democrática da história do país. Isso é o que sugerem várias contagens independentes. O primeiro boletim parcial da apuração deve ser divulgado apenas hoje.

CAIRO, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2012 | 03h06

Assim, o segundo turno deve pôr frente a frente dois candidatos que representam a luta de poder de décadas entre a elite militar e secular do Egito e sua permanente oposição islâmica.

Mohamed Morsi, engenheiro formado nos EUA, é o candidato da Irmandade, grupo que existe há 84 anos, é a fonte do Islã político em todo o mundo e hoje já domina o Parlamento egípcio.

O segundo lugar na votação ficou com Ahmed Shafik, ex-general da Força Aérea que por um curto período foi o último primeiro-ministro do governo Mubarak. Shafik apresentou-se na campanha como um vigoroso freio à ascensão dos islâmicos.

De todos os candidatos na disputa foi o que mais prometeu restaurar a velha ordem, o que resultou em apoio e ameaças de uma "segunda revolução", caso ele vença a disputa.

A mensagem de lei e ordem do candidato foi bem recebida pelos eleitores que esperam que ele vença os dois candidatos até então considerados, juntamente com Morsi, os favoritos. Um deles é Amr Moussa, ex-chanceler de Mubarak e ex-chefe da Liga Árabe, cuja mensagem era similar à de Shafik, mas um pouco mais branda. Nas semanas finais da campanha, o apoio a Moussa despencou em favor de Shafik.

Ahmad Sarhan, porta-voz de Ahmed Shafik, disse que os eleitores o apoiaram porque ele prometeu "salvar o Egito das forças obscuras", referindo-se à Irmandade e aos militantes islâmicos.

Ele trará a segurança de volta, disse Sarhan. "A revolução acabou", afirmou. "Há um ano e meio".

O outro candidato que perdeu para Shafik foi Abdel Moneim Aboul Fotouh, líder dissidente da Irmandade que se apresentou como um islâmico e liberal. Ele desafiou abertamente a autoridade da Irmandade Muçulmana para se manifestar como a voz do Islã político.

Mas nas semanas finais da campanha alguns de seus eleitores mais seculares decidiram apoiar um outro azarão, Hamdeen Sabahi, socialista nasserista.

Agora com quase todos os votos contados, Sabahi e Aboul Fotouh teriam ficado atrás de Shafik, mas o resultado ainda não é final.

Para alguns eleitores liberais e de esquerda, num país onde 75% dos votos nas eleições para o Parlamento foram para a Irmandade Muçulmana ou outros conservadores islâmicos, Aboul Fotouh representava a maior esperança de desafiar o domínio político da Irmandade. Mas, há algumas semanas, depois de ele aceitar o apoio do principal partido dos salafistas, artistas e intelectuais famosos decidiram apoiar Sabahi.

Sabahi ofereceu uma alternativa para os que se opõem aos islâmicos e aos membros do antigo regime. Poeta que se tornou um populista, ele combinou uma história de oposição a Mubarak, com o endosso público das artes e a defesa apaixonada da causa dos trabalhadores e agricultores.

Prometeu cobrar pesados impostos dos ricos e fornecer mais subsídios para os pobres, um maior papel do Estado na economia e o fim do "espírito" do tratado de paz de Camp David do Egito com Israel. À medida que os votos eram contados na sexta-feira, alguns liberais e esquerdistas observavam com pesar que, juntos, Aboul Fotouh e Sabahi conseguiram mais votos do que Shafik ou Morsi. Mas nenhum deles deve estar no segundo turno.

O sucesso de Morsi em si confirma a força da base da organização e o seu apelo popular, o que pode tornar sua derrota no segundo turno muito difícil.

Morsi era visto amplamente como o menos carismático dos candidatos que lideravam o pleito. Era ridicularizado como o "estepe", que entrou na disputa depois de a primeira opção da Irmandade ser desqualificada, o estrategista do grupo Khairat el-Shater. Morsi prometeu executar os planos e a plataforma de Shater e o seu rosto mal apareceu na propaganda eleitoral pela TV. Não participou do único debate pela TV no qual Moussa enfrentou Aboul Fotouh. / NYT

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