REUTERS/Eduardo Munoz
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‘Projeto de Correa vive momento crítico’

Para ministro em exercício das Relações Exteriores do Equador, presidente equatoriano enfrenta crise que se agravou com tentativa de criar imposto sobre fortunas e heranças

Entrevista com

Xavier Lasso

Fernanda Simas,Jéssica Otoboni, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2015 | 07h00

As recentes manifestações contra o governo do presidente equatoriano Rafael Correa, que ganharam força após a tentativa de criar um imposto sobre grandes fortunas e heranças, podem ser consideradas parte da principal crise interna vivida pelo presidente, afirma o ministro em exercício das Relações Exteriores do Equador, Xavier Lasso, que substitui o chanceler Ricardo Patiño, afastado temporariamente para integrar um gabinete de crise. Em entrevista ao Estado, Lasso reconheceu que o presidente vive sua pior crise interna desde que assumiu o poder e faltou diálogo com a população antes da tentativa de estabelecer o novo imposto. A seguir, a entrevista. 

Qual é o principal objetivo do Diálogo Nacional iniciado pelo presidente Correa após o início das manifestações?

Quando se começa a dialogar, é preciso escutar e conversar com todos os setores da sociedade. Estamos em um momento diferente de quando a Revolução Cidadã começou, há oito anos. Durante esse tempo, melhoramos em muitos aspectos. Temos uma infraestrutura muito melhor, sendo que antes não tínhamos nada. A América Latina não é a região mais pobre do planeta, mas lamentavelmente é a mais desigual. Por isso a dívida social é nossa prioridade e o diálogo se faz muito importante.

A lei de impostos sobre heranças não foi uma medida ruim, que colaborou para diminuir a popularidade de Correa?

Pode ser que sim, que o momento não fosse o mais adequado. Faz mais de um ano que o presidente Correa denunciou a existência de um movimento político que chamamos de Restauração Conservadora, que estava acumulando forças, mas sabemos que o imposto sobre heranças não é um imposto coletado para ser destinado a obras públicas. A taxação de heranças tem um impacto de redistribuição na sociedade. E se o problema principal da América Latina é, como dizem, a desigualdade, precisamos trabalhar na redistribuição, para reduzir as diferenças brutais.

Essa é a pior crise interna do governo Correa?

Pode ser que sim. Ninguém pede que todos pensem igual, mas pedimos que todos atuem democraticamente, usando os mecanismos da democracia. Em 2010, nós vivemos um momento muito crítico, que chamamos de 30F, quando houve uma tentativa de golpe de Estado e até de matar o presidente Correa. Hoje, o projeto político da Revolução Cidadã também vive um momento crítico que nos deixa lições. Na Constituição equatoriana há a previsão de revogação do mandato, há o que se chama de morte cruzada, então, eles (opositores) deveriam usar esses mecanismos. Qualquer outro atalho, como o caso do 30F, viola a democracia. Se queremos ser democráticos, é preciso usar a democracia. Temos uma Constituição que prevê saídas democráticas, é preciso saber usá-las. Por que não as utilizam? Porque, provavelmente, essas forças políticas não são capazes de triunfar por meio dessas medidas. 

Se as pessoas não querem mais o Correa, que se expressem nas urnas. Ninguém está dizendo que vamos decretar que o presidente seja o líder do Equador nos próximos anos. Há eleições e esse é o momento perfeito para as pessoas se pronunciarem. O Equador vive um momento político importante e a única coisa que queremos é que a democracia seja utilizada.

O presidente deve se candidatar para mais uma reeleição?

No último pronunciamento que Correa fez, mas que não é definitivo, segundo minhas interpretações, disse que preferiria não ser candidato. Ele disse publicamente ‘intimamente, o que mais desejo é não voltar a ser candidato em 2017’. Mas ele também disse, e isso tem um forte valor político, ‘se o projeto da Revolução Cidadã estiver em risco porque os outros não usam a democracia, vou continuar usando esse jogo, estarei presente, não vou permitir que se jogue no lixo tudo o que a sociedade equatoriana avançou durante esses oito anos em políticas sociais, na proteção aos setores mais desprotegidos da sociedade equatoriana’. Entre esses dois pronunciamentos, cabem diversas leituras políticas.

Qual é o posicionamento do Equador diante da crise entre Venezuela e Colômbia?

Nossa postura é latino-americana e, por isso, o Equador propôs que seja a Unasul o primeiro cenário onde se construa um diálogo. Se o conflito é de dois (países), então esses dois precisam estar presentes, não se pode convocar um diálogo se um dos dois estiver ausente. A conversa é justamente para saber qual é o ponto de vista da Venezuela e o ponto de vista da Colômbia. O que sabemos é que houve um fluxo de migração nessa fronteira, agora precisamos saber o que ocorreu e construir um ambiente de paz entre esses dois países tão queridos por nós. 

Quais são as expectativas do governo sobre um possível acordo com a Suécia para resolver o caso de Julian Assange?

Iniciamos algumas conversas diretas com a Suécia para tentar montar um documento que liste os acordos básicos estabelecidos com o Equador. É preciso que as leis de ambos países sejam respeitadas. No momento, Assange está na embaixada do Equador em Londres. Segundo a legislação internacional, o local é território equatoriano. Respeitamos e defendemos profundamente o asilo político. A Suécia também precisa respeitar nossa ideia de asilo. Já começamos a elaborar esse documento, que deixa clara a necessidade de observar o respeito pelas leis suecas e equatorianas.

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