Projeto de sanções ao Irã chega à ONU

Sob oposição do Brasil, Turquia e Líbano, Conselho de Segurança das Nações Unidas votará hoje quarta rodada de restrições ao programa atômico iraniano; texto da resolução, ao qual o 'Estado' teve acesso, elogia acordo turco-brasileiro

Gustavo Chacra, CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2010 | 00h00

Pressão. Ahmadinejad em Teerã: Irã ameaça sair da AIEA    

Após mais de seis meses de discussões diplomáticas, o Conselho de Segurança da ONU votará hoje a quarta rodada de sanções contra o Irã. A expectativa é a de que, dos 15 membros do órgão, apenas Brasil, Turquia e Líbano não apoiem o texto. Até a noite de ontem, o governo brasileiro não havia decidido se votaria contra ou optaria pela abstenção.

 

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Em visita a Quito, a secretária de Estado Hillary Clinton disse que as sanções serão as mais duras já adotadas contra o Irã. "A resolução será levada para votação amanhã (hoje), às 10 horas (11 horas de Brasília)", disse o embaixador do México, Claude Heller, que atualmente exerce a presidência do CS. A embaixadora dos EUA na organização, Susan Rice, acrescentou que "está confiante na aprovação de uma forte resolução e com amplo apoio".

Brasileiros e turcos recusaram-se a participar da elaboração das sanções que buscam frear o programa nuclear iraniano. Apesar disso, haverá um trecho no texto da resolução, ao qual o Estado teve acesso, enfatizando a importância "dos esforços do Brasil e da Turquia" para chegar a um acordo com o Irã.

Segundo a resolução, deve haver mais restrições às atividades militares, financeiras e de livre trânsito para autoridades iranianas que nas três anteriores. Um dos anexos lista 40 entidades com bens congelados. Entre elas, estão 15 controladas ou ligadas à Guarda Revolucionária que, segundo analistas, está no comando do atual governo, em uma aliança com o presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Outras três empresas relacionadas à IRISL (sigla em inglês para a companhia de navegação iraniana) também foram incluídas. Javad Rahiqi, o chefe da central nuclear de Isfahan, um dos lugares onde há enriquecimento de urânio, é a única pessoa física presente no anexo. Não ficou claro o motivo que levou à sua inclusão, e não o de outras autoridades. O Brasil e a Turquia, que fizeram um acordo com o Irã para tentar evitar esta quarta rodada de sanções, expuseram ontem as suas posições em debate político no Conselho de Segurança.

Segundo a embaixadora brasileira, Maria Luiza Viotti, o Brasil concorda que o Irã não deva ter uma bomba atômica, mas o País discorda que a resolução seja, neste momento, a melhor saída para impedir os iranianos de produzir uma arma nuclear.

"Nossa declaração conjunta (do Brasil, Turquia e Irã) nunca buscou resolver todos os problemas relacionados ao programa iraniano. Foi apenas uma medida de construção de confiança, para discussões mais amplas sobre a questão", afirmou a embaixadora brasileira na reunião de ontem do CS.

Proposta brasileira. Diplomatas de outros países que integram o CS consideram ingênua a proposta brasileira. Segundo eles, o acordo proposto pelo sexteto, composto pelos cinco membros permanentes mais a Alemanha, feito em outubro, não tinha mais validade em maio. Neste período, os iranianos continuaram enriquecendo urânio e o valor de 1.200 kg se tornou insuficiente.

Em entrevista à imprensa iraniana, Ahmadinejad disse que "se os EUA pensam que podem aprovar sanções e depois se sentar para negociar, eles estão enganados". Segundo os iranianos, seu programa nuclear tem fins civis. Os EUA e seus aliados acusam o regime de Teerã de estar desenvolvendo armas atômicas.

Ontem, o Parlamento iraniano afirmou que reconsiderará a cooperação de seu país com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) caso o CS aprove novas sanções.

O presidente da Comissão de Segurança Nacional e Relações Exteriores do Parlamento, Alaedin Boroujerdi, porém, se mostrou confiante no fato de países como China e a Rússia, que têm direito a veto no CS, "aguentarem a pressão dos EUA pela aprovação da resolução".

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