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Projeto do governo do Panamá incentiva detentas a confeccionarem roupas para reduzir penas

Presas podem obter uma remuneração pela venda dos produtos que fazem; autoridades procuram pontos fixos para comércio

O Estado de S.Paulo

14 de março de 2017 | 12h12

CIDADE DO PANAMÁ - Em uma pequena sala de uma prisão nos arredores da Cidade do Panamá, Kathia Thomas toca com cuidado a tela de uma máquina de costura digital na qual escolhe as cores e o tipo de bordado da sua próxima criação.

Acompanhada de outras mulheres, entre máquinas de costura, linhas, estampas e imagens religiosas, Kathia, com 43 anos e cinco filhos, prepara uma coleção. Ela faz parte do projeto governamental IntegrArte, que tem uma marca de roupas, acessórios e artigos de decoração elaborados por pessoas privadas da liberdade.

Kathia cumpre atualmente uma condenação por venda de drogas e dedica oito horas diárias à confeção, especialmente ao bordado, enquanto desconta os três anos que ainda deve permanecer na prisão.

Ela vive junto a dezenas de prisioneiras em uma das casas com pátio, sala, cozinha, lavanderia, banheiro e dormitórios no centro penitenciário Cecilia Orillac de Chiari, onde vivem cerca de 800 internas.

"Aqui o problema que temos é o encarceramento, que provoca muitas coisas. Por isso gosto sempre de fazer algo para manter a mente ocupada. A moda te liberta", disse Kathia.

Nesse centro, 25 mulheres trabalham para IntegrArte, enquanto outras 50 fazem cursos de corte e costura. Elas já lançaram a primeira coleção, chamada de "Paraíso Étnico", uma combinação de estilos dos anos 70 e 80 com técnicas tradicionais dos trajes típicos do país.

"Adoro fazer moda porque é uma maneira de me sentir completamente normal, mesmo que na prisão nos falte materiais e se trabalhe basicamente com as unhas, com o que temos", afirmou a colombiana Claudia Luna.

Peças. No total, pouco mais de 100 presos escolhidos por uma equipe técnica trabalham em quatro centros penitenciários do país no programa de ressocialização criado há um ano e apoiado pela ONU. Nesse local as mulheres fazem roupas, chapéus, colares e carteiras, enquanto nos outros três os homens fazem artigos para o lar e artesanato.

Os detentos que trabalham para IntegrArte podem ter suas penas reduzidas e obter uma remuneração pela venda dos produtos que fazem, segundo a gerente da marca, Hania Fonseca. Hoje, eles vendem seus artigos em feiras e por meio de catálogos, mas as autoridades estão em busca de pontos fixos para venda.

O programa "envolve essas mulheres nas diferentes etapas da elaboração e venda dos produtos", disse a vice-presidente panamenha Isabel de Saint Malo. Com isso há um incentivo de maior participação das mulheres na atividade econômica, algo "fundamental no esforço de igualdade de oportunidades entre homens e mulheres", acrescentou.

Várias líderes do Panamá já usaram essas peças, entre elas Isabel de Saint Malo, cujo vestido foi confeccionado por Luna, que está presa por narcotráfico. "Vestir a vice-presidente é o mais importante que aconteceu aqui porque ninguém pensa que vai conhecer uma pessoa dessas", contou Luna.

"Cada produto que desenvolvemos traz uma história da pessoa que o produz", disse Hania. / AFP

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