Bloomberg photo by Andrew Harrer
Bloomberg photo by Andrew Harrer

Projetos democratas para elevar impostos afastam bilionários

Empresários que se opõem a Trump tentam evitar que oposição flerte com esquerda radical e afaste moderados

THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2019 | 20h22

WASHINGTON -  Uma onda de populismo econômico liberal pegou de surpresa vários bilionários de orientação de esquerda e também executivos de Wall Street e eles estão se empenhando para verem rejeitadas as novas propostas de tributos e regulamentos que podem ter profundas repercussões na economia americana.

Até agora, apenas alguns criticaram abertamente a agressiva agenda democrata que tem à frente parlamentares como a deputada democrata de Nova York, Alexandria Ocasio-Cortez, e a senadora Elizabeth Warren, de Massachusetts. Mas a tensão, que aumentou rapidamente na semana passada, mostra como os líderes empresariais estão tendo dificuldade para lidar com um partido que perdeu muitas das suas vozes simpáticas ao empresariado.

Os governos de Bill Clinton e Barack Obama sempre mantiveram boas relações com Wall Street e líderes de tecnologia da Califórnia, mas um grupo emergente de líderes liberais tem rejeitado tais vínculos.

Liderando a resistência até agora estão dois candidatos potenciais à presidência nas eleições de 2020, o ex-diretor executivo do Starbucks Howard Schultz e o ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg, como também o antigo diretor executivo do Goldman Sachs Lloyd Blankfein. Todos eles se manifestaram nos últimos dias sobre o que consideram propostas demasiadamente liberais de democratas proeminentes sobre taxação e regulamentação.

Os três são críticos do presidente Donald Trump, mas alertaram que algumas das propostas apresentadas pelos democratas podem empurrar o país demasiadamente para a esquerda e afastar amplos segmentos de eleitores.

Suas queixas foram recebidas com descaso pelos legisladores liberais. “Não deve surpreender o fato de que alguns bilionários querem continuar a acumular o máximo de riqueza possível, aumentando sua influência corrupta sobre nosso sistema político”, afirmou Ilhan Omar, deputado democrata da Pensilvânia. “A realidade é que não podemos progredir no confronto com os maiores desafios do nosso tempo, como a mudança climática, a dívida estudantil ou os custos da saúde, se não pedirmos àqueles que têm muito para  que contribuam mais.”

O ponto crucial de muitas das novas propostas é a tentativa de realinhar a política econômica de maneira que americanos mais ricos paguem impostos mais altos e, em alguns casos, forçar as empresas a repartir mais seus ganhos com seus funcionários em vez dos acionistas. Os democratas propuseram aplicar parte desta nova receita em programas que ajudarão os americanos de classes media e  baixa, e também na expansão do sistema de saúde pública e auxílio no caso das taxas de matrícula e mensalidades devidas pelos universitários.

A Casa Branca procurou tirar partido dessas propostas nos últimos dias, afirmando que os democratas vêm trabalhando para levar o país para o socialismo. “Os EUA jamais serão um país socialista”, disse Trump durante seu discurso sobre o Estado da União, na terça-feira.

Alice Rivlin, que foi a principal autoridade econômica durante o governo Clinton, afirmou que os democratas correm o risco de superestimar o desejo da sociedade de apoiar algumas das propostas, provocando uma reação contrária que pode reverter em perda de apoio político. “Acho que a esquerda está bastante revigorada no momento, mas  me preocupo com isso, pois nosso país é mais cauteloso e centrista.”

Até agora algumas das propostas têm apoio universal entre os democratas e pequenos grupos de parlamentares estão testando seu partido e avaliando o apoio. Ocasio-Cortez vem trabalhando com o deputado Jan Schakowsky, de Illinois, num projeto que estabeleceria uma alíquota marginal de cerca de 70% sobre rendas acima de US$ 10 milhões, restaurando a maior alíquota estabelecida nos anos 60 e 70.

“Estou animado com o fato de a população americana gostar da ideia de impostos mais altos para os muito ricos”, disse Schakowsly. “E isso é algo muito importante...Acho que o clima em que estamos trabalhando mudou.”

Elizabeth Warren, que formou um comitê para disputar a presidência, propôs um novo imposto de 2% sobre ganhos acima de US$ 50 milhões e de 3% para rendas acima de US$ 1 bilhão. Os EUA nunca tiveram antes um imposto federal sobre a riqueza e a proposta pode ser contestada no campo constitucional se for promulgada.

O senador Bernie Sanders, de Vermont, que também deve se candidatar à presidência, acompanhou Warren e apresentou uma proposta para aumentar drasticamente o imposto imobiliário, incluindo uma alíquota de 77% sobre imóveis com valor acima de US$ 1 bilhão. O projeto de Sanders também altera o limite acima do qual o imposto é cobrado, de US$ 3,5 milhões para US$ 11 milhões.

E num sinal de que as propostas só começaram, o senador Brian Schatz, do Havaí, vem elaborando um projeto estabelecendo um imposto sobre transações financeiras que deve atingir os bancos nas negociações com ações, entre outras coisas. Os democratas já apresentaram propostas similares no passado, mas o plano de Schatz imporia custos maiores para as sociedades financeiras.

O líder da minoria no Senado, Chuck Schumer, e o senador Bernie Sanders estão redigindo um projeto de lei que proibiria as empresas de recomprarem suas  ações e potencialmente limitaria os pagamentos de dividendos, salvo se a companhia pagar primeiro a seus trabalhadores salários mais altos e oferecer diferentes benefícios no emprego.

Em um evento em New Hampshire, no fim de semana, Michael Bloomberg equiparou a proposta de Warren ao tipo de medida que destruiu a economia da Venezuela. “Precisamos de uma economia robusta e não devemos nos envergonhar de nosso sistema”, disse.

Schultz qualificou as ideias dos democratas de “ridículas” e Blakkfein disse no Twitter que a proposta de Schumer e Sanders para limitar as recompras de ações é equivocada.

“Uma empresa é incentivada a retornar o dinheiro aos acionistas quando não consegue reinvestir nela mesma com um bom retorno. O dinheiro não evapora, ele é reinvestido em atividades com crescimento mais alto que impulsionam a economia e aumentam o número de empregos. Isso é ruim?”

Há muito tempo observamos uma tensão entre as diferentes facções do Partido Democrata, uma vez alguns membros têm um vínculo estreito com Wall Street e outros são simpáticos ao movimento Occupy Wall Street. Os parlamentares têm procurado pôr fim a essa divisão caracterizando as políticas econômicas do Partido Republicano como injustas e mais inclinadas a favorecer as empresas e os ricos.

Esta coexistência, porém, foi testada durante um tempo quando os legisladores não conseguiram reverter a desigualdade de renda. Os americanos mais ricos, que constituem 1% da sociedade, hoje respondem por uma riqueza que equivale à de 95% das famílias, segundo pesquisa feita por Emmanuel Saez e Gabriel Zucman, dois economistas da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Apenas 5 das 36 nações da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico têm níveis mais altos de desigualdade de renda do que os EUA. Por outro lado, o número de bilionários no mundo aumentou de 470 em 2000 para 2.208 em 2018, segundo a Forbes.

Os democratas aproveitam o problema da desigualdade de renda à medida que elaboram a agenda econômica do partido antes das eleições de 2020.

Jeffrey Sachs, economista da Universidade de Columbia, prevê que essas propostas repercutirão junto a uma ampla faixa de americanos que acham que os dois partidos têm feito muito pouco para auxiliar a classe média.

“Acho que os bilionários não estão muito em pânico, entendendo que “isso será ignorado como uma bravata da esquerda. Na minha opinião é um erro”, disse ele.

E há sinais de que alguns executivos de Wall Street têm procurado democratas influentes que podem não apoiar as propostas que surgiram nas últimas semanas.

Larry Fink, diretor da BlackRock, uma das maiores empresas de gestão de ativos do mundo, reuniu-se recentemente com o ex-vice-presidente Joe Biden, que pretende também disputar candidatura democrata à presidência e procurou incentivar mais o bipartidarismo.

Um componente-chave da atração exercida por Trump na eleição de 2016 foi o fato de ele ter se comprometido com os americanos da classe média, especialmente no Meio-Oeste, região que se sente abandonada e onde os salários estagnaram. Trump prometeu que dividiria os grandes bancos, estabeleceria impostos elevados para conselheiros de fundos  hedge e extinguiria os acordos comerciais. Ele abandonou a proposta para os bancos e acabou reduzindo os impostos para os americanos ricos, mas reformulou as relações comerciais com inúmeros países, o que agradou a seus eleitores. 

A economia cresceu desde que ele assumiu o governo e o desemprego diminuiu, mas muitos progressistas acham que conseguem reformular a mensagem econômica antes da eleição de 2020 para colocar os democratas na Casa Branca.

“Respeitamos o intelecto do público o bastante para acharmos que eles entenderão o que temos a dizer”, disse Ocasio-Cortez. “É lutando pelas necessidades da classe trabalhadora, e educando o público que reconquistaremos uma base muito ampla.”

Isto tem forçado vários apoiadores ricos do partido a intervir, temerosos de que, se esperarem muito, será tarde demais.

“Você não vai querer chegar em 2020 e alguns democratas olharem nos seus olhos e afirmarem ‘hei, você nunca disse nada. Por que está lamentando agora?’”, explicou Douglas Holtz-Eakin, que foi um importante assessor de campanha do republicano Mitt Romney em 2016. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

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