O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2015 | 02h00

A reação dos norte-coreanos ao acordo nuclear com o Irã não demorou muito. Segundo a Agência de Notícias Central da Coreia, o regime de Pyongyang não ficou impressionado com o acordo - e, portanto, dificilmente faria o mesmo. O anúncio se preocupou em diferenciar o programa de Pyongyang do iraniano e voltou à explicação esfarrapada de que armas nucleares são necessárias para se contrapor às "políticas hostis" dos EUA. Os líderes norte-coreanos, que não primam exatamente pela originalidade, são propensos a perseverar num futuro que tem pouco a oferecer a seu atormentado povo.

Muitos críticos do acordo nuclear iraniano comparam o comportamento do Irã ao da Coreia do Norte e sugerem que o acordo não se sustentará porque os acordos com a Coreia do Norte jamais se sustentaram. Há, de fato, algumas semelhanças.

O Irã foi intimado durante anos a dizer a verdade sobre seu programa nuclear e, mais fundamentalmente, ser claro sobre suas metas e objetivos. O comportamento do Irã no Oriente Médio em geral - em particular seu apoio a grupos terroristas na região - parece contrariar sua alegação de estar buscando a estabilidade e o desenvolvimento econômico regionais. Enquanto a maioria dos países do mundo desaprova o comportamento da Coreia do Norte, o Irã parece considerar o país um parceiro comercial e alma gêmea.

Em 2005, a Coreia do Norte acertou uma declaração conjunta com seus cinco parceiros nas chamadas Conversações de Seis Partes em apoio à meta da desnuclearização e, especificamente, comprometeu-se a "abandonar todas as armas nucleares e programas nucleares existentes e retornar, em breve, ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e às salvaguardas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA)". Em troca, a Coreia do Norte recebeu afirmações de Washington e Seul de que nenhuma arma nuclear seria instalada na Coreia do Sul, além de garantias de que não havia nenhuma intenção de o Norte com armas convencionais ou nucleares.

Além disso, o Norte foi informado de que os EUA e a Coreia do Sul estavam dispostos a negociar um tratado de paz permanente, reconhecimento diplomático, ajuda financeira e um reconhecimento implícito do direito da Coreia do Norte a um programa nuclear civil.

Comparada ao extraordinário detalhamento do acordo nuclear com o Irã, a declaração conjunta de 2005 foi bem menos minuciosa. A Coreia do Norte não estava sendo convidada a tomar medidas específicas em troca de meras promessas, tampouco receberia tudo que pedira com antecedência, como muitos críticos do acordo alegaram. O acordo previa um programa passo a passo. Nenhuma parte, incluindo a Coreia do Norte, cumpriria suas obrigações na falta de ações correspondentes da outra.

Muitos duvidaram que a Coreia do Norte manteria a palavra e os norte-coreanos não os decepcionaram. No fim, o regime decidiu que não estava interessado e caiu fora. E permaneceu desinteressado. Seu feito diplomático mais significativo desde então foi a visita de um ex-jogador de basquete americano de juízo duvidoso.

Alguns argumentam que o acordo recente com o Irã irá pelo mesmo caminho, porque ele também é um triunfo de esperança e ingenuidade sobre realismo e experiência. Mas essa alegação diz mais sobre os críticos do acordo iraniano do que sobre qualquer comparação objetiva entre os dois países.

O Irã é um país com um passado turbulento, acossado por uma crise política em curso e sem um amplo consenso sobre como fazer o país avançar e sobre seu papel regional e global. Para muitos, seu comportamento na região sugere uma competição constante com o mundo árabe sunita pelo manto da liderança, com frequência definido por uma política equivocada e de ódio a Israel. Internacionalmente, "Morte à América" sugere um país que não se leva a sério no cenário mundial.

Mas a antiguidade da civilização iraniana indica enorme capacidade de exercer papel positivo numa ordem mundial cada vez mais complexa. Diferentemente da Coreia do Norte, o Irã tem uma sociedade vibrante, classes educadas que são a inveja da região, uma extensa diáspora e uma das reservas de riquezas naturais mais ricas do mundo. O fato de o país não realizar seu potencial mostra falta de consenso político. Mas os iranianos sérios - e são muitos - compreendem que os papéis regional e global definidos pelo ódio a Israel e a antipatia aos EUA não se coadunam com a dignidade de um Estado de 4 mil anos.

Os norte-coreanos jamais compreenderam o que tinham diante de si. Esperemos que os iranianos, com tanta coisa mais em jogo, se comportem mais sabiamente. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* CHRISTOPHER R. HILL, PROJECT SYNDICATE. É EX-SECRETÁRIO DE ESTADO AMERICANO ADJUNTO PARA O LESTE ASIÁTICO, REITOR DA ESCOLA DE ESTUDOS INTERNACIONAIS KORBEL DA UNIVERSIDADE DE DENVER E AUTOR DE 'OUTPOSTS'

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