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Promessas e realidade 

Trump criou no seu eleitorado uma expectativa de mudanças radicais e instantâneas, o que não aconteceu; seu índice de aprovação - entre 42% e 44% - é o mais baixo em cem dias de governo desde Dwight Eisenhower, em 1953

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2017 | 05h00

Desde que Donald Trump se elegeu em novembro, o maior anseio dos aliados e parceiros dos Estados Unidos passou a ser que ele não cumprisse suas promessas de campanha, tanto no comércio quanto na defesa e na política externa. É o que tem acontecido, para alívio de europeus, mexicanos, canadenses, japoneses, sul-coreanos e chineses, e para apreensão de russos e do regime sírio. Israel e Irã ainda são mantidos em suspense.

Isso não significa necessariamente que o mundo esteja mais seguro, mais distante de uma guerra. As contingências internas - sempre elas - ainda podem levar Trump a acreditar que uma aventura militar seja o atalho mais curto para reforçar seu poder em casa. A grande candidata, neste momento, é a Coreia do Norte, que na sexta-feira falhou no disparo de um míssil contra o Mar do Japão, pela segunda vez consecutiva em duas semanas.

O cruzamento entre políticas interna e de defesa aponta neste momento para uma atitude mais agressiva do governo Trump. Isso porque ele tem - mais até que os mísseis norte-coreanos - falhado sucessivamente na execução das políticas internas que constituem suas principais promessas de campanha.

Apesar de seu empenho pessoal com congressistas republicanos, o presidente não conseguiu aprovar a substituição do Obamacare, o sistema que induz os americanos a ter um convênio de saúde, com incentivos e punições, por uma lei que restitui a lógica do mercado no setor. Já seus decretos para impedir a entrada de muçulmanos e refugiados e para reter verbas federais a municípios lenientes com imigrantes ilegais foram bloqueados por liminares da Justiça.

Na área econômica, o governo apresentou na quarta-feira sua proposta de reforma tributária, que entre outras coisas reduz de 35% para 15% os impostos sobre as empresas e elimina a taxação de propriedades. Entre uma parte dos republicanos há o temor de que essas renúncias fiscais aumentem o déficit público, que bateu em 3,2% em 2016, o nível mais alto dos últimos três anos.

Além disso, o Federal Reserve (Banco Central dos EUA) pode continuar elevando os juros, para conter a pressão inflacionária resultante desse estímulo, em um contexto de desemprego baixo (4,5%). Isso poderia neutralizar o aumento da atividade econômica almejado por Trump, como forma de ampliar a base arrecadatória. Noutras palavras, déficit e endividamento sem a contrapartida do crescimento.

Trump criou no seu eleitorado uma expectativa de mudanças radicais e instantâneas. Na ausência delas, o índice de aprovação de Trump - entre 42% e 44% - é o mais baixo em cem dias de governo desde que a pesquisa começou a ser feita, no primeiro mandato de Dwight Eisenhower, em 1953.

A crise de confiança está relacionada também às suspeitas que foram lançadas sobre sua eleição, por causa da ação de hackers a serviço do Kremlin, que prejudicou sua adversária, Hillary Clinton, e das relações de vários membros de sua equipe com autoridades e empresários russos. O desejo de exorcizar essas suspeitas contribuiu para a decisão de bombardear a base síria, no início de abril, contrapondo-se aos interesses da Rússia.

O emprego da “mãe de todas as bombas” contra alvos do Estado Islâmico no Afeganistão reforçou a mensagem. Se nada disso se mostrar suficiente para galvanizar a opinião pública, na falta de resultados no âmbito interno, a opção militar na Península da Coreia poderá se mostrar mais e mais atraente.

Por agora, Trump está tentando pressionar o regime de Pyongyang por meio de seu principal aliado, a China. O objetivo comum é a desnuclearização da península. Mas há uma divergência fundamental. Trump tem urgência em obter um resultado. A prioridade da China é evitar a queda do regime norte-coreano e a unificação da península sob o domínio da Coreia do Sul. 

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