AP Photo/Joseph Odelyn
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Premiê haitiano destitui promotor que o acusou de envolvimento no assassinato de Jovenel Moise

Promotor Bed-Ford Claude havia pedido a juiz para acusar formalmente Ariel Henry e impedi-lo de deixar o país

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2021 | 16h53
Atualizado 14 de setembro de 2021 | 20h19

PORTO PRÍNCIPE - O primeiro-ministro do Haiti, Ariel Henry, destituiu nesta terça-feira, 13, o promotor de Porto Príncipe Bed-Ford Claude, que mais cedo havia pedido seu indiciamento ao juiz que investiga o assassinato do presidente Jovenel Moise, em julho. "Tenho o prazer de informá-los que foi decidido destituí-lo do cargo", anunciou o primeiro-ministro em carta aberta.

Bed-Ford Claude também havia solicitado que Henry fosse proibido de deixar o território haitiano, devido às ligações telefônicas que o primeiro-ministro supostamente teve com um dos principais suspeitos do assassinato, Joseph Badio, um ex-funcionário do Ministério da Justiça, na noite de 7 de julho, horas depois de Moise ser assassinado em sua residência, nos arredores de Porto Príncipe. Ainda não está claro qual relação entre os dois. "Há elementos comprometedores o bastante contra o primeiro-ministro para indiciá-lo, pura e simplesmente", escreveu Claude.

No documento de duas páginas solicitando a acusação, o promotor afirmou que as ligações entre Henry e Badio duraram um total de sete minutos, e foram direcionadas a locais próximos à propriedade onde o presidente foi assassinado e ao Hotel Montana, na capital do país. Ele também observou que um membro do gabinete do premiê disse que ele havia negado ter falado com o suspeito naquela noite.

Henry não havia se manifestado até então. Em comentários anteriores à mídia, ele negou qualquer conexão com o assassinato e disse que os mentores da trama permanecem em liberdade. Na semana passada, o premiê já havia sido intimado a responder perguntas sobre supostos contatos com suspeitos do crime.

No sábado, Henry denunciou as "manobras de distração" do promotor. "Manobras de distração para criar confusão e impedir que a justiça faça seu trabalho com calma não serão aprovadas", disse Henry.

Apesar disso, o pedido da promotoria feito nesta terça-feira não equivale a uma acusação. Em vez disso, de acordo com a lei haitiana, o juiz de investigação é quem decide se atende ao pedido do promotor de apresentar queixa contra o primeiro-ministro.

Alguns observadores também advertiram que as alegações estavam sendo feitas em meio a uma luta interna pelo poder no Haiti entre grupos a favor e contra Henry, um neurocirurgião nomeado premiê por Moise poucos dias antes do assassinato, que tenta afirmar sua autoridade sobre o país desde que assumiu o cargo.

As acusações contra Henry representam uma nova reviravolta na complexa investigação sobre o misterioso assassinato de Moise, e certamente aumentará os pedidos já crescentes de grupos de direitos humanos e da sociedade civil para que um novo governo interino seja instalado.

A polícia haitiana deteve várias pessoas com possível conexão com o assassinato, incluindo 18 colombianos e vários haitianos e haitianos-americanos, e ainda está procurando outros. Os suspeitos incluem ex-militares colombianos, um ex-juiz e dois membros da equipe de segurança do presidente.

As autoridades do país apontam como figura-chave na trama o médico e pastor Christian Emmanuel Sanon nascido no Haiti e residente na Flórida, acusado de conspiração.

A situação é ainda pior pelas consequências do terremoto do mês passado, que matou mais de 2.200 pessoas, e as comunidades mais duramente atingidas insistem que não está sendo feito o suficiente para ajudá-las./AFP, W. POST E NYT

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