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Promotora admite que Nisman pediria prisão da presidente Cristina

Viviane Fein, que investiga a morte de Alberto Nisman, admitiu ontem ter errado e reconheceu que texto trazia denúncia contra líder

Rodrigo Cavalheiro, de BUENOS AIRES / CORRESPONDENTE, O Estado de S. Paulo

03 de fevereiro de 2015 | 17h49


(Atualizado às 21h40

A promotora Viviane Fein, que investiga a morte de Alberto Nisman, admitiu ontem ter errado e reconheceu que no lixo do promotor federal encontrado com um tiro na cabeça no dia 18 havia uma versão preliminar da denúncia contra a presidente Cristina Kirchner em que ele pedia prisão e embargo dos bens da líder argentina. No texto definitivo que apresentou quatro dias antes de morrer, ele abandonou essa ideia.

O rascunho, achado na lixeira de Nisman após sua morte, foi publicado pelo jornal Clarín no domingo com trechos cobertos de tinta. Na segunda-feira, duas páginas do jornal foram rasgadas ao vivo em cadeia nacional na coletiva diária do porta-voz da presidência, Jorge Capitanich, que acusou o veículo de mentir e praticar um “jornalismo lixo”.

Ontem, depois que o Clarín publicou com destaque a íntegra do rascunho, sem as partes ocultas por tinta, a promotora Fein admitiu à Rádio Vorterix que havia errado ao desmentir a existência do rascunho. “Foi um erro involuntário. As páginas foram achadas na lixeira, como a imprensa antecipou.”

O material de 26 páginas não entrou na denúncia de Nisman sobre o caso Amia, já que ele o descartou, mas passou a fazer parte das provas na investigação sobre sua morte. Não está claro por que o texto, datado de junho de 2014, estava na lixeira no dia da morte do promotor. As hipóteses cogitadas são que ele o tenha descartado depois de chegar à versão que considerou adequada, sem o pedido de prisão de Cristina, ou que, tratando-se de um assassinato, o autor as tenha colocado ali para associar o crime ao governo.

Cristina, o chanceler Héctor Timerman e outros funcionários do governo foram acusados por Nisman de conspirar para proteger iranianos indiciados pela Justiça argentina pelo atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia) em 1994, quando 85 morreram e mais de 300 se feriram.

Férias. A promotora Fein, decidiu tirar folga entre os dias 18 de fevereiro e 5 de março. "Faz dois anos que não tiro férias", justificou, acrescentando que já tinha passagens compradas desde dezembro. Horas antes de fazer o anúncio, o superior imediato de Viviane, Ricardo Sáenz, disse que a Procuradoria-Geral quer afastá-la da investigação. 

Na Rádio Mitre, Sáenz acusou a procuradora-geral Alejandra Gils Garbó de, por meio de sua assessoria de imprensa, alimentar Fein com informações erradas para defender interesses do governo. "Agora querem interferir na investigação da morte de um colega e não vamos permitir", disse Sáenz.

Disputa. O governo e o Clarín enfrentam uma batalha jurídica em razão da Lei de Mídia, que obriga o maior grupo de comunicação argentino a se desmembrar. “Não se deve confundir liberdade de imprensa com liberdade de empresa”, disse Capitanich na segunda-feira, enquanto rasgava o jornal. Para ele, a companhia se nega a cumprir a lei.

Ontem, ele se recusou a reconhecer a veracidade da reportagem e a responder uma pergunta de um de seus autores, Nicolás Wiñaski, que levou os originais do rascunho e sentou-se na primeira fila na sala de pronunciamentos da Casa Rosada. “Ele não conseguiu me olhar nos olhos. Achei que talvez pudesse pedir desculpas, mas o kirchnerismo será sempre o kirchnerismo”, disse Wiñaski ao canal TN, pertencente ao Grupo Clarín.

Na TV Pública, o assunto foi tratado com discrição. Na véspera, os programas aconselhavam o jornal a se retratar e apostavam que haveria silêncio, como quando o Clarín publicou que a bala que matou Nisman havia sido disparada a 20 centímetros de distância, um indício de homicídio. A perícia atesta que o projétil entrou na têmpora direita do promotor a menos de 2 centímetros, o que reforça a tese de que ele se matou ou foi forçado por alguém a disparar contra si.

O secretário-geral da presidência, Aníbal Fernandez, tirou o peso da atitude de Capitanich. “Se não é crime queimar a bandeira dos EUA, não demos valor a rasgar a folha de um jornal”. Daniel Santoro, editor de política do Clarín, respondeu no canal TN que o ato foi uma agressão ao jornalismo.

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