Promotoria forte e partidos frágeis turbinam efeitos da Lava Jato no Peru

Promotoria forte e partidos frágeis turbinam efeitos da Lava Jato no Peru

Demanda crescente por obras de infraestrutura ligada ao crescimento econômico e um histórico de corrupção ajudam a explicar por que investigação originada no Brasil atingiu 4 ex-presidentes peruanos

Luiz Raatz, ENVIADO ESPECIAL A LIMA

21 de abril de 2019 | 07h00

Partido mais tradicional do Peru, a Apra tem 5 dos 130 integrantes do Parlamento. Tamanha fragilidade das legendas explica em parte o efeito devastador da Lava Jato no país, que teve seus últimos quatro presidentes atingidos. Na sexta-feira, enquanto um deles, Alan García, tinha o corpo cremado – dois dias após se matar, acuado por denúncias de corrupção – outro, Pedro Pablo Kuczynski (PPK), soube que cumpriria 3 anos de prisão preventiva. Aos 80 anos.

O enfraquecimento dos partidos ocorreu paralelamente ao boom econômico e ao aumento da demanda por obras de infraestrutura. Desde o ano 2000, políticos personalistas como Alejandro Toledo, o próprio García, e Ollanta Humala se revezaram no poder, com pouco apoio no Congresso, baixa aprovação popular e doações de campanha em troca de concessões milionárias. 

Sem força política para se contrapor às denúncias, os ex-presidentes foram caindo um a um. Último presidente eleito, em 2016, PPK inventou uma legenda com suas próprias iniciais (Peruanos Por el Kambio) para vencer a disputa. 

Prostrado num banco em um jardim que ostenta os bustos dos fundadores da Apra, Germán Luna, um dos dirigentes da legenda, olhava o rastro de flores deixado pelo féretro de García, ao final de seu velório, na sexta-feira, 19. Seu partido quase centenário se tornou um corpo estranho na política peruana, marcada desde a ditadura de Alberto Fujimori também por um Executivo hipertrofiado e inúmeros escândalos de corrupção. “Ainda somos uma organização política. A última que sobrou no Peru, com quadros e militância”, sustenta ele.

O cientista político Arturo Maldonado avalia que desde Fujimori os partidos não têm força suficiente para se impor. “Uma vez que os presidentes saem de cena desprestigiados e sem uma organização por trás, se tornam um alvo fácil”, disse Maldonado ao Estado. “A classe política agora, com a morte de García, tenta deslegitimar o trabalho do Ministério Público, tentando caracterizá-lo como parcial, principalmente contra a Apra e os fujimoristas, que são as forças políticas ainda organizadas no país.”. 

As investigações só foram possíveis graças aos acordos de leniência firmados entre o Ministério Público e a Odebrecht e à cooperação com a força-tarefa da Lava Jato no Brasil. “Todos os ex-presidentes são investigados porque há indícios contra cada um deles. Por isso, os políticos se uniram para criticar a força-tarefa e os métodos que temos usado, que foram dados ao Ministério Público pelo próprio Parlamento”, disse ao Estado um dos procuradores que comandam a Lava Jato no Peru. 

Ele acredita que os procuradores são reconhecidos pela população porque a classe política está desprestigiada. O procurador pediu para não ter seu nome revelado por ter sido proibido de falar com a imprensa depois do suicídio de García.

A cooperação internacional entre procuradores brasileiros e peruanos possibilitou a descoberta de doações ilegais de campanha feitas pela Odebrecht a Ollanta Humala, em 2011. O acordo de leniência fechado dentre a Odebrecht e o Departamento de Justiça americano, em dezembro de 2016, motivou a empresa a colaborar com autoridades em países nos quais estava envolvida em escândalos. O primeiro deles foi o Peru.

Isso possibilitou ao MP peruano abrir duas linhas de investigação: uma que envolve doações irregulares de campanha e a outra sobre corrupção de agentes públicos. A delação de Marcelo Odebrecht revelou que todos os principais atores políticos do país receberam dinheiro em troca da promessa de obras de infraestrutura. 

O acordo de repasse de informações em troca de uma permissão para a empresa continuar operando no Peru possibilitou investigações sobre irregularidades em obras como a construção do metrô de Lima, na qual García estava envolvido. 

Esta semana, procuradores da Lava Jato peruana estarão em Curitiba, numa parceria com a força-tarefa brasileira, para ouvir um dos principais delatores da Odebrecht no Peru, o executivo Jorge Barata.

Os procuradores esperam que Barata dê provas definitivas que comprovem o envolvimento de García com irregularidades. Outro foco é a negociação de uma delação com a construtora OAS. “Enquanto a Odebrecht participou de muitas obras do governo de García, a OAS o fez na gestão de Humala. Há suspeitas de irregularidades também em obras contratadas na prefeitura de Lima, nas gestões de Susana Villarán e Luis Castañeda”, acrescentou o procurador ouvido pelo Estado. “Estamos perto de comprovar nossas hipóteses de investigação contra Alan García. Dependemos do depoimento de senhor Jorge Barata, no Brasil.”

A militância aprista, no entanto, não acredita nas suspeitas, apenas em perseguição. “Nunca encontraram nada contra Alan. Os procuradores são todos de esquerda e mancomunados com a imprensa”, acusa o dirigente Germán Luna. “Esquecem que no nosso governo reduzimos a pobreza de 52% para 27% e, pela primeira vez no Peru, começamos a construir edifícios, em vez de casas.”

Para Maldonado, a nova fase das investigações é um sinal de que a Lava Jato no Peru pretende se mostrar apartidária. “Seria uma maneira de contradizer os argumentos de perseguição da Apra e dos fujimoristas”, diz

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