REUTERS/Enrique Castro-Mendivil
REUTERS/Enrique Castro-Mendivil

Propina da Odebrecht a ex-presidente peruano passou por Andorra e Suíça

Ex-presidente do Peru Alejandro Toledo usou paraísos fiscais para receber US$ 16 milhões da empreiteira brasileira; dinheiro poderia ter relação com construção da Rodovia Interoceânica

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA , O Estado de S.Paulo

15 Março 2018 | 05h00

O ex-presidente do Peru Alejandro Toledo usou contas na Suíça para receber milhões de dólares da Odebrecht em propinas que saíram de empresas criadas em Andorra. Há suspeita de que o dinheiro tenha relação com a construção da Rodovia Interoceânica, entre Brasil e Peru, projeto emblemático da integração regional e carro-chefe da relação entre o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e os vizinhos andinos.

Documentos obtidos pelo Estado indicam que, mesmo depois de deixar a presidência, Toledo e seus aliados movimentaram na Suíça mais de US$ 16 milhões. O dinheiro entrou depois no sistema financeiro peruano por meio de uma rede de contas e de empresas de fachada. 

Em depoimento em novembro de 2016, o superintendente da Odebrecht no Peru, Jorge Barata, indicou que a empresa teria pagado US$ 20 milhões a Toledo por contratos. Ele também indicou que o valor havia sido inicialmente negociado no Rio de Janeiro e revelou que o presidente peruano chegou a pedir US$ 35 milhões. 

O encontro ocorreu em novembro de 2004, durante uma cúpula de presidentes no Rio. Participaram da reunião no Hotel Marriot, em Copacabana, Barata e Josef Maiman, empresário e amigo de Toledo. 

No entanto, ainda há divergência sobre o que realmente ocorreu no Rio. Pela versão de Maiman, Toledo disse que a Odebrecht estava disposta a fazer uma doação para uma fundação que ele desejava criar. 

Para Barata, o encontro tratou das condições para que a empresa liberasse o dinheiro. Seja como for, os recursos começaram a ser enviados no início de 2006, usando três empresas de Maiman: Trailbridge, Merhav Overseas e Warbury and Co., em Londres, Nova York ou na Alemanha. 

Nos extratos consultados pelo Estado, aparece a empresa Klienfeld, criada pela Odebrecht em Andorra para distribuir pagamentos de propinas para diversos governos e políticos latino-americanos. Apenas desta companhia de fachada, mais de US$ 2 milhões foram transferidos para empresas de um aliado de Toledo. 

Dali, os recursos iriam para contas do mesmo aliado do presidente peruano, desta vez na Suíça, na conta H189782AA. Essa conta estava no banco LGT, de Zurique, que atuou como centro das operações. 

Ali, oficialmente, as contas estavam em nome da Confiado International Corp, uma empresa de fachada controlada por Josef Maiman. Também na Suíça, a administração dos recursos passava pelo escritório J. Bollag & Cie, com sede em Zug. 

Entre 2007 e 2010, nos anos em que Toledo já não era mais presidente do Peru, a conta movimentou US$ 16,4 milhões. “O volume recebido pela Warbury, por instruções de Maiman, era logo transferido para as contas da empresa Confiado, na Suíça”, apontou um documento do Ministério Público do Peru. “As transferências para a Confiado começaram aproximadamente na segunda metade de 2007 e se prolongaram até 2010”, indica o relatório.

Por meio de uma rede de contas, envolvendo empresas de fachada na Costa Rica, os recursos foram usados para comprar imóveis para o ex-presidente, no valor total de US$ 4,2 milhões. Algumas das contas intermediárias ainda estavam em nome da sogra do ex-presidente e até mesmo de um guarda-costas. 

No dia 1.º, a Justiça peruana ordenou o congelamento de quatro contas bancárias ligadas a Toledo. Na terça-feira, a Suprema Corte do Peru deu aval para o pedido de extradição do ex-presidente, que vive nos Estados Unidos. O Ministério Público da Suíça indicou que está cooperando com os procuradores peruanos no caso. 

Inicialmente orçada em US$ 900 milhões, a Rodovia Interoceânica custou US$ 2 bilhões. A obra de 2,4 mil quilômetros estava, para Toledo e Lula, no topo da agenda bilateral de Brasil e Peru. “A decisão de construir em parceria uma rodovia é um fator crucial de impulso aos fluxos comerciais”, disse Lula, em 2005. 

Em janeiro de 2006, Toledo e Lula estiveram na inauguração de uma ponte no Acre, numa espécie de pontapé inicial da obra. “Esta ponte é a alma e o coração de nosso empenho pela integração latino-americana”, declarou Toledo, na ocasião. 

Desde o ano passado, Toledo tem se declarado inocente. Para a agência EFE, ele prometeu que não permitirá que Barata diga que entregou US$ 20 milhões para reduzir sua condenação. “Não permito”, disse o ex-presidente peruano. Na época, ele ameaçou processar o ex-executivo da Odebrecht em US$ 200 milhões por suas declarações.

Consultada pela reportagem, a Odebrecht disse que está colaborando com a Justiça brasileira e dos países em que atua. “A empresa já reconheceu os seus erros, pediu desculpas públicas, assinou um acordo de leniência com as autoridades de Brasil, EUA, Suíça, República Dominicana, Equador, Panamá e Guatemala”, disse a empresa, em nota.

 

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