SAUL LOEB / AFP
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Proposta de venda de 35 caças F-35 para Emirados Árabes desperta temores em Israel

Especialistas em segurança israelenses temem que o Oriente Médio se lance numa corrida armamentista

Ruth Eglash e Karen DeYoung, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2020 | 08h00

JERUSALÉM - A proposta de venda de caças americanos para os Emirados Árabes Unidos preocupa especialistas em segurança em Israel, que temem que o Oriente Médio se lance numa corrida armamentista, apesar de os dois países terem assinado um acordo de paz na terça-feira, 15, na Casa Branca.

Autoridades do alto escalão dos Estados Unidos e dos Emirados afirmam que o acordo de paz abre caminho para o governo Trump avançar com a venda dos seus caças invisíveis F-35 e outras armas sofisticadas para o Estado do Golfo. Esta perspectiva aumenta a possibilidade de Israel e outros países do Oriente Médio também se abastecerem de armas com tecnologia avançada.

Em Israel, a proposta de venda ofuscou o entusiasmo pelo acordo intermediado pela Casa Branca com vistas a uma normalização das relações do país com os Emirados Árabes e o Bahrein.

"De uma perspectiva puramente militar, acho que isso é perigoso. Não se trata apenas de uma nova tecnologia no campo das armas. O F-35 é uma inteira plataforma de armas", afirmou Chuck Freilich, ex-assessor de segurança nacional e analista as relações entre Israel e Estados Unidos. Segundo ele, o F-35 representa um "upgrade espetacular" da capacidade militar dos Emirados.

Eli Cohen, ministro da Inteligência de Israel, disse em uma entrevista que os acordos de paz históricos assinados na terça-feira reforçarão a segurança de Israel ao consolidar uma aliança contra o Irã, que para ele é a principal ameaça à estabilidade do Oriente Médio. Mas, ao mesmo tempo, afirmou, Israel, que já possui uma frota de 20 caças F-35, deve se opor a qualquer acordo de venda de armas que prejudique sua superioridade militar na região.

"Temos uma política clara de manter nossa posição de vantagem nesse campo e vamos protestar contra qualquer arsenal que prejudique isto."

Outro oficial de alta patente no campo da defesa de Israel alertou que não existem garantias de que as relações entre Israel e os Emirados Árabes continuem cordiais.

"As coisas por aqui mudam rapidamente e temos de ter isto sempre em mente", disse a autoridade. "Israel é um país pequeno. Sua vantagem militar permite que ele mantenha um poder virtual estratégico. Se este poder for removido, isto é extremamente preocupante em termos da segurança do país".

O jornal israelense Israel Hayon, que é considerado próximo do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, informou no domingo que o Exército israelense vem preparando para apresentar aos Estados Unidos uma lista de hardware militar avançado, garantindo que Israel retenha sua superioridade militar. De acordo com o jornal, esta lista, preparada por um comitê instituído por Netanyahu e o ministro da Defesa Benny Gantz, provavelmente incluiria munições avançadas e aceleraria a entrega da aeronave tiltrotor V-22 Osprey, aviões de combate e outros armamentos. O Exército israelense não confirmou a exatidão da notícia.

Segundo informações veiculadas na mídia em Israel e nos Estados Unidos, Netanyahu em particular aprovou a propostade  venda de caças para os Emirados como parte de um acordo mais amplo que inclui a normalização das relações entre Israel e aquele país.

Mas Netanyahu, que chegou a Washington na segunda-feira, antes da cerimônia na Casa Branca, vem negando repetidamente que aprovou o acordo. Segundo comunicado recente do seu gabinete, o premiê, durante um encontro com o embaixador americano David Friedman, deixou clara sua oposição à venda dos F-35 e outras armas avançadas para qualquer outro país do Oriente Médio.

Como no caso da venda anterior de caças F-16 para o Egito, os Estados Unidos pretendem fornecer aos Emirados Árabes uma variante do F-35 que permitirá a Israel manter sua posição de superioridade. Mas não está claro que os Emirados, que já possuem uma força aérea poderosa, assinarão um acordo por menos do que a versão mais sofisticada do F-35.

Segundo o oficial da defesa, a venda de aviões de combate para os Emirados certamente vai desencadear uma corrida armamentista na região. "Teremos um efeito cascata e será mais difícil impedir a venda de armamento avançado para outros países da região", afirmou.

O ministro do Exterior do Catar, Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, também manifestou preocupação com as vendas de armas para o Oriente Médio durante entrevista que concedeu no domingo, em Washington, onde participou de conversações com autoridades americanas da área de segurança.

"Não gostaríamos de ver uma escalada na região e ao nosso ver ela deve ser mais pacífica, mais focada na prosperidade e no desenvolvimento, não na compra de equipamento militar. Esperamos que o que deve ser considerado é a defesa das nossas nações e não sermos agressivos com os outros países". As relações entre o Catar e Emirados Árabes têm sido tensas nos últimos anos.

O F-35 é fabricado por um consórcio liderado pelos Estados Unidos que inclui sete aliados dos americanos. Seis outros países aliados receberam o avião ou estão negociando contratos de compra do aparelho. Os Emirados Árabes seriam o primeiro país árabe a ter esses caças.

Em 2008, os Estado Unidos contemplaram em lei seu compromisso de assegurar que Israel "mantenha sua vantagem militar qualitativa" no Oriente Médio, que teve amplo apoio dos dois partidos. No decorrer dos anos, os Estados Unidos têm dado uma importante assistência militar a Israel para respaldar esta promessa, com o governo Obama aprovando um pacote de ajuda de US$ 38 bilhões para o país num período de 10 anos.

As preocupações israelenses com a venda dos F-35 para os Emirados devem ser partilhadas por alguns membros do Congresso.

"Dependendo do que (os Emirados) desejam exatamente, isto pode potencialmente causar muito desagrado dos dois lados", disse um assessor do Congresso. "É uma curiosidade crescente para nós porque nenhuma informação partiu do governo", disse ele, acrescentando que "para algumas pessoas pode estar tudo Ok, mas isto muda as regras do jogo uma vez que dá aos Emirados uma capacidade para fins realmente desconhecidos. Para que tipo de conflito eles necessitam de um F-35?".

Uma venda anterior de armas americanas para os Emirados Árabes  foi incluída num pacote de US$ 8 bilhões no ano passado. Declarando uma "emergência", aparentemente a ameaça representada pelo Irã, a Casa Branca conseguiu contornar uma supervisão da compra pelo Congresso. O presidente Trump também vetou uma resolução bipartidária que bloqueava as vendas de armas para a Arábia Saudita e os Emirados Árabes para serem usadas no Iêmen.

Uma similar declaração de emergência para a venda dos F-35 será mais difícil de avançar. O secretário de Estado Mike Pompeo descreveu a declaração de emergência do ano passado como "um evento isolado".

Mas Aaron David Miller, ex-negociador dos Estados Unidos para assuntos do Oriente Médio, disse ser difícil para os parlamentares inviabilizarem o acordo de compra dos F-35 mesmo que queiram. "É muito difícil para o Congresso bloquear algo que parece amarrado (a um acordo de paz) que promove o interesse nacional americano".

Em Israel, Netanyahu tem sido criticado por não informar aos membros do seu governo o que está exatamente envolvido nos acordos.

"Ninguém sabe o que está inserido nesses acordos, mas certamente não é a paz pela paz", afirmou Nitzan Horowitz, chefe do partido liberal Meretz e membro do Comitê de Defesa e de Relações Estrangeiras no Knesset.

Horowitz, um influente defensor da paz com os palestinos, disse nenhum debate sobre os acordos ocorreu dentro do governo ou no Knesset e que Netanyahu nem mesmo consultou o chefe de gabinete, o ministro da defesa ou o ministro do Exterior. "Isto jamais ocorreu antes. Netanyahu ignorou todos eles", afirmou.

Além dos F-35, ele disse estar profundamente preocupado com a venda potencial de sistemas cibernéticos avançados para os Emirados Árabes Unidos. "É uma tecnologia que pode facilmente ser passada ou cair nas mãos erradas", afirmou./ Tradução de Terezinha Martino

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