Hatem Moussa/AP
Hatem Moussa/AP

Proposta expõe divisão entre Hamas e Fatah

Líderes do grupo radical que controla a Faixa de Gaza dizem não ter sido consultados

GUILHERME RUSSO , ENVIADO ESPECIAL / JERUSALÉM, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2011 | 06h04

Membros do movimento Hamas, que controla a Faixa de Gaza, revoltaram-se por não terem sido consultados sobre a proposta da Autoridade Palestina (AP) e pedir na ONU o reconhecimento de seu Estado. O movimento radical, rival do Fatah de Abbas, opõe-se à manobra diplomática.

 

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O Hamas - que não reconhece Israel, controla a Faixa de Gaza e possui a maioria dos assentos do Conselho Palestino (Parlamento) - exige que o direito de retorno dos palestinos expulsos por Israel a partir de 1948 seja incluído por Abbas na proposta. "Se alguém propõe a você um contrato e não permite que você o leia, você o assinaria? Você concordaria com os termos? Até agora não vimos o pedido. Como podemos concordar com ele?", declarou ontem ao Estado o deputado do Hamas Muhammad Imran Totah, na sede da Cruz Vermelha de Jerusalém.

No fim de semana, o líder do Hamas em Gaza, Ismail Haniyeh, tinha afirmado que não desistirá de "nem um centímetro da Palestina" nem reconhecerá Israel. Já o líder da facção, Khaled Meshal, afirmou em Damasco tolerar uma Palestina nos limites de 1967, desde que todos os refugiados palestinos possam voltar às terras expropriadas e os assentamentos sejam removidos. De todo modo, Meshal disse que recusa reconhecer "a entidade sionista" - como os membros do Hamas se referem a Israel.

A divisão entre Fatah e Hamas é vista pelos críticos da iniciativa da AP na ONU - incluindo Israel e EUA - como um dos principais fatores desestabilizadores de um Estado fundado sem negociações que conduzam a um consenso. Os radicais do Hamas, no entanto, estimam que o pedido a ser encaminhado no discurso que Abbas fará na sexta-feira na Assembleia-Geral da ONU contém concessões "inaceitáveis".

"A resolução (da ONU) de dois Estados de 1947 nos dava 44% da Palestina histórica. E, agora, estamos pedindo apenas 22%. Além disso, o pedido beneficia os sionistas, pois (o reconhecimento dos limites anteriores à Guerra dos Seis Dias, de 1967) daria a eles legitimidade sobre nossa terra", disse Totah. "O documento (a ser apresentado por Abbas) pode ter excluído o direito de retorno - ou ter tirado Jerusalém (reivindicada como capital por árabes e judeus) do mapa do novo país. Eles (Abbas e o Fatah) têm de discutir conosco. Representamos uma grande parte dos palestinos." Nas eleições de 2006, o Hamas obteve 44,45% dos votos.

Resumindo outro sentimento comum entre membros do Hamas, Totah mostrou desdém pela manobra diplomática empreendida por Abbas. "Isso não mudará nada. A única coisa que acontecerá depois da sexta-feira será o sábado. A menos que os israelenses provoquem os palestinos."

Antes de se reunir em Nova York com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, Abbas afirmou que não haveria mais como recuar da decisão de buscar o reconhecimento de seu Estado como membro pleno da ONU. "Decidimos dar este passo e todas as forças parecem ter se voltado contra nós", lamentou Abbas, no avião a caminho dos EUA.

A via para o reconhecimento desse status passa pela votação do Conselho de Segurança - instância na qual os EUA já anteciparam que usarão seu poder de veto contra a proposta. Em caso de rejeição dessa iniciativa, Abbas levará a proposta para o plenário da Assembleia-Geral, onde os palestinos teriam votos suficientes para que sejam reconhecidos como Estado não membro.

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