Proposta sobre maconha é vista com ceticismo Programa iniciado em 2001 reduziu mortes

Índice de mortalidade de 27 a cada 10 mil parturientes caiu para zero após plano de redução de danos

MONTEVIDÉU, MONTEVIDÉU, MONTEVIDÉU, MONTEVIDÉU, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2012 | 04h34

"Por favor, não filme nem fotografe. Isto aqui ainda é ilegal no Uruguai", avisa o entrevistado, apontando para um pé de cannabis sativa, no canto da sala.

Das três grandes reformas sociais que ganharam corpo no governo do presidente José Mujica, a legalização do comércio de maconha é a que enfrenta mais resistência da opinião pública e a única que não chegou ao Congresso.

Nesta semana, Mujica se disse contra a votação imediata da lei no Congresso. "Não votem a lei só porque tem maioria no Parlamento", declarou. "A maioria tem de se dar na rua."

A rua, por enquanto, é contra. Um levantamento feito pela consultoria Radar indica que 62% dos uruguaios são contra a legalização.

Outros 31% aprovam e 7% são indiferentes. Muitos críticos citam outro projeto da Frente Ampla para criticar a nova lei em relação à droga: o controle do tabagismo. Considerado um sucesso, a lei antifumo do presidente Tabaré Vázquez baniu o fumo em lugares públicos fechados.

"Para mim, é um contrassenso banir o tabaco e liberar a maconha", diz o empresário Jorge Vaz Ferreira. "Acho que Mujica está tentando desviar a atenção da falência da Pluna (companhia aérea uruguaia)."

O publicitário Marcelo Bevilacqua e a namorada, Lucila Santaluz, concordam com a crítica. "É uma contradição que um governo de esquerda privatize o tabaco e estatize a venda de maconha", critica o publicitário. "Além disso, não sei como isso ajuda a diminuir o narcotráfico."

Segundo diretor da Junta Nacional de Drogas, Júlio Cazares, a renda obtida com a venda de maconha será revertida em projetos de saúde pública. "O princípio é o mesmo da lei do tabaco: regulamentar o uso para evitar mais problemas", disse. / L.R.

O dia em que a lei do aborto entrou em vigor oficialmente no Uruguai, 3 de dezembro, foi de relativa calma do hospital Pereira Rossell, centro de referência em saúde da mulher em todo o país. A instituição já realizava consultas para a interrupção voluntária de gravidez - o nome oficial do projeto desde a semana anterior.

O aborto clandestino era a principal causa de morte materna no Uruguai até 2001. Morriam 27 mulheres de cada 10 mil que davam à luz - 47% delas no Pereira Rossell -, quando um projeto do governo em parceria com a ONG Iniciativas Sanitárias começou a reduzir os danos provocados por interrupções de gravidezes precárias. Hoje, essa taxa é zero.

Informalmente, estimativas indicam que, por ano, ocorrem 30 mil abortos no Uruguai. A grande maioria deles, com o auxílio do medicamento Misoprostol. Como até este ano a comercialização era ilegal, o maior problema encontrado pelas uruguaias que abortavam ilegalmente - mais do que condições inadequadas, já que o aborto cirúrgico é raro - era o tráfico e o sobrepreço do abortivo.

"O preço do remédio chega a US$ 800. O que muitas meninas fazem é criar um banco de cartelas, dividindo as que sobram depois do aborto", disse ao Estado uma jovem uruguaia que usou o medicamento e preferiu não se identificar. "Havia um comércio clandestino nos hospitais e nas farmácias."

Segundo médicos do hospital, o perfil geral das uruguaias que recorrem ao aborto é de mulheres de baixa renda e muito jovens. Desde 2001, a ONG Iniciativas Sanitárias agrega uma equipe de ginecologistas, obstetras e psicólogas para diminuir os riscos dos abortos clandestinos.

"Assessoramos a mulher para que não houvesse riscos. Em 2004, o Ministério da Saúde iniciou o programa de maternidade segura, que deu direito a uma consulta às mães com gravidez indesejada, com o objetivo de impedir o aborto de risco", disse a obstetra Ana Labandera. "Esse modelo deu origem ao adotado pela lei atual. A principal diferença é que o governo dá o remédio." / L. R.

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