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Propostas de mudanças ignoram que EUA mudaram

Em todo o globo, milhões de pessoas ficam com os olhos vermelhos, por ficar horas diante da TV acompanhando uma das mais incríveis batalhas políticas da história americana - um confronto cujo resultado poderá transformar radicalmente as relações dos Estados Unidos com o restante do mundo. Com o presidente George W. Bush deixando o cargo em janeiro, grande parte do mundo mal pode esperar. O mesmo vale para muitos, se não a maioria, dos americanos. No próximo outono (no Hemisfério Norte), os dois principais partidos políticos devem escolher seu candidato à presidência: Barack Obama ou Hillary Clinton pelo Partido Democrata e, possivelmente, John McCain pelo Partido Republicano. Todos eles são pessoas inteligentes. E todos dispararam promessas como balas de metralhadoras: promessas de solucionar o deteriorado sistema de saúde, promessas de salvar o sistema de previdência social, promessas de criação de empregos, promessas de melhorar a educação, promessas de mudar o sistema fiscal, promessas de salvar o país de ataques terroristas e promessas de reverter a situação da economia. Naturalmente, é bem provável que nenhum dos aspirantes à presidência, se eleito, consiga cumprir nem mesmo algumas dessas promessas. Em primeiro lugar, para realizar mudanças, num dado momento até o mais forte presidente precisará do apoio do Congresso, das burocracias governamentais pertinentes, da mídia, dos sindicatos, dos incontáveis lobistas e de outros centros de poder, desde organizações profissionais até grupos religiosos.O processo de tomada de decisão raramente consegue acompanhar o ritmo das mudanças na sociedade. Freqüentemente, quando as forças necessárias estão alinhadas contra a inevitável oposição, as razões da mudança já mudaram. No final, o resultado obtido, se houver, quase nada tem a ver com o que foi prometido.Literalmente, nas recentes eleições intrapartidárias, todos os candidatos, de uma maneira ou de outra, falam dramaticamente da necessidade de "mudança". Contudo, muitas das mudanças que eles pregam, remontam a presidentes anteriores. Assim, McCain, como tantos outros republicanos, afirma que deseja menos impostos e um governo mais enxuto - políticas análogas ao "Economic Recovery Tax Act" (lei fiscal para recuperação econômica) de 1981, promovido por Ronald Reagan no início da sua presidência. Sucessivamente, a mudança defendida por Reagan correspondia à chamada "mellon tax cuts" (cortes de impostos propostos pelo secretário do Tesouro da década de 20, Andrew William Mellon). São essas as novas idéias.Da mesma forma, as propostas feitas pelos candidatos democratas para acabar com a crise do sistema de saúde remontam ao mandato de Lyndon Johnson, nos anos 60, com raízes ainda mais antigas na presidência de Franklin Roosevelt, na década de 30.Os americanos ouvem dos candidatos que o sistema energético está em crise, o sistema de saúde está em crise, o sistema educacional está em crise e, de acordo com muitos, o próprio sistema político está "arruinado".Mas até agora nenhum dos principais candidatos sugeriu que todas essas crises, na verdade, são partes de uma crise sistêmica única, muito maior e mais importante - partes, explicando de um modo diferente, de uma única "supercrise" transformadora, que penetra em todos os aspectos da vida americana.Os Estados Unidos estão vivendo a agonia do industrialismo e a sua substituição por uma ordem social e uma economia com base no conhecimento, radicalmente diferentes, com novos conceitos de sexo, raça e idade, novas estruturas familiares e novas formas organizacionais e culturais.As novas instituições e ordenações sociais, contudo, não se encaixam todas. Muitas são ainda experimentais. Mas a evidência mais gritante do declínio industrial não é encontrada só nas siderúrgicas vazias e no declínio do trabalho operário, no chão das fábricas.A burocracia é a forma clássica de organização da era industrial e funcionou bem numa economia baseada em chaminés e linhas de montagem tradicionais. Mas as burocracias clássicas, em larga escala, não conseguem acompanhar a velocidade e complexidade cada vez mais aceleradas dos EUA na era pós-industrial.Assim, presenciamos a falência devastadora, uma após outra, das gigantescas burocracias públicas e privadas dos Estados Unidos. Símbolos do que está ocorrendo - e do que está à frente - são os sucessivos fiascos associados ao Departamento de Segurança Nacional. Uma "megaburocracia" improvisada depois dos atentados de 11 de Setembro contra o World Trade Center, em Nova York, reuniu, no processo, 22 pequenas agências (cada uma com sua própria burocracia), absorvendo a Fema ( Agência Federal de Gerenciamento de Emergências).Durante os furacões e inundações que destruíram grande parte de New Orleans, em 2005, deixando mais de 250 mil pessoas desabrigadas, o governo federal em Washington não conseguiu uma coordenação com a burocracia estatal de Louisiana, que também não conseguiu se coordenar com a burocracia do governo municipal da cidade assolada.Pior ainda, dois anos e meio depois que os refugiados se instalaram em trailers, muitas dessas moradias temporárias podem estar envenenando quimicamente as pessoas que vivem nelas, anunciou o Centro de Controle e Prevenção de Doenças. Esse é apenas um exemplo dramático dos fracassos burocráticos cada vez piores, em todos os níveis do governo americano, e também no setor privado.Os candidatos discutem sobre vários assuntos, contudo nenhum deles os colocou num quadro mais amplo, necessário para compreender o que está ocorrendo nos EUA.Em vez de deixar claro para os eleitores que os Estados Unidos não são mais uma sociedade industrial, muitos candidatos defendem o retorno dos empregos na manufatura de pouca tecnologia, que foram deslocados para a China, Índia e outros países com mão-de-obra barata. Eles tratam do declínio dos empregos no setor de manufatura como se fosse um fato recente. Nenhum deles parece saber que os Estados Unidos iniciaram seu salto para além da industrialização em 1956, quando, pela primeira vez, os postos de trabalho no setor de manufatura foram superados em número pelos empregos na incipiente economia baseada nos serviços e no conhecimento. Nenhum dos candidatos associou as mudanças radicais observadas hoje, no campo dos valores, da estrutura familiar e da cultura, à ascensão de uma nova forma revolucionária de criação de riqueza que, tendo começado nos Estados Unidos, rapidamente se difundiu pelo globo.A seleção dos candidatos para disputar a presidência dos Estados Unidos, em novembro, os incontáveis discursos pronunciados por McCain, Obama e Hillary Clinton, a atenção interminável dispensada às suas campanhas pela mídia mais poderosa, tudo isso constitui uma oportunidade histórica para se oferecer aos eleitores um mapa coerente das mudanças inter-relacionadas necessárias para completar a transição de uma sociedade e uma economia industriais para uma fase pós-industrial.Infelizmente, com exceção de alguns que têm expressado preocupação com as questões ambientais, o mantra da mudança cantado em toda temporada política vigente, oferece, no geral, aos americanos, propostas familiares fragmentadas - mudanças com base na era industrial para uma sociedade que já não é mais industrializada.Está na hora de os políticos americanos enfrentarem a inquietante realidade de uma sociedade e economia revolucionárias que está despontando. Essa seria uma verdadeira mudança política. *Alvin e Heidi Toffler, autores de ?Revolutionary Health? (Riqueza Revolucionária), ?O Choque do Futuro? e ?A Terceira Onda?, escreveram este artigo para Tribune Media Services.

Alvin e Heidi Toffler*, O Estadao de S.Paulo

01 de março de 2008 | 00h00

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