AFP PHOTO / FEDERICO PARRA
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'Próprio de uma ditadura', diz líder opositora venezuelana sobre operação militar

María Corina Machado contou ao 'Estado' que Serviço de Inteligência Nacional invadiu casa onde políticos opositores vinham se reunindo para coordenar 'ações em favor da democracia'

Felipe Corazza, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2017 | 11h08

"É um sequestro de cidadãos em sua própria residência". Assim descreveu a ex-deputada e líder opositora venezuelana María Corina Machado a operação realizada na noite da quinta-feira 22 pelo Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin) em uma casa onde líderes opositores vinham se reunindo regularmente na capital, Caracas. Agentes da inteligência do governo da Venezuela cercaram o local e detiveram cinco pessoas - entre elas, um dos dirigentes da coalizão de oposição ao chavismo Mesa da Unidade Democrática (MUD). "É próprio de uma ditadura", acrescentou Corina em entrevista ao Estado.

A casa invadida pelo Sebin foi a de Aristides Moreno, que integrou a cúpula do segundo governo do ex-presidente Carlos Andrés Pérez. Moreno foi um dos detidos. O grupo que vinha se encontrando em sua casa era formado por líderes de nove agremiações ligadas à MUD e contrárias ao chavismo. 

"Por volta das 20h, ficamos sabendo que havia uma operação de buscas em uma residência no bairro de Altamira. Então, descobrimos que se tratava da casa de Aristides Moreno, onde vários membros de diferentes partidos políticos da Unidade (oposição) haviam feito algumas reuniões nos últimos dias para coordenar as ações em favor da democracia", descreveu María Corina, líder do movimento Vente Venezuela, que integra a MUD. 

Corina relatou, então, que foi com um grupo de opositores ao local para verificar o que estava ocorrendo. "Ficamos diante de uma barreira de funcionários do Sebin, que eram mais de 50 com vários veículos. Ao nos aproximarmos, pudemos ver que estavam levando detidos o sr. Aristides Moreno e Roberto Picón, o diretor técnico da MUD." 

As reuniões na casa de Moreno foram feitas pelos opositores para coordenar as ações contra o governo de Nicolás Maduro. Desde o início de abril, protestos têm ocorrido diariamente em diversas cidades da Venezuela, incluindo a capital, Caracas. A onda de violência que vem recrudescendo desde então já deixou 75 mortos no país, além de milhares de feridos.

A oposição afirma que a Assembleia Nacional Constituinte convocada por Maduro no dia 1.º de maio é "fraudulenta" - setores ligados ao chavismo teriam, segundo o sistema de votação adotado, vantagem na obtenção de grande parte dos 545 assentos. O governo se defende negando qualquer intenção de desequilibrar o jogo a seu favor e acusa os opositores de boicotar o processo por interesses não democráticos.

Horas antes da invasão do Sebin à residência de Moreno, o presidente Maduro afirmara que haveria uma operação em um "local clandestino" onde estariam ocorrendo encontros "subversivos". "Os líderes de partidos democráticos estão exercendo o direito à reunião, que é um direito constitucional e um direito humano. Na Venezuela, as garantias não foram suspensas, portanto, temos pleno direito a nos reunirmos como dirigentes de diferentes partidos políticos democráticos", afirmou Corina à reportagem no início desta madrugada.

Além de Moreno e Picón, a reportagem apurou que também foram detidas outras 3 pessoas - entre elas, pelo menos uma seria funcionária da casa. Até a manhã desta setxa-feira, 23, ainda não se sabia o paradeiro dos capturados. Durante a madrugada, um grupo de deputados opositores foi a uma das sedes do Sebin em Caracas, na Praça Venezuela, mas foi informado de que os detidos não estariam ali. Em seguida, o mesmo grupo seguiu para um outro edifício de comando do serviço de inteligência, conhecido como "Helicóide", mas não conseguiu descobrir se os presos na casa de Moreno estavam no local. A reportagem pediu ao governo venezuelano esclarecimentos sobre a ação do Sebin, mas até o momento não houve resposta.  

 

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