Kevin Lamarque/Reuters
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Prós e contras da quebra do registro para a economia global; leia análise  

Retomada da economia americana, após a vacinação em massa, está sendo freada pela quebra de cadeias global; à medida que os americanos voltaram à atividade e desejam consumir, a produção ainda depende de insumos que não estão à disposição

Vladimir Kühl Teles*, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2021 | 05h00

O apoio dos EUA à proposta da Índia e da África do Sul na Organização Mundial do Comércio (OMC) para a renúncia a diferentes direitos de proteção intelectual, entre eles as patentes das vacinas, visa permitir um aumento da produção e da competição nesse mercado, reduzindo seu preço. Se isso ocorrer, teríamos um término mais breve do período de pandemia pelo mundo.

Porém, uma vez que os EUA já vacinaram uma proporção expressiva de sua população, e já tem garantidas as doses para vacinar toda a sua população em poucos meses, porque se importam tanto com os demais países a ponto de impor perdas substanciais à sua indústria farmacêutica? A explicação passa pelos potenciais ganhos indiretos que sua economia teria.

A retomada da economia americana, após a vacinação em massa, está sendo freada pela quebra de cadeias global. À medida que os americanos voltaram à atividade e desejam consumir, a produção ainda depende de insumos que não estão à disposição. É como se a economia estivesse sofrendo de um choque de oferta negativo que produz uma pressão inflacionária e recessiva sobre os EUA.

A quebra de patentes, ao promover a vacinação nos demais países de forma mais breve, poderia acelerar a retomada de crescimento da economia mundial uma vez que os países não precisariam mais impor medidas restritivas à mobilidade, consumo e trabalho aos seus cidadãos. Com isso, as restrições à retomada do crescimento da economia americana seriam amenizadas.

No Brasil, o efeito da quebra de cadeias global também é sentido. Nesse sentido, a fatia das empresas que apontou escassez de matérias-primas em abril na sondagem da FGV-Ibre atingiu 25%, o maior valor já observado na série histórica. Ao mesmo tempo, ao se realizar um exercício de decomposição da inflação, observamos que a queda de estoques tem sido o maior responsável pela pressão inflacionária recente, mesmo diante de elevado hiato do produto e baixa nas expectativas de inflação.

Assim, o Brasil tem seu crescimento potencial limitado nesse ano pelo mesmo choque negativo de oferta que os demais países se deparam. Logo, a quebra das patentes de vacinação poderia favorecer a economia do país duplamente, ao acelerar a vacinação, reduzindo o risco de prolongamento das medidas de restrição à mobilidade, bem como ao reduzir o problema das quebras de cadeia globais.

Infelizmente, porém, nem todos os efeitos esperados são positivos. As consequências de longo-prazo podem ser temerárias. Assim como amplamente documentado na literatura acadêmica o investimento em pesquisa e inovação das empresas depende fortemente do ganho esperado com o novo bem produzido, o que depende da preservação de patentes.

Tal afirmação é especialmente relevante para o setor farmacêutico, conforme demonstrado pelos professores Daron Acemoglu, do MIT, e Joshua Linn, da Universidade de Maryland. A indústria farmacêutica é a que mais investe em pesquisa e inovação do mundo, e o direcionamento de sua pesquisa é fortemente determinado pelo tamanho de mercado e pelo preço potencial a ser obtido.

Não é à toa, portanto, que vacinas tenham sido desenvolvidas tão rapidamente para a covid-19, uma vez que o tamanho de mercado é toda a população do planeta e que os governos estão dispostos a pagarem o que for preciso para a sua compra.

A quebra de patentes pode gerar uma perda de ganho esperado de novas inovações, reduzindo os gastos em pesquisa no setor quando enfrentarmos novas pandemias, o que parece não ser um evento não mais tão improvável, infelizmente.

*Professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), na Escola de Economia de São Paulo (EESP) e ex-Secretário Adjunto de Política Econômica. Este artigo expressa opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV

 

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