Photo by Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Images
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Protagonistas das barricadas de 68 revisam legado

Manifestações estudantis ocorridas há 50 anos foram bem-sucedidas no setor cultural, mas fracassaram nos ideais políticos 

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

10 Maio 2018 | 05h00

Romain Goupil tinha apenas 16 anos, era estudante secundarista. Em 10 de maio de 1968, no Quartier Latin, centro histórico de Paris, ao lado de milhares de estudantes de liceus e de universidades, o jovem destruiu lojas, queimou veículos, montou barricadas e enfrentou a polícia a pedradas – tudo para desafiar a autoridade do Estado e pôr fim à sociedade patriarcal na França. Naquela noite, exatamente 50 anos atrás, o movimento libertário de Maio de 68 chegava a seu ponto mais crítico, atingia o auge de uma das maiores revoluções culturais do Ocidente no século 20. 

Da Primavera de Praga, na Checoslováquia comunista, ao Brasil da ditadura militar, o ano de 1968 foi época da explosão das tensões sociais reprimidas desde o início da década na Europa, nas Américas e até na Ásia. Cinco décadas depois dos eventos, a reportagem do Estado entrevistou mais de uma dezena de protagonistas e testemunhas da revolta parisiense para entender o que ainda resta da revolução cultural, bem-sucedida, e da revolução política frustrada nos três meses que inflamaram a sociedade.

Na França, um movimento de grandes proporções paralisou o país e cristalizou o momento da ruptura de toda uma geração de jovens com os valores patriarcais representados pelo poder de Charles De Gaulle. Marcou também o fim do culto às personalidades da 2.ª Guerra, a erupção de um sentimento anti-imperialista contra os Estados Unidos – em guerra no Vietnã – e o fim da esperança de uma nova revolução política na França. Para Alain Touraine, então professor da Faculdade de Sociologia da Universidade de Nanterre – onde dava aulas ao ícone do movimento, Daniel Cohn-Bendit –, o movimento representou a transição de uma sociedade industrial e operária para uma pós-industrial e universitária. 

+ Meio século depois, legado político e cultural de 1968 permanece vivo

Se a tomada do poder político desejada por sindicatos, partidos e militantes marxistas, trotskistas e maoistas fracassou, uma revolução cultural se produziu no imaginário dos jovens franceses. E esse movimento teve como ápice a madrugada de 10 para 11 de maio de 1968: a noite das barricadas. Naquele dia, em meio à revolta que também contestava a “sociedade de consumo” emergente, o jovem Romain Goupil – pseudônimo de Pierre Charpentier – foi um dos protagonistas. Expulso de seu liceu, o Condorcet, por ter organizado uma greve, o adolescente trotskista liderou na tarde do mesmo dia uma manifestação estudantil pelas ruas da capital. 

Às 20h40, Jacques Sauvageot, de 25 anos, e Alain Geismar, de 28, líderes estudantis, convocaram a multidão a ocupar o Quartier Latin. Goupil aderiu à ideia em meio à multidão. Às 2h40, a polícia iniciou a ofensiva contra milhares de revoltosos armados de pedras e bombas artesanais, sob uma nuvem de gás lacrimogêneo. Às 5 horas, ao lado de não mais do que 50 colegas remanescentes da noite de confrontos, Goupil lançou as pedras que ainda dispunha e correu da polícia, abandonando a última barricada. 

“Eu era um garoto autoritário, bolchevique, que acreditava que o fim justificava os meios. E o objetivo era derrubar o sistema burguês e instalar a ditadura do proletariado”, conta Goupil, que se tornou documentarista reconhecido e indicado ao Oscar. “No fim, nós, revolucionários, fomos ultrapassados por centenas de milhares de pessoas que foram às ruas e não concordavam conosco. Esse foi o sucesso de Maio de 68: ali, o patriarcado e o comunismo começaram a cair. Foi o fim de um mundo.”

Aos 21 anos, o universitário Michel Wieviorka, hoje sociólogo célebre, também lembra da noite das barricadas, da qual participou, como uma espécie de reedição da Comuna de Paris e da própria história da França. “Eu estava no Quartier Latin todas as noites”, conta o acadêmico. “Mas, na verdade, eu não me sentia fazendo uma revolução. Eu vivia aqueles dias como um momento de emancipação, de liberação, de prazer de contribuir para o desmoronamento de um mundo velho e para o nascimento de outro.”

O balanço da noite de conflito foi um milagre: nenhum morto, apesar dos 22 feridos em estado grave, parte de um total de 367 feridos – 251 policiais e 102 estudantes. Um total de 460 jovens foram presos, deixando 188 carros destruídos, mobiliário urbano danificado, fachadas de prédios incendiadas e um trauma histórico em Paris. “A noite das barricadas não foi só em autodefesa, mas um dos símbolos de liberdade que ficará para sempre na história”, diz Cohn-Bendit, o líder máximo do movimento.

Denunciada de início pelos partidos de extrema esquerda como uma revolta de “jovens burgueses”, dos quais acabariam virando aliados de ocasião, Maio de 68 não ocorreu em razão de uma crise econômica. A França, então principal potência da Europa continental, vivia os “30 anos gloriosos”, com desemprego baixo, forte crescimento, aumento da renda, explosão do consumo e um grau de liberdade individual raro no Ocidente. 

Mas essa sociedade consumista, desenvolvida e burguesa era objeto de forte crítica no mundo acadêmico, em especial entre os pensadores de Nanterre. “Duas grandes figuras influenciaram Maio de 68 de uma forma direta: Jean Baudrillard e Guy Debord. Baudrillard, por exemplo, influenciou muito Cohn-Bendit”, afirma Michel Maffesoli, na época um jovem pensador.

O radicalismo também foi estimulado por uma época de forte polarização ideológica, de capitalismo versus comunismo. Nesse contexto, o movimento juvenil que dizia lutar por mais liberdade e independência cultuava, ao mesmo tempo, personalidades autoritárias de esquerda revolucionária, como Mao, Fidel Castro e Che Guevara. “Esse era o paradoxo de Maio de 68: não se defendia uma posição política, mas sim ideologias que são o equivalente a uma doença mental”, diz Touraine.

Meio século depois, a maior parte dos protagonistas da revolta demonstra alívio pelo fracasso da revolução que pregavam, ao mesmo tempo em que celebram o impacto das transformações que conquistaram contestando o poder nas ruas: as mudanças na vida político-partidária, as reformas pedagógicas na escola e na universidade, a mudança nas relações entre pais e filhos, o ambientalismo e a emancipação feminina. 

Para Cohn-Bendit, a revolta mudou os rumos da história, liberalizando a cultura ocidental. “Maio de 68 foi o primeiro movimento moderno das sociedades industriais avançadas e a última revolta revolucionária do passado.”

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Um movimento pluralista sem mulheres na liderança

Foi apenas após a revolta popular que a França começou a despertar para igualdade de gênero e feminismo

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

10 Maio 2018 | 05h00

Na narrativa de Maio de 68 na França, uma das fotos mais emblemáticas das manifestações estudantis é a que ficou conhecida como a “Marianne de 68”, ou ainda “A jovem da bandeira”, imagem registrada pelo fotojornalista Jean-Pierre Rey, em 13 de maio de 1968, em Paris. A fotografia mostra uma jovem com uma posição que lembra o quadro A liberdade guiando o povo, de Delacroix, um dos símbolos da República Francesa. Foi a partir da revolta popular que a sociedade francesa começou a despertar para a igualdade de gêneros e o feminismo.

Em tempos de liberação feminina, Maio de 68 foi essencialmente uma revolução cultural masculina. Essa é uma constatação de escritoras e feministas como Christiane Faure, para quem, 50 anos depois dos eventos, o caráter machista do movimento social que marcou o século 20 fica mais do que claro.

+Gilles Lapouge: 1968, o ano dos loucos desejos que nunca encontrou fim

Ainda que não tenham tido destaque entre os líderes do movimento, as mulheres foram essenciais. Simples estudantes ou militantes, elas estavam entre os grevistas, participaram de assembleias e dos protestos, mas seu papel era “subalterno”. “Havia muitas mulheres em 1968. E, a partir de 1970, muitos grupos feministas foram criados. Mas esses grupos nasceram apenas depois de 1968”, lembra Isabelle Saint-Saens, então estudante de economia na Unidade de Nanterre.

“Os movimentos não eram machistas. As mulheres participavam, mas tomavam menos a palavra que os homens. E, quando pensamos nos líderes do movimento, falamos de nomes como Cohn-Bendit, Sauvageot e Geismar.” 

A história registra que, em março de 1967, um grupo de estudantes, liderado por Daniel Cohn-Bendit, iniciou um protesto pelo direito de poder visitar os alojamentos universitário das meninas à noite. No entanto, não se falava que as mulheres também lutavam pelo menos direito. Por isso, segundo Isabelle Saint-Saens, Maio de 68 não foi um movimento feminista, mas o despertar do feminismo na França, que ganharia força na década seguinte.

Entre os líderes do movimento, os 50 anos das manifestações também serviram para uma tomada de consciência sobre como os homens bloqueavam o caminho das mulheres. Romain Goupil é um dos mais críticos. Para ele, os adolescentes e jovens que comandavam os eventos eram machistas. 

“A partir de Maio de 68 houve uma ascensão da mulher que mudou tudo. Pouco a pouco, elas avançaram no domínio de seus corpos, na contracepção e na independência de seu desejo. Foi o início de um revolução incomensurável”, diz Goupil.

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