Aly Song/REUTERS
Aly Song/REUTERS

Protecionismo se agrava e aumenta a disputa entre os países pelas vacinas

Otimismo pela descoberta rápida de um imunizante contra a covid-19 pelos cientistas dá lugar à disputa feroz entre as nações para conseguir um número cada vez maior de doses em um prazo mais curto; países pobres são os mais prejudicados nesse embate mundial

Rodrigo Turrer, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2021 | 05h00

No começo da pandemia do novo coronavírus, quando milhares de cientistas do mundo se juntaram para encontrar uma vacina contra a doença, havia um otimismo de que a cooperação internacional para uma ampla imunização mundial contra a covid-19 ajudaria a derrotar o vírus rapidamente. O otimismo sobreviveu apenas enquanto duraram os estoques das vacinas. 

Em vez de cooperar entre si para lançar uma campanha global de vacinação para livrar o mundo da covid-19, as principais potências do mundo travam uma competição feroz e cada vez mais nacionalista. A UE, onde a vacinação caminha a passos mais lentos que no Reino Unido, ameaçou impor limites à exportação de vacinas produzidas em parceria entre a AstraZeneca e a Universidade de Oxford. Parlamentares britânicos, por sua vez, acusam os europeus de suborno, desencadeando uma crise que pode complicar mais a entrega de doses para países pobres. 

Nos EUA, o governo Joe Biden negocia a compra de mais 100 milhões de doses da Pfizer e 100 milhões da Moderna, pedido que se soma aos 400 milhões de doses combinadas que as empresas já se comprometeram a fornecer aos EUA. O acordo reduzirá a capacidade de outros países comprarem os imunizantes das duas farmacêuticas. 

Especialistas alertam para o risco que a guerra pelas vacinas terá no cronograma de vacinação mundial. “Se esse protecionismo perdurar, o primeiro efeito será a mutilação da cadeia produtiva de vacinas, o que vai diminuir a capacidade de produção de muitas empresas”, disse ao Estadão David Fidler, pesquisador de saúde global do Council on Foreign Relations e ex-consultor jurídico da OMS. 

A Câmara de Comércio Internacional (ICC), organização que representa mais de 45 milhões de empresas em todo o mundo, disse em uma carta a Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, que a medida para limitar as exportações poderia “corroer rapidamente as cadeias de abastecimento essenciais”. 

John Denton, secretário-geral da ICC, escreveu que “se Bruxelas proibir as exportações de vacinas da UE e impedir que as empresas cumpram seus contratos, corre o risco de retaliação de outros parceiros comerciais, o que interromperia as cadeias de abastecimento e faria pouco para expandir a produção geral de vacinas. Ou seja, atrasaria ainda mais o processo”.

A demora para a entrega ocorre por causa do atraso na produção nas fábricas belgas da Pfizer-BioNTech e da Oxford-AstraZeneca. O Reino Unido vacinou mais de 11% de sua população até agora. Países da UE como Itália, Polônia, Finlândia e Alemanha vacinaram apenas entre 2% e 3%. Muitas nações europeias esperavam que as doses da AstraZeneca acelerassem o ritmo da vacinação, já que são mais baratas e mais fáceis de armazenar que as da Pfizer.

Na semana passada, no entanto, a empresa avisou que entregaria apenas 31 milhões das 80 milhões de doses que a UE esperava até março. Isso, juntamente com atrasos na produção de doses de Pfizer, que precisou reduzir o ritmo para aumentar a capacidade de suas fábricas, levou a UE a anunciar que as vacinas feitas em seu território precisariam enfrentar burocracias extras para serem exportadas. 

Os britânicos podem ser prejudicados, pois os imunizantes que compraram da Pfizer vêm de fábricas na Bélgica.

O problema da AstraZeneca não é incomum. Vacinas são produtos biológicos complexos em que o processo de produção nem sempre rende a mesma quantidade de imunizante utilizável. Também existem verificações de qualidade rigorosas para garantir que todos os lotes são seguros. Se a qualidade não for correta, menos vacina estará disponível. 

A empresa alega que como o Reino Unido assinou o contrato três meses antes da UE, teve mais tempo para solucionar problemas que apareceram no processo. A demora da Comissão Europeia em aprovar o uso emergencial da vacina também atrapalhou. 

Uma maneira de contornar esse problema é aumentar a capacidade trabalhando com concorrentes. Por exemplo, a empresa farmacêutica francesa Sanofi anunciou que vai produzir mais de 100 milhões de doses da vacina Pfizer- BioNtech. Outra forma de aumentar a produção é usar cadeias de abastecimento regionais para fabricar e distribuir vacinas, cada uma servindo apenas em partes específicas do mundo. 

Não depender de apenas uma cadeia de suprimentos aumenta a resiliência geral. Se algo der errado em uma cadeia de suprimentos, as outras ainda podem funcionar. Espalhar a produção pelo mundo – que é o que a AstraZeneca fez – também significa acesso mais fácil a instalações adequadas e pessoal treinado.

Essa estratégia está no centro do desacordo. A UE está sugerindo que o déficit no rendimento de uma fábrica da AstraZeneca belga deveria ser compensado pela distribuição de doses produzidas no Reino Unido. Mas isso significaria uma incapacidade de cumprir as obrigações contratuais com o país. 

Mas há outro entrave maior. No momento, a demanda por vacinas contra a covid-19 é muito maior do que a oferta. A incerteza pode levar ao protecionismo da vacina, com estoques produzidos em locais-chave retidos e acumulados para servir apenas às populações locais. No ritmo atual, segundo projeções, a vacinação completa ocorrerá apenas em 2024 – tempo mais que suficiente para variantes perigosas e ameaçadoras do coronavírus aparecerem. 

“As nações desenvolvidas com foco em si mesmas não vão ajudar a resolver uma crise global”, afirmou Fidler. “Com o vírus livre para se espalhar e sofrer mutação em alguns países, nenhum país é seguro.”

Estimativas do FMI indicam que a economia global pode perder mais de US$ 9 trilhões se os governos deixarem de garantir que países pobres ou em desenvolvimento tenham acesso às vacinas. “Esses dados apontam para os perigos desses movimentos atuais de protecionismo e nacionalismo, em direção ao interesse próprio”, disse Robert Yates, diretor de saúde global da Chatham House. “A ciência está tendo sucesso, mas a solidariedade está fracassando.” 

Países podem ficar sem imunizantes

A Organização Mundial da Saúde alertou na semana passada que o mundo ameaçava deixar os países pobres sem vacina. Até agora, dez países concentram 75% das vacinas aplicadas no mundo. Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, declarou que o mundo estava “à beira de um fracasso moral catastrófico” por causa da distribuição internacional desigual das vacinas contra a covid-19. “Em última análise”, advertiu, “essas ações apenas prolongarão a pandemia, as restrições necessárias para contê-la e o sofrimento humano e econômico”.

Um relatório da Economist Intelligence Unit, que é ligada à revista britânica The Economist e faz pesquisas e análise de dados, prevê que os países ricos com acesso a vacinas comprovadas – incluindo EUA, Reino Unido e a maior parte da União Europeia – conseguirão inocular seus cidadãos mais vulneráveis até meados de março. 

O cronograma da UE pode falhar em razão da crise instaurada pelo atraso nas entregas de vacinas pela AstraZeneca, a gigante britânica de medicamentos. Outros países ricos devem alcançá-la até o final de junho. Mas a maioria dos países de renda média não será capaz de fazer o mesmo até o final de 2022. 

A única exceção é a Rússia, graças à sua vacina “Sputnik V”. China e Índia também têm as próprias vacinas, mas provavelmente ficarão bloqueadas pelo tamanho de suas populações e as exportações. Em países mais pobres, a cobertura vacinal significativa – suficiente para que a vida volte ao normal – pode não ser possível até 2023.

“Há várias razões para isso”, diz o relatório da Economist Intelligence Unit. “As vacinas contra a covid-19 são um recurso limitado e as restrições de produção devem limitar o fornecimento por anos. É por isso que muitos países se esforçaram para fazer acordos com empresas farmacêuticas no ano passado, antes mesmo de as vacinas terem sido declaradas seguras e eficazes em testes clínicos.” 

Estima-se que dos 12,5 bilhões de doses que os principais produtores de vacinas prometeram fazer em 2021, 6,4 bilhões já foram encomendados, principalmente por países ricos que garantiram muito mais doses do que o necessário para inocular suas populações. 

A maioria dos países pobres dependerá do Covax, um esquema de compartilhamento de vacinas co-liderado pela OMS. O Covax promete apenas doses para 20% da população de cada país e elas podem não chegar prontamente, pois os países ricos adiam o compartilhamento até sentirem que têm o suficiente para si. 

“Os países que distribuírem as vacinas mais cedo, é claro, sofrerão menos infecções graves, hospitalizações e mortes. Cronogramas mais rápidos também terão benefícios econômicos”, diz o relatório da Economist Intelligence Unit. “Os esforços de vacinação dos países ricos ajudarão a impulsionar o crescimento econômico na segunda metade do ano.” Mas a OMS alertou que os longos bloqueios nos países pobres continuarão a ser um obstáculo ao comércio e às cadeias de abastecimento, prejudicando a recuperação econômica. E a demanda contínua por vacinas dará a alguns países novas maneiras de flexionar seus músculos. A Rússia e a China, em particular, já começaram a se engajar na “diplomacia das vacinas”, oferecendo aos países no final da fila acesso aos seus imunizantes como forma de aumentar sua influência global. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.