AP Photo/Markus Schreiber
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Protegida de Merkel será nova líder de partido da chanceler alemã

Annegret Kramp-Karrenbauer, conhecida como 'AKK', será a substituta da líder alemã no comando da União Democrata-Cristã (CDU); ela é considerada a 'Merkel bis' por defender a mesma linha de centro-direita da chanceler

O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2018 | 14h30

HAMBURGO, ALEMANHA - Após 18 anos de comando da União Democrata-Cristã (CDU), a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, entregou ontem a liderança do partido conservador após uma votação histórica que elegeu Annegret Kramp-Karrenbauer, de 56 anos, como sua substituta na chefia da legenda. A votação histórica foi um sinal de que os conservadores alemães optaram pela continuidade em vez da mudança, já que Annegret é aliada política de Merkel.

A votação dos 1.001 delegados da CDU reunidos no congresso partidário em Hamburgo é o primeiro passo para a era pós-Merkel começar. Para muitos, foi um endosso ao legado de Merkel. “A votação tem uma importância histórica para o país, pois quem conquista a presidência do partido tem grande chances de se tornar chanceler”, disse o cientista político Eckhard Jesse, da Universidade de Chemnitz. “É um sinal de que muitos querem continuidade.”

Annegret Kramp-Karrenbauer secretária-geral do partido, considerada a "Merkel bis", por defender a mesma linha de centro-direita. Seu estilo moderado de liderança levou-a de um mandato de seis anos como governadora do Sarre, na fronteira com a França, para sua eleição como secretária-geral da CDU, a segunda posição no partido. 

Elogiada pelos membros da CDU como competente e durona, ela demonstrou sua capacidade de entrar em contato com a base do partido em quase dez meses no cargo. Também demonstrou aptidão para trabalhar com Merkel, que não chegou a endossá-la formalmente, mas deixou claro que ela era sua candidata preferida.

Annegret é católica praticante, pertence ao Comitê Central dos Católicos Alemães, e é contra o aborto e o casamento homossexual, o que a aproxima dos conservadores. Na campanha, atacou a política relativamente aberta de Merkel em relação aos refugiados. Ela pediu que os imigrantes considerados culpados de crimes sejam extraditados. Também defendeu um fortalecimento dos centros de detenção onde os requerentes de asilo são mantidos até que seu status legal seja decidido, tornando mais fácil deportar os rejeitados.

Sua vitória foi apertada. Annegret concorreu com o milionário Friedrich Merz, de 63 anos, rival declarado de Merkel que propunha uma guinada à direita da CDU, e contra o jovem ministro da Saúde, Jens Spahn. Ele foi eliminado na primeira votação e Annegret derrotou Merz no segundo turno, por 517 votos a 482.

“Nas últimas semanas, li muito sobre quem eu sou. ‘Mini-Merkel’, uma ‘cópia da chanceler’, ‘mais do mesmo’. Hoje, estou diante de você como sou, uma mãe de três filhos que sabe como pode ser difícil combinar família e carreira, mas que passou 18 anos aprendendo a liderar”, disse Annegret, após a vitória. “Não há nada de ‘mini’ sobre mim, nem de ‘cópia’.” 

Apesar de defender as políticas de Merkel, ela prometeu mudanças. “Não se pode continuar arbitrariamente na mesma linha, nem se pode rejeitá-la”, disse. “Estarei menos inclinada a aceitar como fato imutável que as coisas são como são.”

Os analistas políticos observaram que os delegados baseariam sua escolha não apenas na administração do partido, mas também com um olho nas chances do líder nas próximas eleições gerais. “Ela adota um tom mais agressivo contra os imigrantes, sem ser radical, isso pode ajudar a atrair eleitores conservadores que votaram na AfD”, afirmou Eckhard à AFP. 

Desafio. Angela Merkel segue como chanceler e espera chegar ao fim de seu mandato como chefe de governo, previsto para 2021. Isso dependerá de sua sucessora à frente da CDU. Caso ela perca apoio no Parlamento ou receba votos de desconfiança, teria de convocar eleições antecipadas, o que é um cenário possível para analistas.

Diante da pressão representada pelo crescimento da AfD, a centro-direita alemã enfrenta um cenário de declínio eleitoral e precisa de um novo impulso. Ao lado do aliado bávaro União Social-Cristã(CSU), a CDU tem de 26% a 28% das intenções de voto, segundo as pesquisas, com viés de alta para as perspectivas eleitorais da AfD.

Para muitas lideranças da CDU, o principal objetivo é recuperar os antigos eleitores, que agora preferem a extrema-direita. “Foi um erro levar a CDU para a esquerda, o que permitiu ao AfD se situar à direita sem fazer grandes esforços. Também foi um erro permitir durante meses uma perda de controle nas fronteiras”, afirmou, em editorial, a revista Der Spiegel.


Angela Merkel segue chanceler

Annegret Kramp-Karrenbauer só será candidata nas próximas eleições. A chanceler alemã, chamada carinhosamente no passado de "Mutti" (Mamãe) pela imprensa alemã, espera chegar ao fim de seu mandato como chefe de Governo, previsto para 2021. Isso dependerá em grande parte, porém, de seu sucessor à frente da CDU. Caso ela perca apoio no Parlamento ou receba votos de desconfiança, ela teria de convocar eleições antecipadas, o que é um cenário possível para analistas.

Para Eckhard Jesse, cientistas político da Universidade de Chemnitz, a possibilidade de Merkel concluir seu mandato "está praticamente descartada, pois o SPD (Partido Social-Democrata) não permanecerá na coalizão de governo até este ano". O SPD integra a coalizão de governo de Merkel e, nesse ano, demorou 5 meses para fechar o acordo de coalizão.

Caso haja antecipação das eleições, a escolha do candidato a chefe de governo na Alemanha ocorre da seguinte forma: a bancada majoritária no Parlamento sugere o nome do chanceler federal ao presidente da Alemanha, e este apresenta então o nome ao Bundestag. A votação é secreta. Para ser eleito, o candidato precisa receber metade dos votos mais um. Quando isso acontece, o presidente da Alemanha tem sete dias para empossá-lo.

'Momentos difíceis'

A chanceler alemã fez uma defesa nesta sexta-feira aos valores "cristãos e democráticos", ante o avanço das tendências populistas e nacionalistas no mundo, em seu último discurso como presidente da CDU. "Nestes momentos difíceis, não devemos esquecer nossos valores cristãos e democratas", afirmou Angela Merkel.

"Sinto reconhecimento por ter sido presidente durante 18 anos", afirmou Merkel na abertura do congresso na quinta-feira. “Foi um período muito longo, no qual a CDU passou por altos e baixos”, acrescentou.

Novo impulso para a centro-direita

Diante da pressão do partido de extrema-direita Alternativa para Alemanha (AfD) e do Partido Verde (centro), a centro-direita alemã enfrenta um cenário de declínio eleitoral e precisa de um novo impulso.

Ao lado do aliado bávaro CSU (União Social-Cristã), a CDU tem de 26% a 28% das intenções de voto, de acordo com as pesquisas. Nas legislativas de setembro de 2017, a coalizão recebeu 33% dos sufrágios.

As perspectivas eleitorais do AfD, a terceira força política no Parlamento alemão após o ótimo resultado em setembro do ano passado, ganharam força com o medo da imigração estimulada pela política de Merkel, que aceitou abrir as fronteiras do país e receber mais de um milhão de sírios e iraquianos entre 2015 e 2016.

Recuperar eleitores

Para os aspirantes à liderança da CDU, o principal objetivo é recuperar os antigos eleitores, que agora preferem a extrema-direita.

Por este motivo, Merz questionou o direito de asilo na forma como está definido na Constituição alemã. Kramp-Karrenbauer aposta na proposta de repatriar os refugiados condenados por algum crime, inclusive os sírios.

Todos os candidatos querem distância do legado de Merkel.

"Foi um erro levar a CDU para a esquerda, o que permitiu ao AfD se situar à direita sem fazer grandes esforços. Também foi um erro permitir durante meses uma perda de controle nas fronteiras", afirmou a revista Der Spiegel.

"A CDU deve reconhecer, embora com isto pareça que vão matar a mãe", completou a publicação.

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