Gonzalo Fuentes/Reuters
Gonzalo Fuentes/Reuters

Protesto contra lei antiburca acaba com 3 detidas

Polícia diz que mulheres não foram presas por usar véu islâmico longo, mas por protestar diante da Notre-Dame sem autorização

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / PARIS

Três mulheres que vestiam longos lenços islâmicos foram detidas ontem, em Paris, no primeiro dia de vigência da lei que proíbe o uso da burca na França. As prisões temporárias foram realizadas na frente da Catedral de Notre-Dame, a mais importante da capital, durante um protesto não autorizado pela polícia.

Segundo o Ministério do Interior, porém, a detenção ocorreu porque as três muçulmanas não tinham informado as autoridades sobre a manifestação, e não porque usavam os véus. Convocadas pela associação Touchez pas à ma Constitution (Não toque na minha Constituição, em tradução livre), as muçulmanas tinham como intenção provocar a primeira ação policial contra o uso da burca na França.

Pela lei, elas seriam multadas em ? 150 e obrigadas a participar de um "curso de cidadania" patrocinado pelo Ministério do Interior. "Há 12 anos eu a uso e continuarei a usá-la. É a França e o Estado laico que me dão o direito de ser muçulmana praticante", afirmou Kenza Drider, de 32 anos. "Essa lei é um atentado aos direitos europeus. Estou apenas defendendo a minha liberdade de ir e vir e minha liberdade religiosa", argumentou.

O protesto, o assédio dos jornalistas - incluindo de uma rede de TV iraniana, a Al-Alan - e as discussões com franceses que decidiram opinar sobre a lei chamaram a atenção da polícia. Dezenas de agentes e um ônibus foram mobilizados para a intervenção. As três muçulmanas foram, então, obrigadas a embarcar no veículo.

Além de enfrentar a polêmica, o governo do presidente Nicolas Sarkozy, autor da proposta de proibição da burca, terá de enfrentar outro problema. Ontem, o secretário-geral adjunto do Sindicato de Comissários de Polícia, Emmanuel Roux, afirmou que a lei é "extremamente difícil de ser aplicada" e, por essa razão, será "muito pouco aplicada". Contribui para o pouco impacto prático da legislação o fato de que não mais de 2 mil a 3 mil mulheres usam burca em todo o país, segundo levantamentos independentes.

Cruzada francesa

150 euros

é o valor da multa para quem for flagrado com o rosto coberto nas ruas da França

2 mil

é o número estimado de mulheres que usam burca no país

5 milhões

de muçulmanos vivem na França

PARA ENTENDER

Sarkozy alega preservar raiz cultural do país

A proibição do uso de véus que cubram o rosto inteiro na França entra em vigor depois de um ano de debates e campanhas pró e contra a medida. Apoiadores do governo de Nicolas Sarkozy consideram a lei um passo necessário para a preservação da cultura francesa e para o combate do que eles consideram tendências separatistas entre os muçulmanos da França. Considerada difícil de aplicar, a legislação não menciona o Islã em texto. Segundo as novas regras, porém, os policiais franceses não têm o direito de mandar as muçulmanas tirarem os véus no meio da rua e são obrigados a acompanhá-las a uma delegacia para que elas sejam identificadas. Os muçulmanos criticam a medida, alegando que ela fere a liberdade religiosa. Os principais movimentos islâmicos franceses calaram-se ontem, mas muitas muçulmanas têm planos de continuar usando os véus. / NYT e AP

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