Protesto de tibetanos ganha atenção na China

Em meio à intensificação da onda de imolação de ativistas, delegados debatem tema no Congresso do Partido Comunista e culpam 'estímulo externo'

CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2012 | 02h03

Sete tibetanos se imolaram na semana passada em protestos contra a política chinesa para a região, trazendo a quase 70 o número de pessoas que adotaram a medida extrema de atear fogo ao próprio corpo desde março de 2011. Os casos recentes coincidiram com o início do Congresso do Partido Comunista que deve definir nos próximos dias a mais ampla transição de poder no país em uma década.

Só na quarta-feira, véspera da abertura do evento, quatro tibetanos se imolaram em diferentes regiões do oeste chinês, recorde para um único dia. Três deles eram adolescentes. No sábado, um jovem de 18 anos identificado como Gonpo Tsering ateou fogo a seu corpo na Província de Gansu, no noroeste da China, segundo a agência oficial de notícias Xinhua (Nova China). Dois outros haviam se imolado entre quinta e sexta.

A maior parte dos quase 70 casos ocorreu fora da Região Autônoma do Tibete, em áreas habitadas por tibetanos nas Províncias de Sichuan, Gansu e Qinghai.

"Esses protestos têm o objetivo de enviar à nova geração do regime não eleito da China um sinal de que os tibetanos vão continuar a lutar por sua liberdade, apesar dos esforços chineses de subjugá-los e intimidá-los", disse em nota a diretora da entidade Free Tibet, Sephanie Brigden.

Enquanto seus corpos são consumidos por chamas, os que se imolam pedem o retorno do dalai-lama ao Tibete e o fim do domínio chinês na região.

Na sexta-feira, estudantes tibetanos saíram às ruas em duas cidades de Qinghai para protestar contra políticas de Pequim e reivindicar a volta do dalai-lama, o líder espiritual que se exilou na Índia em 1959, depois que um levante fracassado tentou colocar fim à presença chinesa no Tibete.

Ontem, milhares de pessoas se reuniram em Dharamsala, na Índia, para homenagear os que se imolaram - a cidade é a sede do governo tibetano no exílio. "Os novos líderes chineses têm de reconhecer que sua política de linha dura no Tibete falhou totalmente e só por meio do diálogo poderá ser encontrada uma solução pacífica e duradoura", afirmou Lobsang Sangay, que desde abril de 2011 ocupa o posto de líder político dos tibetanos no exílio.

Acusações ao dalai-lama. A questão do Tibete foi discutida na sexta-feira em encontro dos delegados da região durante o Congresso do Partido Comunista em Pequim.

Em entrevista no fim da reunião, o vice-governador da Região Autônoma do Tibete, Losang Gyaltsen, repetiu o discurso oficial que responsabiliza o dalai-lama pelos atos de protesto. "Alguns dos casos de imolações foram estimulados e planejados por grupos separatistas do exterior" declarou.

A tensão na região se tornou aguda a partir de março de 2008, quando o Tibete viveu o mais grave conflito étnico em décadas entre tibetanos e chineses han, a etnia que representa 92% da população chinesa, mas é minoritária na região autônoma.

Desde então, a presença militar no oeste da China foi intensificada e a segurança aumentou ainda mais depois do início das imolações. O Tibete e sua capital, Lhasa, vivem sob virtual lei marcial, com inúmeras barreiras policiais e forte presença militar.

Apesar do controle, dois tibetanos se imolaram em maio no centro da cidade, nos primeiros casos do tipo registrados na capital.

O embaixador dos Estados Unidos na China, Gary Locke, visitou áreas tibetanas na província de Sichuan em setembro e, no mês seguinte, manifestou preocupação em relação à situação na região.

"Nós imploramos aos chineses que se encontrem com representantes do povo tibetano para endereçar e reexaminar algumas das políticas que levaram a algumas das restrições, violência e imolações", declarou Locke em um fórum online nos Estados Unidos, segundo agência internacionais.

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