Protesto em Londres amplia cisão governista

Manifestações de quarta-feira constrangem liberais-democratas, aliados dos conservadores

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2010 | 00h00

Há seis meses no poder, a coalizão que governa a Grã-Bretanha está enfrentando seu primeiro teste de sustentabilidade. Os protestos realizados por entre 20 mil e 50 mil estudantes na sede do Partido Conservador, em Londres, na quarta-feira, constrangeram deputados liberais-democratas, que se mostraram ontem dispostos a votar contra a reforma da política de bem-estar social defendida pela maioria conservadora no Parlamento.

Segundo analistas políticos, o impasse é a primeira fissura entre o primeiro-ministro, David Cameron, e seu adjunto, Nick Clegg. As dúvidas sobre a estabilidade da coalizão entre conservadores e liberais cresceram após o ataque dos estudantes à Millbank Tower, a sede do Partido Conservador. No maior protesto de rua em 20 anos na Grã-Bretanha, os universitários mostravam-se insatisfeitos com o projeto que retira os subsídios públicos ao ensino superior, medida que, na prática, quase triplicaria o custo do ano de estudo, de 3.200 libras para 9.000 libras - cerca de R$ 25.000.

Segundo o jornal The Independent, os protestos marcaram "o fim da era de consenso para o governo de coalizão". Em reportagem, o diário ouviu de líderes políticos liberais-democratas que a insatisfação no interior do partido é crescente com as medidas de austeridade anunciadas pelo secretário do Tesouro, George Osborne. Entre elas está o projeto que suspende por três meses o seguro-desemprego de trabalhadores que recusarem uma oferta de emprego - e por três anos os que não aceitarem três propostas.

"Definitivamente, as fissuras estão aparecendo", afirmou um ministro ao Independent. "Nós estamos começando a compreender que a lua de mel acabou, não concordamos em tudo e nunca concordaremos."

A insatisfação sobre o pacote de cortes na assistência social levantou dúvidas sobre a fidelidade do voto dos liberais-democratas no Parlamento. Pelo menos 25 deputados da bancada liderada por Nick Clegg, entre os quais o ex-líder do partido, Menzies Campbell, estariam entre os "rebeldes". Também a secretária do Interior, Lynne Featherstone, estaria refletindo sobre seu apoio às medidas.

Parte da rebelião na base aliada tem relação direta com a liderança de Nick Clegg. Isso porque o líder liberal havia afirmado durante a campanha eleitoral ser radicalmente contra o aumento da anuidade nas universidades. Agora, no governo, Clegg defendeu o projeto de Cameron.

Em pronunciamento ao Parlamento, o vice-primeiro-ministro reconheceu que "não está apto" a manter suas promessas. "Por causa da situação financeira e dos compromissos do governo de coalizão, nós não temos podido conduzir uma política diferente", argumentou.

As alegações não impediram a erosão do apoio à coalizão, que caiu 9% nas últimas semanas. Ontem, Aaron Porter, presidente da União Nacional de Estudantes (NUS, pelas iniciais em inglês), prometeu novas manifestações para evitar que as universidades voltem a ser exclusivas "para os filhos de ricos". A possibilidade traz de volta o espectro dos protestos de rua vividos no governo de Margaret Thatcher, nos anos 80.

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