Protesto estudantil na Síria termina em violência

Uma rara manifestação de centenas de universitários da Síria terminou em violência hoje, quando forças de segurança agrediram e prenderam vários manifestantes que gritavam por liberdade e unidade no país. A Síria enfrenta semanas de protestos contra o governo, apesar da repressão oficial.

AE, Agência Estado

11 de abril de 2011 | 14h39

Vídeos divulgados na internet mostram o que parecem ser policiais à paisana agredindo manifestantes, enquanto estes marchavam dentro do câmpus da Universidade de Damasco. Um ativista em contato com os estudantes confirmou a gravação.

As manifestações começaram na Síria há mais de três semanas e ganham força, com dezenas de milhares de pessoas pedindo reformas no regime autoritário do presidente Bashar al-Assad. Mais de 170 pessoas já foram mortas na repressão aos protestos, segundo grupos pelos direitos humanos.

A reação árabe e internacional à violência tem sido relativamente pequena. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, sugeriu que os Estados Unidos não se envolverão no assunto. No mês passado, Hillary disse que Assad é "um líder diferente", em comparação com o líbio Muamar Kadafi. Segundo ela, muitos congressistas norte-americanos que visitaram a Síria "acreditam que ele é um reformista".

Com o número de mortes aumentando, porém, outros na comunidade internacional fizeram críticas. A França condenou duramente a violência hoje, qualificando-a como "inaceitável" e pedindo reformas imediatas. "Reforma e repressão são incompatíveis", afirma um comunicado do Ministério das Relações Exteriores da França.

Um porta-voz do governo alemão, Steffen Seibert, criticou a contínua repressão aos manifestantes. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse a Assad, em conversa por telefone, que estava "bastante perturbado" pelos relatos de violência. Segundo Ban, a morte de manifestantes pacíficos é inaceitável e deve ser investigada.

A maioria das manifestações na Síria até agora ocorreu fora da capital. O fato de estudantes se reunirem em Damasco hoje sugere que os manifestantes ganham força. Um ativista disse que a maioria dos estudantes no protesto era de Deraa, cidade do sul que tem sido o epicentro da violência, e da cidade portuária de Banias - 300 quilômetros a noroeste da capital, Damasco -, onde quatro estudantes foram mortos ontem.

Hoje, cerca de 2 mil pessoas foram ao funeral das quatro vítimas, segundo testemunhas, gritando que "a morte é melhor que a humilhação". Os militares entraram em Banias nesta manhã, tomando posições em áreas estratégicas, porém o Exército se retirou horas depois e manteve posições nas proximidades.

Segundo uma testemunha, escolas e lojas estavam fechadas em Banias por causa do temor de mais confrontos. A fonte disse que a ida do Exército foi recebida com alívio, pois os militares não atuam como as "gangues contratadas pelo regime".

O governo atribui a violência no país a gangues. Ontem, a televisão estatal afirmou que assassinos mataram nove soldados em uma emboscada perto de Banias. O suposto ataque aos militares não pode ser confirmado por fontes independentes, pois o governo impôs restrições severas à cobertura e muitos jornalistas, inclusive da Associated Press, receberam ordens para deixar o país.

Assad realizou aberturas para tentar conter os protestos, incluindo substituir funcionários locais e conceder nacionalidade síria a milhares de curdos, uma minoria longamente esquecida. Mas os gestos não satisfizeram os manifestantes, que exigem liberdades políticas e o fim das leis de emergência em vigor há décadas.

Ontem, Assad ordenou a libertação de 191 detentos presos nas últimas semanas durante protestos no subúrbio da capital de Douma, onde 12 pessoas foram mortas a tiros na última sexta-feira. As informações são da Associated Press.

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