Protesto na China deixa 156 mortos

Um dos piores das últimas décadas, confronto entre policiais e manifestantes da minoria uigur fere mais de 800

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2009 | 00h00

Pelo menos 156 pessoas morreram e 828 ficaram feridas durante manifestações e confrontos com a polícia que tomaram as ruas de Urumqi capital da província muçulmana de Xinjiang no domingo, em um dos mais graves casos de conflito étnico da história recente da China. Segundo a agência Nova China, 1.434 pessoas foram presas.No início da madrugada de hoje ainda não havia informações oficiais sobre as circunstâncias das mortes nem justificativas para o grande número de vítimas na repressão a um protesto, que reuniu entre mil e 3 mil manifestantes. Por volta da meia-noite de domingo, 20 mil integrantes das forças de segurança ocuparam Urumqi, prenderam centenas de pessoas e interromperam o trânsito em várias regiões para impedir a retomada dos protestos. A agência oficial de notícias Nova China ressaltou que o total de mortos poderia aumentar. As manifestações começaram pacificamente por volta das 18 horas de domingo, quando cerca de 300 pessoas reuniram-se no centro de Urumqi para exigir a punição para suspeitos do assassinato de dois operários da minoria étnica uigur em uma fábrica na Província de Guangdong (Cantão), no sul da China, no dia 26. Muçulmanos, os uigures são o principal grupo étnico de Xinjiang, a maior província da China, localizada no extremo oeste do país.O crime de Guangdong teria sido cometido por chineses han, etnia à qual pertence 92% da população do país. As duas mortes ocorreram durante uma briga que deixou 118 feridos e começou após um uigur ser acusado de assediar sexualmente uma colega han da fábrica.Após uma hora de manifestação, os protestos tornaram-se violentos e espalharam-se por várias regiões de Urumqi. Os manifestantes entraram em choque com a polícia e atacaram veículos, edifícios e civis. Segundo relatos de testemunhas publicados pela Nova China, vários chineses da etnia han foram perseguidos e agredidos ou mortos por grupos de uigures. O texto distribuído pela agência afirma que as ruas da cidade estavam cobertas de sangue, enquanto o céu era cortado pela fumaça que saía dos carros e edifícios incendiados. Segundo as autoridades locais, 260 veículos e 203 prédios foram destruídos pelos manifestantes. A imprensa oficial disse que ontem ocorreram protestos em outra cidade de Xinjiang, Kashgar, onde a polícia dispersou cerca de 200 pessoas que se reuniram perto de uma mesquita.A violência do confronto revela o grau de tensão étnica existente em Xinjiang e ecoa os protestos que ocorreram no Tibete em março de 2008, quando choques entre manifestantes e a polícia deixaram um número ainda desconhecido de mortos. O governo chinês afirma que foram 22, mas grupos ligados ao líder espiritual dalai-lama falam que chegaram a 140 os mortos nos confrontos, que ocorreram em várias regiões habitadas por tibetanos. As autoridades chinesas atribuíram a responsabilidade pelas mortes de domingo a Rebiya Kadeer, a presidente do Congresso Uigur Mundial, organização com sede na Alemanha que defende a independência de Xinjiang (mais informações nesta página). Empresária, Rebiya era uma ativista de direitos humanos quando foi presa em Urumqi em 1999, acusada de entregar segredos de Estado a estrangeiros, "crime" comumente atribuído a dissidentes chineses. Libertada em 2005, Rebiya exilou-se nos EUA, onde seu marido vivia desde 1996.SEMELHANÇAS COM O TIBETE"Os protestos foram um crime premeditado e organizado. Eles foram instigados e dirigidos do exterior e promovidos por criminosos no país", dizia nota divulgada pelo governo chinês. Segundo texto publicado por todos os jornais oficiais da China, "investigações preliminares" indicavam que as manifestações foram "idealizadas" por Rebiya. Quando ocorreram os protestos no Tibete no ano passado, o governo chinês fez acusação idêntica ao dalai-lama, o líder espiritual tibetano que vive exilado na Índia. Entidades ligadas aos uigures sustentam que os confrontos tiveram origem na violência com que a polícia reprimiu pessoas que se manifestavam pacificamente. Até as 14 horas de ontem, as agências oficiais de notícias chinesas afirmavam que três pessoas haviam morrido nos protestos e no confronto com a polícia. A partir de então, a cifra subiu para 129 e, em seguida, 140. Na madrugada de hoje, já eram 156 vítimas."O número de mortos é chocante", disse ao Estado Phelim Kine, da Human Rights Watch em Hong Kong. Kine ressaltou que a reação de Pequim é semelhante à adotada no Tibete no ano passado, quando a região foi virtualmente isolada. "Nós não sabemos exatamente o que ocorreu e as medidas adotadas pelo governo chinês dificultam a verificação independente dos fatos", ressaltou.

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