Protestos alteram a política paraguaia

Em meio a 'escraches' públicos, políticos começam a perder imunidade

Roberto Simon, enviado especial, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2013 | 02h06

ASSUNÇÃO - Os problemas do Congresso paraguaio não costumam ser tema no salão de beleza Rommy, frequentado pelas moças e senhoras da alta sociedade de Assunção, mas a presença da senadora Mirta Gusinky - que semanas antes votara contra a cassação da imunidade de um colega acusado de nepotismo - ouriçou a clientela, na segunda-feira. Entre berros e xingamentos, Mirta foi enxotada do local (segundo algumas versões, com o cabelo ainda coberto de creme).

O Paraguai vive um momento inédito, em que a política está invadindo espaços onde não costumava frequentar, na forma de uma revolta difusa contra a corrupção. A onda teve início no dia 15 com um protesto bem-humorado: lojas, restaurantes e taxistas resolveram boicotar Mirta e os outros 22 senadores que protegeram Victor Bogado, acusado de ter colocado a babá de suas filhas como funcionária da Câmara e de Itaipu, com supersalários.

A revolta popular teve efeito e, pouco depois, os senadores voltaram atrás e puniram o colega. No entanto, isso não debelou a ira dos paraguaios e, esta semana, um terceiro congressista deve perder a imunidade para ser processado por corrupção. Outros sete aguardam na fila.

O "caso da babá de ouro" foi descoberto depois que a Justiça obrigou órgãos públicos a divulgarem as listas de seus funcionários com os respectivos salários (ao Estado, o advogado do senador negou que ela cuidasse das crianças, apesar das fotos difundidas na imprensa em que a mulher aparece carregando as meninas).

Mas, além de Bogado, os paraguaios ficaram sabendo de centenas de escândalos envolvendo contratações indevidas e nepotismo - alguns tragicômicos, como o do juiz que teria conseguido nomear 33 parentes para cargos comissionados. Integrantes de praticamente todos os partidos, além de membros do judiciário, sindicalistas e jornalistas estão sendo obrigados a se explicar após as denúncias.

O estopim da crise foi o caso de Bogado e "os 23" que votaram contra a suspensão de sua imunidade parlamentar. No dia seguinte, milhares de paraguaios protestaram diante do Congresso e tiveram início os chamados "escraches" - xingamentos e gritaria diante dos políticos. Ao final, mais de 150 estabelecimentos comerciais, de pet shops e a filiais da Pizza Hut, proibiram a entrada dos senadores que tentaram proteger o colega. Execrados quando estavam fora de casa ou do Congresso, eles tiveram de ceder, mas, desde então, já houve três manifestações em Assunção e uma nova está marcada para quinta-feira até a sede do Judiciário.

Cuidados. Rommy Ahler, proprietária do salão de beleza de onde a senadora foi expulsa, não aderiu ao boicote. "Indignei-me quando eles protegeram Bogado, mas as portas aqui estão abertas a todos", explica. Rommy diz que a congressista lhe telefonou perguntando se poderia fazer o cabelo e chegou no local, em um dos bairros mais nobres da capital, no fim do expediente. Mesmo assim, foi alvo da ira das clientes. "Sou totalmente contra a corrupção, mas xingando as pessoas não vamos mudar o Paraguai", diz a cabeleireira.

Como em outros lugares do mundo, os indignados paraguaios são produto das redes sociais, especialmente Facebook e Twitter. Nas últimas semanas, ganhou fama o aplicativo de celular "Quem eu escracho?", com fotos e detalhes dos políticos, para ajudar a identificá-los pelas ruas.

Outra semelhança com ondas recentes de protesto no Brasil ou na Turquia é que, desta vez, setores das classes média e alta estão envolvidos. Derlis Peralta, um empregado da indústria farmacêutica, de 29 anos, é um dos principais organizadores via Facebook das marchas. "Temos partidos a bordo, mas há muitas pessoas, talvez a maioria, que vêm sozinhas. Protestamos porque a situação é insustentável e agora temos os meios para combater a corrupção."

Há ainda grupos da sociedade civil, como associações de advogados, que tentam colocar o foco da revolta paraguaia não apenas no Legislativo, mas também no Judiciário. Uma das principais organizadoras da marcha da quinta-feira é Kattya González, presidente da Coordenação de Advogados do Paraguai, que pede a destituição imediata de todos os ministros da Corte Suprema. Segundo ela, a toga paraguaia impede a fiscalização efetiva das ações do Estado e juízes e políticos "se protegem mutuamente".

A revolta, porém, não atingiu a imagem do presidente Horacio Cartes, acusado de ser um dos maiores contrabandistas de cigarros do mundo. Os casos de nomeações indevidas dizem respeito, sobretudo, ao Legislativo e ao Judiciário. Cartes, um novato na política, mantém-se afastado e discreto.

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