Protestos ameaçam governo espanhol acusado de corrupção

Denúncia de que políticos do partido governista, incluindo o premiê Rajoy, receberam 'mensalão' põe gabinete em risco

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2013 | 02h05

Protestos de ruas e um abaixo-assinado com mais de 500 mil firmas colhidas em 24 horas pediram ontem, na Espanha, a demissão do primeiro-ministro Mariano Rajoy e da cúpula do Partido Popular (PP, centro-direita), suspeitos de terem recebido um "mensalão" de empreiteiras.

O caso vem sendo detalhado há dez dias pelos jornais El Mundo e El País e, além do atual premiê, implica seu antecessor conservador, José María Aznar, atuais e ex-ministros, supostamente beneficiados por um esquema de corrupção que durou entre 1997 e 2004.

As revelações foram possíveis graças a documentos contábeis do PP obtidos por El País, que mostraram a transferência de recursos de empreiteiras e outras empresas privadas que disputam concorrências públicas a membros do PP. Segundo o jornal, Rajoy teria recebido € 25 mil por ano de empresas, montante similar ao recebido por Aznar ao longo de sua gestão como líder do partido e depois como premiê.

Ontem, reportagens informaram que 70% dos recursos recebidos pelo PP violavam a lei de financiamento partidário, que na ocasião autorizava a doação de recursos, desde que declarada ao fisco.

O escândalo fez explodir a insatisfação da opinião pública espanhola, que ao longo dos últimos anos vem atribuindo a crise econômica do país - o desemprego na Espanha é de 26,1% da população ativa - à má gestão econômica, mas também à corrupção de sucessivos governos. Na noite de quinta-feira, os primeiros protestos, ainda pequenos, ocorreram nas principais cidades do país, entre as quais a capital, Madri. Ontem, a petição criada por uma organização não governamental recebia 40 mil assinaturas por hora. A expectativa de Pablo Gallego, organizador do site www.change.org, é que mais de um milhão de assinaturas pedindo a demissão de Rajoy sejam registradas até hoje.

Apesar do ceticismo do organizador da petição, entre analistas políticos espanhóis cresce a convicção de que o escândalo pode derrubar Rajoy. Desde a publicação das primeiras revelações, o premiê ainda não falou com a imprensa nem publicou declarações sobre as acusações. A expectativa é a de que Rajoy se pronuncie hoje sobre as denúncias. Ontem, a número 2 do governo espanhol revelou qual será a linha da defesa: distanciar o gabinete do primeiro-ministro do seu partido. "O governo é uma coisa e os partidos são outra", alegou Soraya Sáenz de Santamaría.

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