Protestos atingem mídia turca

Pressão do governo e interesses comerciais de grupos de comunicação afetam cobertura

Tom A. Peter*, da Christian Science Monitor, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2013 | 02h07

Nos primeiros dias de protesto em Istambul, a CNN-Turk, versão turca da rede noticiosa americana, optou por exibir um documentário em três partes sobre pinguins em vez de cobrir o que é, muito possivelmente, a maior matéria jornalística na Turquia em décadas. A maioria dos jornais e estações de televisão não cobriu os eventos ou desvalorizou seu significado.

A mídia turca está entre os mais duramente atingidos pelas manifestações na Turquia, em muitos casos perdendo a confiança tanto do governo como dos manifestantes. As omissões colocaram em foco problemas como autocensura, controle do governo e a propriedade dos grandes conglomerados que há muito reduziram sua credibilidade.

"A mídia é um produto da política de informação do governo, particularmente da forte hostilidade entre as altas esferas do poder e a imprensa crítica - que inclui pressões a jornalistas e colunistas que criticaram as políticas do AKP (o Partido da Justiça e Desenvolvimento, governante)", diz Nina Ognianova, coordenadora do Programa para Europa e Ásia Central da Comissão de Proteção a Jornalistas (CPJ).

No fim do ano passado, a CPJ soltou um relatório revelando que a Turquia tinha mais jornalistas presos do que qualquer outro país. Embora a Turquia tenha reduzido esse número de 61 para 47 desde que o relatório saiu, a cultura do medo continua imperando nas redações turcas. O desejo de autopreservação e a manutenção do emprego levaram muitos jornalistas turcos à autocensura e à relutância em fazer matérias críticas sobre o governo.

Os repórteres turcos não enfrentam apenas a pressão aberta do governo, mas também a pressão menos óbvia de suas próprias organizações. Na Turquia, a maioria das estações noticiosas pertence a grandes conglomerados com interesses em setores de largo alcance como energia e imóveis. Boas relações com o governo são fundamentais para manter e desenvolver empresas nesses setores.

Não surpreende que muitos consumidores de mídia turcos mais ou menos desistiram dos produtos da mídia tradicional aqui, recorrendo antes ao Twitter, ao Facebook e à blogosfera.

Alguns órgãos de mídia estão começando a mostrar uma maior disposição de cobrir manifestações e questões que podem desagradar o governo. A NTV, uma das maiores redes de notícias na televisão daqui e uma parceira da MSNBC, pediu oficialmente desculpas por ter modestamente aumentado a cobertura dos protestos. Alguns jornalistas turcos que cobriram choques entre manifestantes e policiais receberam muitos olhares enviesados e gozações de manifestantes.

Para muitos manifestantes, as declarações de mea-culpa e a cobertura tardia dos protestos não bastam. "Houve muito mais derramamento de sangue e eles só agora pedem desculpa. É tarde demais", diz Sude Elderm, uma estudante de música. Ela acrescenta que embora nunca confiasse na mídia local, o desempenho recente desta nos protesto foi a gota d'água.

A mídia ainda pode reformar e reconstruir sua reputação, mas com as mudanças necessárias em quase todos os níveis - governo, proprietários e jornalistas - as reformas provavelmente demandariam um tempo considerável que os órgãos de mídia tradicionais simplesmente não têm.

"Creio que há uma pressão vinda de baixo agora, em especial de jovens que não compram jornais nem assistem noticiários na TV. Eles só buscam informações no Twitter ou em blogs. As coisas estão mudando rapidamente. A maneira como as pessoas consomem mídia, em especial os jovens, está mudando de tal modo que a mídia terá de se ajustar para não perder toda sua receita publicitária", diz Asli Tunc, um professor e diretor da Escola de Mídia na Universidade Bilgi em Istambul. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É Jornalista

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