EFE/EPA
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Anistia Internacional fala em mais de 100 mortos nos protestos contra aumento da gasolina no Irã

Nem as inúmeras prisões nem os cortes na internet, que dificultam tomar conhecimento da situação no país após dias de violência, parecem ter acalmado os manifestantes que se revoltaram contra o fim do subsídio ao combustível

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2019 | 16h25
Atualizado 20 de novembro de 2019 | 14h40

TEERÃ - Dias de protestos no Irã em razão dos aumentos dos preços dos combustíveis e a subsequente repressão do governo já deixaram 106 mortos na república islâmica, como afirmou a Anistia Internacional nesta terça-feira, 19, citando o que chamou de "relatórios críveis". 

O governo do Irã, que não disponibilizou números oficiais sobre mortos e presos, não comentou a denúncia da organização.  egundo a agência Associated Press, um pedido para que a Embaixada do Irã na ONU comentasse a informação não foi atendido. 

   

O relatório da Anistia foi divulgado pouco depois de a ONU informar que temia haver um "significante número de presos e mortos" no país. A Anistia Internacional acrescentou que o número real de mortos pode ser muito maior, e algumas de suas fontes sugeriram que ele pode passar de 200. 

Nesta terça-feira, três agentes das forças de segurança morreram no Irã em meio à onda de revolta, que teve início com a decisão inesperada do governo, na sexta-feira, de retirar subsídios e aumentar o preço da gasolina. 

Nem as inúmeras prisões nem os cortes na internet, que dificultam tomar conhecimento da situação no país após dias de violência, parecem ter acalmado os manifestantes.

Postos de combustível e bancos incendiados

Em Teerã, centenas de policiais de choque armados com cassetetes foram enviados nesta terça-feira, 19, ao lado de canhões de água para várias praças da capital, informaram os jornalistas da agência France-Presse

No leste de Teerã, dois postos de gasolina foram queimados e depois cercados pela polícia, enquanto no oeste uma delegacia foi atacada por manifestantes.

O porta-voz da autoridade judicial, Gholamhossein Esmaili, citado pela agência de informações dessa instituição, a Mizanonline, pediu à população que denuncie "para a aplicação da lei os sediciosos, os germes da violência e todos que cometeram crimes". 

Sem dar números, Esmaili disse que houve várias prisões de pessoas que queimaram mesquitas ou bancos, além de "indivíduos que forneceram imagens ou informações para a mídia estrangeira e inimigos" do Irã. 

Nas primeiras horas desta terça-feira, as agências Isna e Fars anunciaram a morte de três agentes das forças de segurança esfaqueados em uma "emboscada" na Província de Teerã. 

Os três mortos são um oficial da Guarda  Revolucionária, o exército ideológico do Irã, e dois membros do Bassidj, um grupo de voluntários islâmicos. As agências iranianas falam em seis mortos desde o início dos protestos. 

A televisão oficial transmitiu imagens da área de Andimeshk, no sudoeste do país, na qual um homem que parece portar uma arma dispara contra um grupo de jovens jogando pedras.

Sem internet

Os protestos começaram na noite de sexta-feira, poucas horas após o anúncio da reforma do sistema de subsídios à gasolina que, segundo o governo, beneficiaria as famílias mais carentes, embora isso represente um aumento significativo de preços.

Os protestos acontecem alguns meses antes das eleições legislativas programadas para fevereiro.

Centenas de jovens iranianos da classe trabalhadora expressaram sua revolta com a degradação do padrão de vida, a corrupção e a disparidade crescente entre ricos e pobres. 

Imagens das redes sociais mostraram manifestantes queimando imagens de autoridades de alto escalão e pedindo a renúncia dos líderes clericais, além de confrontos violentos entre as forças de segurança e os manifestantes.

Desde 2018, quando os Estados Unidos mais uma vez impuseram sanções econômicas ao Irã, a economia está em recessão. 

O PIB iraniano caiu 4,8% em 2018 e deve cair novamente 9,5% este ano, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). 

A inflação, causada pela queda do rial, a moeda local, é oficialmente de 40%. 

A reforma que desencadeou os protestos significa que o preço da gasolina, que é altamente subsidiado, aumentará em 50%, passando de 10.000 riais para 15.000 riais (11 centavos de euro) nos primeiros 60 litros comprados por mês. 

Se esse valor for excedido, o preço do litro é multiplicado por três, chegando a 30.000 riais. 

De acordo com as autoridades, a medida ajudará os 60 milhões de iranianos mais pobres de uma população total de 83 milhões de pessoas. 

Na segunda-feira, a Guarda Revolucionária alertou que está disposta a "reagir decisivamente contra a insegurança e ações que perturbam a paz social". 

Em nível internacional, o escritório de direitos humanos da ONU disse nesta terça-feira que ficou "alarmado" com relatos de uso de munição real usada contra manifestantes no Irã. 

"Estamos especialmente alarmados com o fato de o uso de munição real ter causado um número significativo de mortes em todo o país", disse Rupert Colville, porta-voz da ONU. 

A França, por sua vez, lamentou "a morte de vários manifestantes", enquanto que a Alemanha pediu ao país que "respeite a liberdade de reunião e expressão". 

A Turquia espera, por sua parte, que o clima "acalme o mais rápido possível" em seu país vizinho. 

No domingo, os Estados Unidos condenaram o uso de violência e a "restrição de comunicações", em referência à internet cortada desde sábado.

Segundo a ONG NetBlocks.org, que supervisiona a liberdade de acesso à internet no mundo, os iranianos estão "isolados do mundo exterior" pelo desligamento da rede, que funciona apenas com 5% da sua capacidade normal. / AFP e REUTERS   

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