Protestos contra charges de Maomé ganham força

Governo francês, após ordenar fechamento de embaixadas e escolas no exterior hoje - dia de orações -, veta manifestações dentro do país

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2012 | 03h03

Enquanto os protestos contra a publicação de charges de Maomé por um semanário francês ganhavam força no Afeganistão, no Irã e principalmente no Paquistão, governo, políticos, imprensa e intelectuais na França praticamente adotaram um discurso único de tolerância religiosa e respeito à liberdade de expressão. Ontem, a revista alemã Titanic anunciou que na próxima sexta-feira publicará novos desenhos do profeta.

Os franceses viviam na noite de ontem a expectativa pela reação do mundo muçulmano hoje - principal dia de orações no mundo islâmico - aos desenhos que saíram na quinta-feira no semanário satírico Charlie Hebdo. A publicação levou o governo de François Hollande a ordenar o fechamento de embaixadas, escolas e centros culturais em 20 países hoje.

De acordo com agências de notícia, os protestos antiocidentais realizados em Cabul, Teerã e Islamabad reuniram algumas centenas de pessoas, em geral jovens. No Irã, os manifestantes gritavam palavras de ordem como "Morte à América", "Morte a Israel" e "Morte à França", mas não provocaram incidentes. Um cordão de isolamento foi feito ao na embaixada francesa. Os incidentes violentos se limitaram ao Paquistão, onde 11 pessoas ficaram feridas em choques com a polícia.

Em Paris, o Ministério do Interior anunciou a proibição de protestos que aconteceriam no Trocadero e em frente à Grande Mesquita de Paris, assim como nas ruas de Marselha no sábado. No interior da França, um jovem de 18 anos foi denunciado à polícia por seus amigos por supostamente estar preparando um ataque contra os responsáveis pelo Charlie Hebdo.

Na França e no exterior, o dia de ontem foi de apelos à calma e, predominantemente, reprovações aos redatores da publicação satírica, que substituiu o filme americano Inocência dos Muçulmanos como foco da insatisfação de muçulmanos. "Quando alguns utilizam a liberdade de expressão para provocar ou humilhar outras pessoas em seus valores e crenças, eles não pode ser mais protegidos da mesma forma", afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon. "A liberdade de expressão, um direito fundamental e um privilégio, não deve ser usada abusivamente."

No meio político, governo e oposição na França se aliaram para reprovar a iniciativa do Charlie Hebdo e chamar os muçulmanos a ignorar as provocações. Rachida Dati, ex-ministra da Justiça do governo de Nicolas Sarkozy e descendente de árabes, pediu à comunidade que não se deixe levar pela revanche. Para ela, os redatores interesses mercadológicos, e publicaram as charges em um "golpe editorial inoportuno".

O Estado tentou ontem ouvir o cartunista Charb e Gérard Biard, diretor de redação de Charlie Hebdo, sobre essas acusações. Um porta-voz da publicação disse que os responsáveis não concederiam mais entrevistas. Tarik Ramadan, filósofo muçulmano e professor da Universidade Oxford, na Grã-Bretanha, sugeriu aos muçulmanos que nem mesmo se manifestem hoje. "Mesmo que nossos corações estejam feridos, nossa inteligência deve ter a dignidade de não responder. Essa é a resposta a ser dada", defendeu em entrevista à rádio Europe 1.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.