Protestos contra eleições param Porto Príncipe

Apoiadores de candidato cantor não se conformam com perda; 1 pessoa morreu e outras 5 ficaram feridas

, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2010 | 00h00

Pelo menos uma pessoa morreu e outras duas ficaram feridas ontem em Cap-Haitien, no norte do Haiti, durante confrontos entre seguidores do candidato governista Jude Celestin e militantes do candidato Michel Martelly. Inúmeras manifestações e conflitos causados pelos resultados do primeiro turno das eleições presidenciais, que deixaram Martelly de fora da disputa, pararam Porto Príncipe, onde a sede do partido do presidente René Préval foi incendiada.

Outras cidades do país também enfrentaram protestos - em Mirebalais, três militantes ficaram feridos. Milhares de manifestantes tomaram as ruas de Porto Príncipe erguendo barricadas e iniciando incêndios, enfurecidos com o fato de que Celestin, protegido do impopular Préval, disputará o segundo turno contra a candidata Mirlande Manigat.

Préval pediu que os candidatos tentassem conter seus apoiadores. Em um comunicado pelo rádio, o presidente defendeu o resultado do primeiro turno, descartando rumores de que uma fraude teria invalidado a votação e culpando a Embaixada Americana em Porto Príncipe por criticar as eleições. O presidente disse ainda que a população está sofrendo com os protestos, que começaram na terça-feira, após o anúncio dos resultados.

A professora de direito e ex-primeira-dama haitiana Manigat ficou em primeiro lugar na votação, com 31,4%, seguida por Celestin, com 22,5%. Martelly obteve 21,8%, ficando atrás de Celestin por apenas 6,8 mil votos.

Fogo. Jornalistas da agência Associated Press viram as chamas sobre o telhado da sede do partido governista, centro da campanha de Celestin. Testemunhas contaram que o fogo queimou o edifício por cerca de uma hora.

Os manifestantes disseram que guardas atiraram enquanto o prédio era invadido. Não houve, porém, nenhuma confirmação sobre feridos no local. Vários caminhões dos bombeiros foram usados para apagar as chamas - uma cena incomum em uma cidade com poucos serviços públicos confiáveis.

Veículos foram apedrejados e lojas roubadas. Funcionários estrangeiros de entidades de ajuda reclamaram que a resposta da polícia haitiana foi lenta e muitos policiais se recusaram a comparecer ao serviço por causa do resultado das eleições. A American Airlines informou que cancelou seus voos ao país, pois os protestos impediram que funcionários do aeroporto fossem trabalhar.

Os partidários de Martelly incendiaram barricadas também na cidade de Pétionville, onde a fumaça dos pneus chegou a escurecer a paisagem. Milhares de pessoas tomaram as ruas entoando canções políticas. Moradores de Les Cayes contaram que prédios governamentais também foram atacados e incendiados.

Em Cap-Haitien, houve confronto direto entre partidários de Celestin e Martelly. Os disparos que mataram um rapaz começaram durante uma briga entre os militantes. Um policial contou que os manifestantes saíram de vários pontos da cidade, a segunda maior do país.

"Se Michel Martelly não for presidente, em um ou dois dias a situação vai piorar muito. As tensões aumentarão e mataremos pessoas", disse Lucate Hans, de 22 anos, enquanto carregava um pôster da campanha de seu candidato.

Validade. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, declarou ontem que os problemas relativos às eleições são piores do que os originalmente relatados. No entanto, o chefe dos observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Comunidade do Caribe (Caricom), Colin Granderson, disse que os problemas enfrentados não invalidam o resultado. /AP e AFP

PARA ENTENDER

Votação foi válida, dizem observadores

As eleições do dia 28 no Haiti não contaram com listas de votação atualizadas por causa das milhares de mortes provocadas pelo terremoto de janeiro e do recente surto de cólera. O resultado foi anunciado na terça-feira e deixou de fora do segundo turno, que será disputado em janeiro, o cantor Michel "Sweet Micky" Martelly, provocando revolta de seus militantes. Observadores internacionais, porém, declararam válido o resultado da eleição.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.