Ramon Espinosa/AE
Ramon Espinosa/AE

Protestos contra ONU por epidemia de cólera no Haiti deixam 2 mortos

Instabilidade. Nações Unidas dizem ter atuado 'em legítima defesa' e acusam grupos 'com motivação política' de tentar minar as eleições do dia 28; número oficial de mortos por cólera chega a 1.034, mas grupos humanitários afirmam que cifra é ainda maior

, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2010 | 00h00

PORTO PRÍNCIPE

Confrontos entre soldados da Missão das Nações Unidas para Estabilização no Haiti (Minustah) e manifestantes que acusam tropas da ONU de ter iniciado uma epidemia de cólera deixaram pelo menos 2 mortos e 14 feridos desde a noite de segunda-feira. Os confrontos com vítimas ocorreram na segunda maior cidade do Haiti, Cap-Haitien, na região norte, mas distúrbios também foram registrados em Hinche, no centro do país.

Ao todo, a epidemia de cólera já deixou 1.034 mortos, de acordo com dados do Ministério da Saúde do Haiti. Outros 16.799 haitianos estão hospitalizadas por causa da bactéria. Mas, segundo grupos de ajuda humanitária, o número real de vítimas da cólera é ainda maior.

A ONU admitiu ter disparado contra manifestantes, mas declarou ter atuado "em legítima defesa". Em Hinche, seis capacetes azuis acabaram feridos - todos de origem nepalesa.

Manifestantes queimaram pneus e interditaram as principais ruas da região portuária de Cap-Haitien, onde começaram os confrontos. Ao tentar encerrar os protestos, militares nepaleses da missão da ONU teriam sido recebidos com pedradas e pauladas. Disparos ainda eram ouvidos na noite de ontem em favelas da cidade.  

 

 

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"Estamos preocupados. Nossos postos estão recebendo reforços e a polícia haitiana está ajudando os capacetes azuis a se proteger de ataques", disse por telefone à agência France Presse o porta-voz do Exército do Nepal, Ramindra Chhettri.

Segundo a imprensa haitiana, a onda de protestos foi causada pela forma como a ONU vem conduzindo a luta contra a epidemia. No entanto, as Nações Unidas emitiram ontem um comunicado no qual culpavam grupos "com motivação política" que estariam tentando "criar um clima de insegurança" duas semanas antes das eleições (mais informações nesta página).

"A Minustah exorta a população a permanecer atenta e a não se deixar manipular pelos inimigos da estabilidade e da democracia", afirmou a organização. A ONU mantém atualmente 12 mil militares no Haiti.

Acusações. A epidemia de cólera reavivou a oposição local à presença de tropas estrangeiras. Grupos acusam soldados nepaleses de ter provocado a epidemia da doença, que nunca havia sido registrada no Haiti. A ONU nega as acusações.

Ontem, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que a prioridade é conseguir controlar a cólera no país e não encontrar os culpados pela tragédia. Ainda de acordo com a instituição, as acusações contra nepaleses não passam de "informação manipulada".

Organizações humanitárias que trabalham no país mais pobre das Américas afirmam que a cifra de haitianos contaminados pode ser ainda maior. A ONG Médicos Sem Fronteiras declara ter tratado só em suas clínicas mais de 12 mil pessoas - o governo haitiano diz haver em todo país menos de 17 mil pessoas contaminadas.

Ontem, foi registrado o primeiro caso de cólera - de um cidadão haitiano - na vizinha República Dominicana, apesar das medidas adicionais tomadas para evitar que a doença chegasse no país. Santo Domingo qualificou de "sério perigo" a doença e reforçou o controle de fronteiras. / AFP, AP e REUTERS

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