REUTERS/Siphiwe Sibeko
REUTERS/Siphiwe Sibeko

Protestos contra prisão de ex-presidente provocam mortes e África do Sul põe soldados nas ruas

Criminosos saquearam e queimaram lojas, se aproveitando da revolta de apoiadores de Jacbo Zuma; atual presidente diz que atos de violência 'raramente foram vistos na história de nossa democracia'

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 09h00
Atualizado 13 de julho de 2021 | 12h28

JOHANESBURGO — Ao menos 45 pessoas morreram na África do Sul em meio a protestos e saques que começaram após a prisão do ex-presidente Jacob Zuma. Mais de 750 pessoas já foram detidas.

O primeiro-ministro da província de Gauteng - onde está localizada a capital, Joanesburgo -, David Makhura, anunciou nesta terça-feira, 13, que dez pessoas morreram durante o saque a um shopping de Soweto.

"A polícia descobriu dez corpos na segunda-feira à noite. Estas pessoas morreram em um momento de confusão e correria", relatou o premiê, acrescentando que o número total de vítimas na província chegou a 19.

Mais cedo, Sihle Zikalala, primeiro-ministro da província de Kwazulu-Natal, epicentro da violência e região natal de Zuma, havia informado um total de 26 óbitos. De acordo com Zikalala, sem se referir a localidades específicas, várias das mortes ocorreram em meio a "correrias neste contexto de distúrbios".

Na segunda à noite, o presidente Cyril Ramaphosa anunciou o envio de tropas para auxiliar a polícia a conter os distúrbios e "restaurar a ordem".

Os primeiros incidentes, com estradas bloqueadas e caminhões incendiados, aconteceram na sexta-feira, 9, no dia seguinte da prisão do ex-presidente Jacob Zuma (2009-2018), condenado a prisão por desacato à Justiça.prisão do ex-presidente Jacob Zuma. No fim de semana, os atos de violência se espalharam por Joanesburgo, capital econômica do país. Os incidentes continuaram nesta madrugada, especialmente em Soweto.

Pelo menos 757 pessoas foram detidas, segundo relato do ministro responsável pelas forças de segurança, Bheki Cele, em entrevista coletiva nesta terça-feira. Cele destacou que a maioria das prisões ocorreu em Joanesburgo.

O ministro afirmou ainda que a polícia vai garantir que a situação "não se deteriore ainda mais". Enquanto isso, seguem os saques a lojas na capital e em Pietermaritzburgo, capital da província de Kwazulu-Natal, onde Zuma começou a cumprir uma pena de 15 meses de prisão por desacato, após se recusar a depor em processos em que é acusado de corrupção.

Na manhã desta terça, por exemplo, dezenas de mulheres, homens e crianças invadiram as câmaras frigoríficas do açougue Roots, na praça Diepkloof, em Soweto. De lá, saíam com pesadas caixas de carne congelada nos ombros, ou sobre a cabeça. Um único segurança particular permaneceu no local, enquanto tentava se comunicar por telefone, supostamente para pedir reforços. A polícia chegou quase três horas depois e disparou balas de borracha.

Ao anunciar o envio de militares, o presidente Ramaphosa disse ser de "vital importância que restauremos a calma e a estabilidade, sem demora, em todas as partes do país".

"O caminho da violência, os saques e a anarquia levam apenas a mais violência e devastação", advertiu. "O que estamos vendo agora são atos oportunistas de criminalidade, com grupos de pessoas instigando o caos apenas para acobertar saques e roubos", acrescentou.

"Não há agravante, nem qualquer razão política, que possam justificar a violência e a destruição", insistiu, enquanto seu antecessor Zuma passava sua sexta noite atrás das grades.

Apesar de ter sido afastado da direção do governista Congresso Nacional Africano (CNA) e da Presidência após sucessivos escândalos, o ex-presidente mantém uma base de seguidores fiéis.

No domingo, os atos, inicialmente concentrados na região natal do ex-presidente, se disseminaram para outras áreas. A província de Gauteng, onde está a maior cidade do país, Johanesburgo, também teve roubos e incêndios.

Na noite desta segunda-feira, o presidente Cyril Ramaphosa disse que os tumultos poderiam levar à escassez de comida e remédios nas próximas semanas. Ramaphosa afirmou que os atos poderiam acarretar em uma interrupção maior do programa de imunização justamente quando o país estava intensificando a vacinação.

“Partes de nosso país sofreram vários dias e noites atos de violência, destruição de propriedades e saques que raramente foram vistos na história de nossa democracia”, disse o presidente, que substituiu Zuma no cargo em fevereiro de 2018 e é do mesmo CNA que governa a África do Sul desde o fim do regime do apartheid.

Nas províncias de Gauteng e KwaZulu-Natal, alguns postos de vacinação contra a covid-19 e clínicas em foram fechados por questões de segurança, o que dificulta ainda mais a lenta campanha de imunização no país. 

Até 10 de julho, apenas 6% da população sul-africana recebeu pelo menos uma dose do imunizante, segundo dados do site Our World in Data, da Universidade de Oxford. Não apenas a África do Sul, mas todo o continente africano atualmente enfrentam uma terceira onda "extremamente brutal" da pandemia.

Enquanto isso, criminosos estão aparentemente se aproveitando da revolta de apoiadores de Zuma para roubar e destruir estabelecimentos, segundo a polícia. Um comunicado dos militares disse que "os processos de pré-envio de tropas começaram",  mas um cinegrafista da Reuters em Pietermaritzburg viu soldados armados já nas ruas.

Imagens feitas pela Reuters na cidade de Katlehong, em Gauteng, mostraram a polícia disparando balas de borracha contra saqueadores para dispersá-los. No Shopping Jabulani, em Soweto, próximo a Johanesburgo, criminosos passaram por câmeras de TV carregando mercadorias roubadas.

Lojas de bebidas também foram roubadas, mesmo com a venda de bebidas alcoólicas atualmente proibida no país, devido às restrições para conter a pandemia. 

Na manhã desta segunda-feira, os corpos de quatro pessoas foram encontrados — pelo menos duas estavam com ferimentos de bala — em Gauteng, segundo informou o órgão de Inteligência nacional do país, o NatJoints. Outras duas pessoas foram mortas em KwaZulu-Natal.

A sentença e a prisão de Zuma são vistas como um teste para o Judiciário do país e sua capacidade de agir mesmo contra políticos poderosos. Zuma, de 79 anos, foi preso por desafiar uma convocação do Tribunal Constitucional, a instância máxima da Justiça do país, para depor em uma investigação que apura denúncias de corrupção nos nove anos em que esteve no poder. Ele nega os malfeitos, mas se recusa a cooperar com a investigação.

Segundo estimativas oficiais, cerca de 500 bilhões de rands (R$ 178 bilhões) foram desviados dos cofres públicos durante seu governo — mais de 40 testemunhas ouvidas em inquéritos apontam que Zuma estava no centro dos esquemas de desvio.

O ex-presidente entrou com um recurso contra a detenção, alegando que sua saúde é frágil e que seu risco de contrair covid-19 seria maior na prisão. Em uma audiência virtual nesta segunda-feira, o advogado de Zuma pediu à Justiça que revogasse sua pena de prisão, citando uma regra de que os julgamentos podem ser reconsiderados se feitos na ausência da pessoa afetada ou contendo um erro de patente. Especialistas jurídicos, no entanto, dizem que as chances de sucesso do ex-presidente são mínimas./ REUTERS e AP

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