Protestos deixam 125 mortos no Quênia

Polícia reprime manifestação de partidários da oposição, que acusam presidente reeleito de ter fraudado votação

Nairóbi, O Estadao de S.Paulo

31 de dezembro de 2007 | 00h00

Pelo menos 125 pessoas morreram em protestos em várias cidades do Quênia, depois de o presidente Mwai Kibaki assegurar sua reeleição na votação de quinta-feira, marcada por acusações de fraude.Nos confrontos mais violentos, policiais reprimiram manifestantes nas favelas de Nairóbi, capital e maior cidade do país. A polícia teve de usar bombas de gás lacrimogêneo e dar tiros para o alto para conter a multidão enfurecida. Vários moradores locais, no entanto, foram atendidos nos hospitais com ferimentos de bala e acusaram os policiais pelos tiros."Os políticos brancos podem pagar um avião e sair daqui. Mas é a gente como eu, que fica aqui, que sofre na mão do governo", disse Alex Busia, de 22 anos, que acusou a polícia de ter atirado contra ele e um amigo. Busia passou por uma cirurgia para retirar a bala que atingiu seu abdome.Moradores da favela de Mathare, em Nairóbi, onde lojas foram saqueadas, disseram que a polícia ameaça atirar em qualquer um que deixe sua casa. "Policiais estão anunciando em alto-falantes, colocados em caminhões, que atirarão para matar em qualquer um que esteja nas ruas", afirmou o motorista de táxi Argwings Odera.Na cidade de Kisumu, reduto da oposição, no oeste do Quênia, 21 corpos estão no necrotério de um hospital, levados para lá durante a noite e pela manhã, disseram testemunhas. Tentando conter os protestes em um dos momentos de mais tensão política no Quênia desde a independência, em 1963, o governo encheu as ruas com agentes de segurança e proibiu emissoras de TV de fazerem qualquer tipo de transmissão ao vivo."Muitos dos casos de violência na África têm sido desencadeados pelo incitamento das emissoras de rádio e TV", justificou o porta-voz do governo Alfred Mutua. "Não podemos nos esquecer do que aconteceu em Ruanda", acrescentou, referindo-se à guerra civil de 1994, cuja cifra de mortos é estimada em até 1,5 milhão de pessoas.A luta política no Quênia - país de mais de 34 milhões de habitantes, de envolve a etnia luos, que apoiou o líder opositor derrotado, Raila Odinga, contra Kibaki, do grupo étnico kikuiu (também conhecido como mao-mao). Odinga convocou uma manifestação para quinta-feira no principal parque de Nairóbi para protestar contra a eleição. "Vamos concentrar 1 milhão de quenianos no Parque Uhuru no dia 3", disse Odinga, numa entrevista coletiva."Sem Raila, sem paz", gritavam jovens na favela de Kibera, em Nairóbi, uma das maiores da África. Eles ergueram fogueiras nas estradas e incendiaram um posto de gasolina antes de a polícia entrar na área, lançando bombas de gás lacrimogêneo. Corpos se espalhavam pelas ruelas lamacentas. Na favela de Korogocho, agitada por confrontos entre manifestantes e policiais, uma testemunha disse ter visto 15 corpos.A violência ameaça afastar os investidores do Quênia - uma das maiores economias do leste da África - e prejudicar a reputação do país de ser um oásis de relativa estabilidade em uma região marcada pela guerra e violência.REUTERS E EFE

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