EFE/EPA/IGOR KOVALENKO
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Primeiro-ministro do Quirguistão renuncia em meio a protestos por eleição fraudulenta

Distúrbios deixaram pelo menos 1 morto e cerca de 700 feridos na capital d ex-república soviética

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2020 | 15h31

BISHKEK - O primeiro-ministro do Quirguistão, Kubatbek Boronov, renunciou nesta terça-feira (6) em meio aos distúrbios e protestos que deixaram ao menos um morto e cerca de 700 feridos, após as eleições legislativas de domingo cujos resultados foram anulados.

Boronov, próximo ao presidente Sooronbai Jeenbekov, foi substituído por um político libertado da prisão na segunda-feira pelos manifestantes, Sadyr Japarov, anunciou a assessoria de imprensa do Parlamento.

"Esta decisão foi tomada em uma reunião extraordinária" do Parlamento, cuja sede foi ocupada pelos manifestantes, o que levou a reunião a ser realizada em um hotel, acrescentou.

Pouco antes, a comissão eleitoral desta ex-república soviética da Ásia central anunciou que os resultados das eleições legislativas "foram invalidados".

A decisão foi tomada após uma madrugada de fortes protestos, na qual os manifestantes invadiram a sede do governo e também libertaram da prisão o ex-presidente Almazbek Atambayev, rival de Jeenbekov.

O presidente, de 61 anos, eleito em 2017, anunciou que havia ordenado às forças de segurança que não atirassem contra os manifestantes e pediu à Comissão Eleitoral Central que "examinasse cuidadosamente todas as irregularidades e, se necessário, anulasse os resultados das eleições", o que ocorreu poucas horas depois.

O controvertido resultado das legislativas, com vitória dos partidos favoráveis ao presidente, levou milhares de opositores às ruas da capital, Bishkek. Eles pediam a renúncia do presidente e a convocação de novas eleições.  Os protestos começaram na segunda depois que a polícia usou gás lacrimogêneo e canhões de água para dispersar milhares de pessoas.

Observadores ocidentais dizem que a eleição teve compra de votos. A maioria das cadeiras ficou com dois partidos do establishment que apoiam ligações mais estreitas entre a ex-república soviética e a Rússia

Um dos partidos era próximo do presidente Jeenbekov, que insistiu em uma entrevista à BBC na noite de terça que ele permaneceria como presidente legítimo e era seu trabalho consolidar as posições de várias facções por meio de negociações.

 

Protestos

Grupos de oposição assumiram o controle da maior parte do aparato governamental do país asiático após invadir prédios durante protestos pós-eleitorais. A comissão eleitoral central disse que anulou os resultados da eleição e um novo pleito seria convocado em breve.

Além de invadir a Casa Branca, que abriga o presidente e o Parlamento, os manifestantes ocuparam vários outros prédios, incluindo o gabinete do prefeito. Eles nomearam o próprio chefe interino de segurança nacional, procurador-geral interino e comandante de Bishkek.

Protestos se espalharam pelo país, onde dois presidentes foram destituídos nos últimos 15 anos, interrompendo operações estrangeiras de mineração de ouro e gerando preocupações na Rússia, parceira de longa data.

No entanto, novos confrontos continuam sendo um sério risco, já que os manifestantes permanecem nas ruas. Donos de lojas em Bishkek, receosos de saques, instalaram escudos metálicos para proteger as portas e as janelas de saqueadores. Carros incendiados encheram a cidade depois que manifestantes invadiram o prédio principal do governo na manhã de terça. 

Ele pegou fogo brevemente antes que os serviços de emergência apagassem o incêndio e os destroços de dentro. Papéis do governo e móveis de escritório foram espalhados do lado de fora.

Preocupação geopolítica

O Quirguistão, que faz fronteira com a China, foi por muito tempo uma plataforma para competição geopolítica entre Moscou, Washington e Pequim. O país abriga uma base militar russa e seus líderes e principais grupos de oposição tradicionalmente apoiam ligações próximas com a Rússia.

Mesmo assim, intrusos não identificados incendiaram uma fábrica operada pela Rússia no segundo maior depósito de ouro do Quirguistão na terça, forçando seus proprietários a suspender o desenvolvimento do local.

A base militar russa foi posta em alerta máximo. A mineradora britânica Kaz Minerals disse que suspendeu a produção em sua mina de ouro e cobre de Bozymchak e manifestantes apareceram em minas menores desenvolvidas por empresas chinesas e turcas exigindo a suspensão das operações. 

A mineradora de ouro estatal Kyrgyzaltyn disse que repeliu uma tentativa de ataque ao seu escritório. A canadense Centrera Gold, que opera o maior depósito de ouro do país, disse que está monitorando eventos políticos, mas que suas operações continuam ininterruptas. / REUTERS 

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